Não nos restam dúvidas de que a crise que hoje afeta o sistema capitalista trouxe uma perspectiva otimista para todas as forças políticas que se opunham ao neoliberalismo. Não se trata de recorrer ao conhecidíssimo reducionismo do quanto pior, melhor! Trata-se, sim, de constatar, primeiro, que nossas críticas ao endeusamento do livre mercado, estavam corretas. Segundo, que o capitalismo é incapaz de garantir o acesso aos bens materiais a toda população, de assegurar um aproveitamento racional dos recursos naturais e de proporcionar um desenvolvimento econômico sem aprofundar as desigualdades sociais, o aumento da pobreza e da violência. Enfim, sem promover a barbárie.
As crises podem proporcionar oportunidades aonde os laços de dominação e de exploração, da classe dominante sobre a classe trabalhadora, se tornem mais frágeis e instáveis. Momentos em que os explorados não suportam a exploração e reagem a ela e os exploradores não têm forças para manter a dominação. No entanto, como não poderia ser de outro modo, as classes dominantes também se movimentam para recompor sua hegemonia e manter o sistema capitalista que lhe proporciona o aumento da riqueza as custa da exploração da classe trabalhadora. A recente reunião dos vinte países capitalistas mais desenvolvidos — chamado G20 — reafirmou um pacto global, retirando dos Estados Unidos a responsabilidade única de adotar medidas anti-crise.
Resta saber se o outro lado, os explorados, a classe trabalhadora, irá se restringir a uma condição de passividade, aceitando, mais uma vez, que a classe dominante continue impondo a socialização dos prejuízos e a privatização dos lucros. Ou ao contrário, dessa vez, se a classe trabalhadora aumentar seu nível de organização e capacidade de lutas para dar o troco à classe dominante. No caso específico do nosso país, são gritantes os exemplos de que as classes dominantes continuam acumulando riquezas, mesmo em momentos de crises, aumentando a exploração da classe trabalhadora ou se apoderando dos recursos públicos. Os bancos continuam batendo recordes em seus lucros. Além disso, o salário mínimo hoje, levando em consideração o que está determinado na Constituição Federal, deveria ser de R$ 1.972,64, ou seja, 4,24 vezes o mínimo vigente (R$ 465), de acordo com o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese).
Na agricultura, a Confederação Nacional da Agricultura (CNA), dos ruralistas, aproveitou a questão crise para assenhorear-se dos cofres públicos. Está exigindo R$ 150 bilhões do governo federal para continuar produzindo para a exportação, utilizando maquinários pesados e com grande quantidade de venenos químicos. Enquanto isso, esse mesmo governo promoveu o corte de 48% de todos recursos destinados para a Reforma Agrária. Cortou, em especial, as verbas para desapropriação de terras, assistência técnica e educação no campo. Ou seja, mais uma vez há a tentativa de fazer a classe trabalhadora pagar pela crise.
O descontentamento junto à população, as discussões, debates e elaboração de materiais, as greves e mobilizações que estão surgindo, mostram que a classe trabalhadora está disposta a se fazer ouvir nesse momento de crise. Os desafios da unidade das forças populares, estudantis e sindicais, juntamente com a capacidade de mobilização e lutas, são, nesse momento os maiores desafios a serem superados para que a classe trabalhadora aproveite da situação da crise para obter conquistas.
