A cada ano que passa, cada vez mais o mês de março tem se caracterizado pelas lutas e mobilizações do movimento camponês, especialmente pela organização e atuação das trabalhadoras rurais. As pautas de reivindicações e os manifestos apresentados vão além das demandas específicas e corporativas. Há, com essas mobilizações, um gigantesco esforço para se comunicar com a sociedade e apresentar propostas alternativas ao atual modelo agrícola, fundamentado na economia agro-exportadora. Em linhas gerais, a Via Campesina brasileira propõe uma agricultura que promova a distribuição da riqueza produzida, preserve o meio ambiente e priorize a produção de alimentos saudáveis, assegurando a soberania alimentar ao nosso país.
Desde a segunda metade dos anos 90, empresas transnacionais, sob a hegemonia do capital financeiro, promovem uma ofensiva para dominar a agricultura brasileira. Querem o domínio territorial dos recursos naturais e da biodiversidade, por meio da compra de grandes extensões de terras. Já, há tempos, monopolizam a comercialização da produção agrícola. Querem, agora, dominar também todo o processo produtivo da nossa agricultura, impondo normas e condições que excluem o camponês de sua própria atividade agrícola. Em troca do superávit da balança comercial, ficamos com a degradação ambiental e social, provocada pelos desertos verdes.
Faz parte também, dessa ofensiva do capital sobre a nossa agricultura, assegurar monopólio das pesquisas agrícolas — para isso foi fundamental o governo FHC ter sucateado as empresas públicas de pesquisas. Não basta produzir conhecimentos. É necessário, para garantir a concentração da renda e riqueza produzida, assegurar que esse conhecimento não esteja acessível a todos.
O patenteamento das sementes, a liberação e imposição do uso de sementes transgênicas, não visam apenas assegurar os fantásticos lucros dos grupos agro-industriais transnacionais. Visam, sobretudo, ao controle completo sobre as sementes e, conseqüentemente, sobre a produção de alimentos em nível planetário.
Por último, para fechar o tripé que busca consolidar um espaço para o Brasil no mercado externo, com exportação de produtos primários, resta a rapinagem dos minérios que o capital internacional está fazendo em nosso território. A elite brasileira — com a mídia sendo sua principal porta-voz — se escandaliza com um ministro que gastou R$ 8 com dinheiro público. No entanto, foi conivente com o governo FHC que entregou a maior mineradora do mundo, a Companhia Vale do Rio Doce, e nossas reservas minerais, pela bagatela de pouco mais de R$ 3 bilhões. Num único ano, em 2007, o lucro da Vale foi superior a R$ 20 bilhões. E toda sua modernização, desde então, foi financiada com recursos públicos. Somente em 2007, o BNDES liberou mais de R$ 7 bilhões para este fim. A empresa hoje é o maior símbolo da submissão e subserviência da elite brasileira ao capital internacional. Recuperá-la, torna-se assim, também, símbolo a da reconquista de soberania nacional.
Entender os rumos da Reforma Agrária nos dias de hoje significa compreender as mudanças que estão ocorrendo na agricultura brasileira. Os antigos coronéis cederam espaço para as transnacionais, os grupos financeiros e os capitalistas brasileiros. Estes hoje estão monopolizando as terras e são os verdadeiros inimigos da democratização das terras em nosso país.
Quando lutamos contra esses inimigos da Reforma Agrária, nos acusam de termos perdido o rumo e de promover mobilizações apenas para manter influência na sociedade. A elite pensa assim. E a mídia trata de amplificar essa visão equivocada. Estes segmentos sociais jamais dirão que estamos no rumo certo. E se um dia disserem, aí sim teremos que estar preocupados. Por enquanto, basta eles saberem que pensamos diferente e temos propostas diferentes das deles para o nosso país.
