Grandes transformações no campo abrem a perspectiva do MST se reposicionar na luta de classes
Os resultados eleitorais dos últimos anos - principalmente na Argentina, no Brasil, no Equador e na Venezuela - criaram, num primeiro momento, a falsa idéia de que havia um enfraquecimento efetivo das políticas neoliberais e uma aparente retomada dos projetos nacionais de desenvolvimento baseados na inclusão social e no atendimento das necessidades básicas do ser humano.
Havia, em 2002 e 2003, muita expectativa sobre o desenrolar dos governos Kirchner, Lula, Gutierrez e Chávez, como se junto com eles o Mercosul daria um grande salto de qualidade, a ALCA seria definitivamente enterrada e toda a América Latina iria entrar numa nova era de prosperidade, de justiça social e dar um basta no imperialismo e na cruel exploração capitalista.
Agora, no entanto, no segundo semestre de 2004, os quadros políticos e econômicos não se apresentam tão promissores como antes. O governo Gutierrez, no Equador, simplesmente abandonou o discurso nacional-popular do período eleitoral e as alianças com as populações indígenas e campesinas. Mergulhou na política tradicional de subordinação ao império.
O governo Lula, no Brasil, manteve intactas as políticas econômicas neoliberais, as cordiais relações com o FMI e todo o sistema de favorecimento do capital financeiro nacional e estrangeiro, que tanto estrangula a produção, não gera emprego e não distribui renda. No campo internacional, o Brasil se prestou ao papel de policial do imperialismo ao enviar tropas para assegurar a ocupação do Haiti feita pelos Estados Unidos.
O governo Kirchner, na Argentina, ainda tenta fazer algumas resistências ao FMI e ao jogo do capital internacional, aposta na recuperação do seu parque industrial e no nível de emprego, mas não chega a empolgar o povo num projeto independente e nem consegue articular alianças firmes entre os parceiros latino-americanos.
A recente vitória de Chávez, na Venezuela, num plebiscito que confirmou seu mandato com forte apoio popular, indica que o caminho escolhido naquele país tem conseguido não apenas a mobilização e a organização da população mais pobre, mas, também, a construção uma agenda afirmativa da soberania nacional e de confronto com o imperialismo.
Existe, evidentemente, um momento de impasse entre as forças que vinham aplicando o receituário do Consenso de Washington na América Latina, sem enfrentar maiores resistências, e as forças populares e de esquerda, organizadas em movimentos sociais, que se empenham na busca de projetos alternativos ao capitalismo neoliberal - mesmo sem contar com o apoio decidido dos governos eleitos por essa base social.
Em vários países da América Latina, a cobrança para uma mudança de rumo é cada dia mais forte. O empobrecimento do continente chegou a níveis inaceitáveis. A concentração da riqueza e a exclusão social colocaram as desigualdades em patamares jamais vividos anteriormente. O dilema desses governos está em cumprir seus compromissos com o povo, colocar a sua parcela de poder na luta popular ou se colocar no campo adversário - do lado que quem oprime, explora e quer manter tudo como está.
