Às 5h35 da madrugada de 20 de março de 2003, no horário de Bagdá, os EUA iniciaram o violento bombardeio aéreo ao Iraque com o objetivo de ocupar este país soberano, saquear suas riquezas e reafirmar seu poder unipolar no tabuleiro geopolítico. Poucos dias antes de completar cinco anos desta tragédia, em 1º de março, um novo bombardeio e uma nova agressão a uma nação soberana ocorreram mais perto dos brasileiros. O presidente colombiano, Álvaro Uribe, capacho dos EUA na América Latina, ordenou a invasão do território equatoriano e trucidou guerrilheiros das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), inclusive o seu principal negociador da paz, Raul Reyes.
Os dois episódios, tão distantes geograficamente, têm o mesmo pano de fundo: a corrida belicista e expansionista dos EUA para manter sua hegemonia mundial. Fazem parte da chamada “guerra preventiva” do imperialismo, um projeto elaborado nos anos 80 e que só foi colocado em prática pelo presidente-terrorista George Bush após os sinistros atentados de 11 de setembro. Este plano, descrito em detalhes em documentos oficiais da Casa Branca, visa manter o controle de fontes de energia e matérias-primas, intimidar países rivais ao domínio imperial e derrotar todas as forças rebeldes. No Iraque ou no Equador, a “guerra preventiva” do “império do mal” foi aplicada à risca.
A trágica lembrança do Vietnã
E quais os resultados dos EUA? No caso do Iraque, eles são aterradores. Nos cinco anos desta ocupação, o custo militar da operação atinge US$ 3 trilhões (cerca de três vezes toda a riqueza produzida pelo Brasil ao longo de um ano) e já supera os gastos na guerra do Vietnã, segundo cálculos de Joseph Stiglitz, prêmio Nobel de Economia. O plano criminoso de Bush de invadir o país e rapidamente controlar as suas riquezas petrolíferas revelou-se um fiasco. Os 157 mil soldados da tropa regular, além dos 130 mil mercenários, não dobraram a resistência da guerrilha iraquiana. Até final de março, 3.983 militares ianques tinham sido mortos e enviados em sacos pretos aos EUA — o que reforça a trágica lembrança do Vietnã.
Já as mortes, torturas e destruições no Iraque causam maior repulsa dos povos do mundo inteiro contra o imperialismo. Estudos indicam que o número de mortes varia de 800 mil a um milhão de inocentes. “Nós não fazemos a contagem de corpos”, disse, arrogante, o general Tommy Frank, que comandou a invasão. Segundo a Cruz Vermelha, a situação humanitária no país é “uma das mais críticas do mundo”. Milhões de iraquianos vegetam sem acesso à água tratada, saneamento básico ou atendimento à saúde. Mais de quatro milhões de pessoas, o equivalente a 16% da população do Iraque, vivem refugiadas em outros países da região, sem lares, sem presente ou futuro.
O saldo da invasão é devastador. Mesmo assim, Bush insiste em manter suas tropas por “tempo indefinido” e o candidato do seu partido, John McCain, promete mais “cem anos de ocupação”. Já os democratas procuram “reciclar” a desgastada imagem do império, mas não ousam propor a imediata retirada. Hillary Clinton inclusive votou a favor da invasão; já Barack Obama promete deixar o Iraque, mas “só após vencer a guerra”. Na prática, a “guerra preventiva” revela que o imperialismo ianque está em declínio. A recessão econômica já é uma realidade nesta potência; a ação militar expansionista dá sinais de esgotamento; e o presidente-terrorista George Bush e seus neocons caminham para uma fragorosa derrota na sucessão presidencial do final deste ano.
Equador e a provocação belicista
Já no caso da invasão do Equador, a provocação do capacho de Bush não funcionou a contento. A ação do presidente narcoterrorista, Álvaro Uribe, tinha basicamente três intentos: 1) sabotar as negociações humanitárias para a libertação dos reféns das Farc, intermediadas pelos presidentes Hugo Chávez (Venezuela) e Nicolas Sarkozy (França), que poderiam pavimentar o terreno para uma solução negociada do conflito armado que já dura mais de quatro décadas; 2) intimidar os países de região, que hoje adotam posturas mais independentes diante dos EUA e avançam no seu processo da integração regional, criando o clima para um conflito na região bem ao figurino da “guerra da preventiva”; e 3) reforçar a campanha pela segunda reeleição do próprio carrasco Uribe.
Até agora, porém, o plano de implantação da “guerra preventiva” na região não vingou. Todos os países do continente — inclusive os mais servis, como o México — rechaçaram as provocações da marionete de Bush e condenaram a invasão do território equatoriano. O cínico Uribe teve que se desculpar publicamente. Até a Organização dos Estados Americanos (OEA), que sempre seguiu as ordens de Washington, pronunciou-se contra os planos dos EUA, algo praticamente inédito ao longo da história da OEA. Para muitos, ficou patente, também, que Uribe e Bush são falcões da guerra, que não desejam a paz na Colômbia; que ambos dependem do narcotráfico e dos paramilitares para se manter no poder. Por outro lado, a provocação serviu para reforçar a urgência da integração regional, inclusive no campo militar.
Iraque, Equador e outras tantas partes do mundo, como Kosovo ou Tibete, fazem parte do plano imperial dos EUA. Nada que ocorre nestes países pode ser lido com ingenuidade; o que a mídia burguesa difunde deve sempre gerar desconfiança. No caso do Iraque, a bárbara invasão não teve nada a ver com a deposição do ditador Saddam Hussein ou com as tais armas químicas. Tudo foi mentira para justiçar a ocupação de um país soberano, o controle de suas reservas petrolíferas e a intimidação de nações rivais, como o Irã e a própria China. Já na invasão do Equador, o objetivo não foi caçar “narcoterroristas”, como a mídia rotula as Farc. Visou sabotar a paz na Colômbia, perpetuar Uribe no poder e garantir o domínio dos EUA no seu “quintal” latino-americano.
Nestes e noutros episódios dramáticos, porém, fica cada vez mais visível que os EUA não estão mais com esta bola toda. O “império do mal” está em declínio e hoje, mais do que no passado, é possível derrotar os seus planos expansionistas. O desastre no Iraque revela que o imperialismo não é invencível. O crescente desgaste dos senhores da guerra, dos neocons de Bush, e a grave recessão nos EUA comprovam esta vulnerabilidade. Para acelerar este processo, indispensável à paz no mundo e ao bem-estar da humanidade, é preciso reforçar as denúncias dos genocídios e a solidariedade aos povos vítimas da ação imperial. Urge fortalecer o internacionalismo ativo no mundo. O imperialismo não cairá de maduro; depende da ação enérgica e militante dos povos.
*Altamiro Borges é jornalista, membro do Comitê Central do PCdoB e autor do livro “Venezuela: originalidade e ousadia” (Editora Anita Garibaldi, 3ª edição)
