Grandes transformações no campo abrem a perspectiva do MST se reposicionar na luta de classes
Num dos debates da campanha à Presidência da República, o candidato Geraldo Alckim disse que o governo Lula era dos banqueiros. Habilidoso, Lula retrucou dizendo quer era engraçado porque os banqueiros ganhavam dinheiro no seu governo e votavam no candidato Alckimin. Dita em tom de ironia, essa resposta arrancou risos do público presente naquele debate – pelo menos da claque pró-Lula.
Cabe apenas um reparo nessa frase: não faz sentido o uso da ironia. A verdade foi expressa literalmente, sem ironias. Logo, não cabiam também os risos. A atual política econômica, implementada desde o governo FHC e que beneficia os banqueiros, é feita às custas do sacrifício e do patrimônio do povo brasileiro.
O governo FHC promoveu a segunda maior onda mundial de privatizações – perdendo apenas para a da Rússia – em que arrecadou cerca de US$ 100 bilhões. Riqueza queimada no pagamento dos juros da dívida pública. As transnacionais ficaram com o patrimônio público e receberam de volta, posteriormente, o dinheiro que foi gasto para comprar as empresas estatais. Nem um centavo foi gasto em programas sociais e a imoral dívida pública sequer diminuiu. Hoje ela ultrapassa a casa de R$ 1 trilhão, apesar de estudos apontarem que boa parte dessa dívida é irregular ou, até mesmo, que ela já foi paga na totalidade por causa dos juros.
Mas Alckmin podia, naquele debate, dizer também que era um governo do agronégocio. E Lula daria a mesma resposta, agora juntando os latifundiários com os banqueiros, no rol dos que votavam em Alckimin mesmo ganhando muito dinheiro no seu governo. O modelo agrícola do agronegócio, centrado nas grandes propriedades, na monocultura e nos interesses do mercado externo, serve para gerar um saldo positivo da balança comercial que será destinado, novamente, para o pagamento dos custos da dívida pública. Nossas melhores terras estão sendo destinadas para o plantio de gigantescas florestas de eucaliptos e para o plantio de soja. Recursos públicos, em quantia cada vez maior, são destinados para essa política agrícola que beneficia menos de 1% do total dos proprietários rurais.
Faltou, ainda, Alckmim lembrar dos que monopolizam a mídia em nosso país. Dizem que são sete ou oito as famílias que dominam os meios de comunicação. Apesar dos grandes recursos para publicidade e que acabaram no bolso desses grupos empresariais, nenhum setor mostrou-se mais raivoso à candidatura de Lula do que a mídia. E, derrotado nas eleições, tudo indica que será na mídia e não nos partidos políticos, que o pensamento mais retrógrado e direitista irá se concentrar para continuar atacando o governo Lula e impedir qualquer mudança na política econômica. Aquilo que eles mesmos estão chamando de terceiro turno das eleições.
O presidente Lula, já reeleito, reafirmou que o seu segundo mandato irá priorizar o crescimento econômico com distribuição de renda. Os movimentos sociais, que se empenharam no segundo turno para reelegê-lo, sabem que essa frase não pode se restringir ao entusiasmo da vitória eleitoral. É preciso transformá-la em políticas de governo. É preciso, sobretudo, coragem e determinação para enfrentar os interesses do capital internacional, do sistema financeiro e de uma elite minoritária que concentra renda e riqueza em nosso país.
Promover o crescimento econômico e a distribuição de renda no campo, como quer o presidente, passa necessariamente pela realização de uma rápida, radical e ampla reforma agrária, que democratize o acesso e o uso das terras agrícolas em nosso país. E uma política agrícola que promova a agricultura familiar. O modelo do agronegócio é incompatível com a agricultura familiar e com a realização da reforma agrária.
Da mesma forma, é cada vez mais urgente democratizar a mídia e construir mecanismos de controle social sobre ela. A reação será violenta. Governar é fazer luta de classes sim. Alegarão, os que monopolizam a mídia e seus colunistas lambe-botas (a mentalidade desses empresários não diferem nem dos ditadores militares, nem dos latifundiários), que se atenta contra a liberdade de expressão. Confundem liberdade de expressão com a liberdade do patrão. Democratizar a mídia, passa pelo incentivo ajuda à imprensa alternativa, pelo fim da repressão às rádios comunitárias e pela democratização ao acesso de novas tecnologias e serviços de comunicação.
Lula já disse que se segundo mandato não poderá ser avaliado em comparação com os oito anos do governo FHC e sim com o seu primeiro mandato. Se verdade, o segundo mandato não pode ser uma continuidade do primeiro. É preciso mudar o rumo. Os movimentos sociais estão dispostos a transformar esses próximos quatro anos em terceiro turno das eleições, para derrotar a burguesia mais uma vez.
Direção Nacional do MST
