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Grandes transformações no campo abrem a perspectiva do MST se reposicionar na luta de classes

Início » Especiais e Campanhas » 5° Congresso Nacional do MST

Romper a cerca do analfabetismo

Jorge Pereira Filho,
Brasil de Fato

O nome do lugar onde ela mora pode ser mera coincidência: assentamento Paulo Freire. Mas a baiana Domingas Farias dos Santos viveu, na prática, o significado da expressão “educação para uma liberdade”, cunhada pelo educador brasileiro. “Paulo Freire morreu em dois de maio de 1997, logo quando nos tornamos assentados”.

Domingas tinha, à época, 34 anos. Trabalhava como empregada doméstica em Salvador e, incentivada pela irmã, mudou-se com a filha (então com 7 anos) para um acampamento do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Deixou a vida na periferia, a precariedade e um destino certo. Até então, Domingas engrossava a fileira dos 16 milhões de analfabetos funcionais com 15 anos ou mais, no Brasil. Nascida na roça, trabalhou desde cedo, estudou até a quarta série. “Meu pai não incentivava o estudo, precisávamos ajudar no campo, mas aos 10 anos eu me matriculei por conta própria porque tinha vergonha de não saber ler. Depois, desisti”, conta em uma voz pausada, segura, durante uma atividade do 5º Congresso Nacional do MST, realizado entre 11 e 15 de junho em Brasília.

A conquista do assentamento Paulo Freire, no Recôncavo Baiano, foi a primeira lição. E a resistência na lona preta se tornou a sala de aula. Dez anos se passaram. E quem é Domingas? "Minha consciência é outra. Quando vivia em Salvador, minha lógica era Deus para mim, o Diabo para os outros. Eu me transformei, valorizo o companheirismo". Lágrimas pelo rosto se misturam a uma risada contida. Pausa. Pausa. E o relato continua: “Na minha família, dos meus 11 irmãos, só eu consegui chegar à universidade, as pessoas têm muito preconceito contra uma empregada doméstica, eu mesmo não acreditei que chegaria onde cheguei”.

Domingas engrossa, hoje, outra fileira: a dos 50 mil brasileiros e brasileiras que aprenderam a ler e a escrever no MST, desde 1984. Mais que um exemplo de superação individual, o esforço de um trabalho coletivo desenvolvido nos assentamentos e acampamentos Sem Terra abriu a possibilidade para que ela enfrentasse aquilo que define como cegueira. “Nós dizemos que quem não sabe ler ou escrever é como um cego e pode ser enganado facilmente”.

Hoje, Domingas é uma das 60 alunas do curso de Pedagogia da Terra, ministrado no assentamento 1º de Abril, em Porto Seguro (BA). “Ainda fico nervosa quando vou fazer uma prova”, conta ela, que concluiu nas escolas do MST os estudos da 5ª à 8ª série e também o magistério. Sua filha, hoje com 17 anos, faz planos: “Ela gosta de estudar e diz que vai pra Cuba, fazer medicina, ou Direito, pelo movimento”

Educação para todos

A história de Domingas, no entanto, pode levar a um equívoco. “Não queremos substituir a tarefa do Estado de universalizar o ensino. Nossa prática é exigir constantemente políticas públicas, mas, sobretudo, pressionar fazendo, como nas ocupações de terra”, explica Cristina Vargas, do setor de educação do MST. Um dos compromissos aprovados no 5º Congresso foi o de lutar pelo acesso da classe trabalhadora “ao ensino fundamental, médio e a universidade pública, gratuita e de qualidade”.

No trabalho desenvolvido nos assentamentos e acampamentos, o MST estimula a visão de que o analfabetismo não é produto de uma limitação pessoal. “Enfatizamos que é um direito de todos se alfabetizar e criamos também essa necessidade, nos grupos de estudo, compartilhando responsabilidades. Para quem não sabe ler ou escrever, pegar no lápis é mais pesado do que pegar na enxada”, compara.

Nesse aspecto, tem papel central a pedagogia do MST, que parte da realidade do sujeito com vistas a transformá-la, de forma que o Sem Terra seja o sujeito de sua realidade. “Nós entendemos o movimento como o principal educador. Há uma frase, da Roseli Salete, assim: 'a pedagogia do movimento não cabe na escola, mas a escola cabe em sua pedagogia e no próprio movimento'”, relata.

Poesia

A valorização da educação, para o movimento, é também um dos pressupostos de uma Reforma Agrária com qualidade. “O campo não é um lugar de atraso, isso vale para a fazenda. Precisa ter escola no campo porque tem gente. Queremos direito a formar médicos, advogados, jornalistas, mas não só isso: queremos uma educação para a vida, com mais conhecimento”, resume Cristina. E por que não com mais poesia?

Foi nas escolas do MST que Chocolate, também conhecido como Ariolino Alves Morais, descobriu uma paixão: escrever poemas. Algo um tanto quanto imprevisto há 18 anos, quando esse trabalhador rural de fala tranqüila, anel de tucum na mão esquerda, acampou com sua mulher e seus oito filhos, no Paraná. Seus pais eram analfabetos, ele próprio estudara até a quarta série. “Não sabia interpretar um texto, apenas lia, bem mais ou menos”, lembra.

Recomeçou desde o início e, por meio da Educação de Jovens e Adultos (EJA), concluiu o ensino básico em 1999. Depois, cursou o ensino médio e: “a educação nessa perspectiva libertadora me ajudou a descobrir e a fazer poesia. Comecei brincando, hoje sinto necessidade de escrever”, conta.

Chocolate gosta de fazer poemas sobre as histórias das pessoas e do próprio movimento. E qual sua preocupação quando liberta as palavras? “Poesia tem de desenvolver um tema, posso até mudá-lo no decorrer, mas preservando a coerência. Agora, o essencial é que a poesia tem de ser arrojada e com uma linguagem popular”, responde.

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