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Grandes transformações no campo abrem a perspectiva do MST se reposicionar na luta de classes

Início » Revista Sem Terra » Quatro anos de Guerra no Iraque

Reforma Agrária, acadêmicos e corujas

Em abril passado, como já ocorreu em anos anteriores, os trabalhadores rurais Sem Terra promoveram uma Jornada Nacional de Luta pela Reforma Agrária e contra a impunidade dos crimes cometidos pelo latifúndio. Uma mobilização que acontece em diversos países, uma vez que a Via Campesina, em homenagem aos mártires do Massacre de Eldorado dos Carajás (PA), ocorrido em 1996, decretou dia 17 de abril como Dia Internacional da Luta Camponesa. Mais ainda, aqui no Brasil, uma lei de 2002 determina o 17 de abril como o Dia Nacional de Luta pela Reforma Agrária. Assim, lutar pela Reforma Agrária é lei!

Empurrados pelas necessidades e desejosos de que o governo seja eficiente, os camponeses foram à luta. Promoveram marchas, atos políticos em órgãos públicos, ocupações de latifúndios e em áreas de monocultivos, fechamento de rodovias e liberações de pedágios.

Mas basta os camponeses irem para a cidade ou mostrarem o mínimo de organização política para que a elite externe todo o seu visceral reacionarismo e preconceito contra os trabalhadores. Multiplicaram-se os editoriais na imprensa exigindo providências do governo para coibir e reprimir as mobilizações. Os políticos identificados com os interesses do latifúndio e do agronegócio em inflamados discursos – pobres de retórica e conteúdo – buscam vincular as mobilizações populares ao caos.

Sabedores de que a elite e, muito menos, os políticos não gozam de prestígio junto à sociedade, restou, aos inimigos da Reforma Agrária, recorrer ao verniz acadêmico para justificar o combate à mobilização dos camponeses. Não faltam os que se propõem a desempenhar esse papel. A maioria destes, auto-confinados em gabinetes com ar condicionado – o que exige que janelas e portas estejam fechadas – proclamam deter o monopólio da verdade e de interpretar a realidade.

Confundem conhecimento acadêmico com a habilidade de ordenar as palavras e dar um estilo pessoal à redação de um texto. Deveriam aprender com as corujas que enxergam nas trevas e não são adeptas de uma visão unidirecional, uma vez que seu pescoço gira 360º e, assim, simbolizam a capacidade de ver o “o todo”! Se aprendessem com as corujas, que só levantam vôo com o cair do entardecer, esses acadêmicos teriam consciência de que o saber exige pesquisa e contato com a realidade. Quando a empáfia e a prepotência substituem esses requisitos do conhecimento, aí facilmente cometemos as sandices de dizer que a Reforma Agrária deixou de ser uma demanda social e que a difusão de informações e do aperfeiçoamento democrático diminuiu a exigência de democratização no campo.

Qual é a política que se propõe para a população de 4,5 milhões de família Sem Terra? Na ditadura militar, havia as alternativas da colonização nas fronteiras agrícolas do país e as periferias urbanas, onde a indústria e comércio ainda necessitavam de mão-de-obra. Essas duas alternativas deixaram de existir. A burguesia esforça-se para ignorar existência dessas famílias e para reprimi-las quando rompem com isolamento que tentam lhe impor. O governo, sensibilizado pelas péssimas condições de vida no campo, instituiu políticas assistencialistas. Mas não se atreve a enfrentar o poder político e econômico do latifúndio e do agronegócio. Toda política assistencialista tem prazo de validade muito limitado. Os camponeses, por meio da organização política e das lutas populares, buscam viabilizar um novo modelo de agricultura, alicerçado na agricultura camponesa e na implementação da Reforma Agrária. Para isso, o Estado precisa priorizar a agricultura camponesa, democratizar a posse da terra, extinguindo o latifúndio e adotando políticas que viabilizem a implementação da agroindústria e da educação nas áreas de assentamentos. Qual das propostas se viabilizará? O tempo e a correlação de forças das lutas políticas é que dirão.

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