Na véspera de doze anos do massacre de Carajás, nós não nos esquecemos. Nós, esses tantos, lembramos dos nossos mártires, fazemos questão de cantar, de contar, de apontar contra esses poderosos que cercam a terra, que nos oprimem, que tentam nos matar e calar. Mas seguimos. Em memória daqueles que também acreditaram, e por todos que ainda lutam, juntos, seguimos. Seguimos denunciando a impunidade, seguimos ocupando terra, seguimos construindo um mundo novo. E junto de nós seguem nossos amigos de tantos lugares...
Solidariedade
Dou-lhes toda a minha solidariedade, meu amor de velho companheiro da caminhada. Os mártires do Massacre de Eldorado de Carajás nos cobram e nos acompanham.
Para toda essa santa tribo, un forte abraço no Deus da vida e da terra.
Pedro Casaldáliga
Perigo na terra
Uma tarde de 1996, dezenove camponeses foram metralhados, a sangue frio, por membros da Policia Militar no estado do Pará, na Amazônia brasileira. Em Pará, e em boa parte do Brasil, os amos da terra reinam, por roubo roubado ou por roubo herdado, sobre imensidades vazias. Seu direito de propriedade é direito de impunidade. Doze anos depois da matança, ninguém estava preso. Nem os amos, nem seus instrumentos armados. Mas a tragédia nao havia assustado nem desalentado aos camponeses do Movimento Sem Terra. Os havia multiplicado, e havia-lhes multiplicado a vontade de trabalhar, e de trabalhar a terra, ainda que neste mundo seja imperdoável delito ou incomensurável loucura.
Eduardo Galeano