Uma nova Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) contra o MST foi criada no Congresso. É a terceira no governo Lula. Nenhuma foi criada no governo FHC.
A CPMI foi articulada pelos parlamentares da bancada ruralista. São aqueles que sequer se encaixam no perfil da bancada do moderno agronegócio. São os resquícios da mentalidade e das práticas do coronelismo no campo brasileiro. Atrasados, não aceitam que a propriedade da terra deva cumprir uma função social, estabelecida na Constituição Federal de 1988. Exigem, ainda, a alteração do código de preservação do meio ambiente para facilitar e ampliar os desmatamentos. Não se incomodam com os latifundiários que mantém milícias, recorrem à violência ou estão vinculados a assassinatos e à existência de trabalho escravo no meio rural.
Ao contrário, normalmente usam as tribunas para defendê-los e assegurar a impunidade dos crimes. Estão presos ao passado, ao modo pelo qual forjaram suas grandes propriedades.
Não interessa ao agronegócio vincular-se a tais políticos. Mas eles são úteis aos seus interesses. Seja para enfrentar os movimentos sociais, seja para rebaixar a legislação no campo ou para pressionar o governo a conceder benesses aos grandes proprietários. Esses parlamentares do atraso são a outra face da mesma moeda: o agronegócio.
Perceber a afinidade intrínseca do setor agro-exportador com o coronelismo não nos exige muito. É intrigante, porém, constatar como a maioria do parlamento se submete à liderança
de uma Kátia Abreu (Demo/TO), Ronaldo Caiado (Demo/GO) ou Álvaro Dias (PSDB/PR), símbolos do atraso e do anti-social, ávidos por espaço na mídia. A imagem do parlamento não está deteriorada apenas pelo graves casos de corrupção. Está, também, pela sua incapacidade
de promover justiça social, assegurar a soberania do país, impulsionar o desenvolvimento com distribuição de riqueza, erradicar o analfabetismo, assegurar políticas de saúde e de educação públicas, efetivar a reforma urbana e Agrária, enfim, resgatar a dívida que há cinco séculos a elite é devedora ao povo brasileiro.
Instalada a CPMI, vamos à luta. Atuaremos para que a sociedade conheça a quem são destinados e como são gastos os recursos públicos. As entidades que prestam serviços e apoio
às áreas de Reforma Agrária desenvolvem trabalhos de assistência técnica, saúde, educação, cooperação agrícola – todas atribuições que eram do Estado, antes do governo FHC –, com
resultados expressivos, que atestam a legitimidade da obtenção e do uso desses recursos. Gostaríamos, aliás, que as entidades patronais da agricultura, inclusive a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), presidida pela senadora Kátia Abreu, fossem, da mesma forma, investigadas.
Vamos aproveitar a CPMI para que a Cutrale explique à sociedade como pode continuar explorando impunemente uma área agrícola que foi grilada da União. Também buscaremos explicações sobre por que o trabalho escravo cresce justamente nas regiões em que o agronegócio está mais consolidado e forte. Queremos uma resposta por que nada foi investigado sobre os 22 trabalhadores rurais semterra que foram feridos à bala, de agosto a outubro de 2009, pelos seguranças das grandes fazendas no Pará. Talvez a CPMI seja uma ótima oportunidade para o governo explicar por que não cumpre a lei e atualiza os índices de
produtividade agrícola. Tomara que a CPMI tenha a coragem de confrontar o modelo do agronegócio com o da agricultura familiar. Enfim, aproveitaremos a CPMI para tentar mostrar
a realidade do campo à população brasileira.
Evidentemente, para tais objetivos podemos contar muito pouco com a chamada grande imprensa. Que, mais do que informar, procura defender seus interesses de classe e atacar
seus inimigos. Abre-se assim, outro grande desafio: a classe trabalhadora desenvolver seus próprios canais de comunicação com a sociedade brasileira.
