Grandes transformações no campo abrem a perspectiva do MST se reposicionar na luta de classes
O governo Lula vai completar dois anos. Ainda não deslanchou. Pelo menos na expectativa das mudanças prometidas na campanha eleitoral de 2002 e nos sonhos acumulados de mais de vinte anos do PT.
O resultado das últimas eleições municipais recolocou na ordem do dia algumas evidências, entre as quais (1) a recuperação política do PSDB (depois do desgastado final do governo FHC), o (2) realinhamento da grande mídia e do empresariado no bloco conservador e alternativo ao pólo articulado pelo PT, e a constatação de que (3) a reeleição do presidente Lula não será nada fácil.
O balanço administrativo do governo não tem - até agora - obras significativas e marcantes. Todo empenho no equilíbrio econômico e financeiro, no combate à inflação e no pagamento dos juros da dívida representa apenas a continuidade da política recessiva e submissa ao FMI adotada anteriormente por Fernando Henrique Cardoso. Não acrescenta nenhuma novidade.
A ampliação de programas sociais assistencialistas tem sido um desdobramento obrigatório do modelo neoliberal de concentração e exclusão. Nada foi alterado em termos estruturais. E ainda não foi adotada nenhuma medida efetiva para a retomada do desenvolvimento econômico e social - e, em especial, para a geração de 10 milhões de empregos prometidos ao povo brasileiro em 2002.
Ou seja, o governo Lula, do ponto de vista administrativo, está devendo para a sociedade muito mais do que fez até agora. Do ponto de vista político, pior ainda, o governo Lula tem se afastado sistematicamente de sua base social e dos compromissos assumidos perante o povo.
Muita gente ainda acredita que o partido e o governo vão promover a reaproximação, vão reencontrar o rumo certo e vão corresponder às expectativas dos 53 milhões de eleitores que consagraram Lula nas urnas de 2002. No entanto, muita gente já perdeu a esperança e coloca o governo Lula no rol das lutas populares que tombaram no confronto com as classes dominantes, pela rendição das principais lideranças.
O recado das últimas eleições deve servir de alerta geral para o governo Lula: ou ele reage na rearticulação das esquerdas e dos movimentos sociais para cumprir as propostas fundamentais do povo (soberania nacional, geração de empregos, distribuição da renda, ensino público em todos os níveis, sistema público de saúde, reforma agrária ampla e massiva, democratização da comunicação social etc.), ou ele vai sucumbir tentando gerenciar a crise do capitalismo neoliberal.
O tempo se esgota. É preciso agir antes que seja tarde demais. Caminhar para o centro e para a direita apenas reforça as virtudes e as vantagens das oposições conservadoras. O eventual fracasso do governo Lula terá um custo imensurável para as lutas dos trabalhadores e das forças democráticas e populares não somente do Brasil, mas de toda a América Latina. A responsabilidade é grande. É hora de dar sentido aos muitos anos de lutas.
