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Feira de Reforma Agrária: um espaço de troca e amizades

Débora Dias,
de Brasília (DF)

A semente de milho foi produzida em Ribeirão Preto, São Paulo, mas vai ser cultivada no Mato Grosso do Sul. Nativa da região paulista, é livre de agrotóxicos e transgenia. Por isso, Francisco Machado, assentado há seis meses, está levando um pequeno saco para multiplicar em muitos. “É a nossa independência em relação ao alimento”, explica. Ele participa da feira da Reforma Agrária, realizada no entorno do ginásio Nilson Nelson, em Brasília, durante o 5º Congresso do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).

Banco de sementes, artesanato, culinária regional, frutas, verduras, doces, calçados, roupas, uma diversidade de produtos pode ser encontrada nas cinco tendas armadas, com a produção de assentamentos e acampamentos do MST nas regiões Nordeste, Sul, Centro-Oeste, Sudeste e Amazônica. Em pouco tempo, o licor de abacaxi feito na Paraíba se prepara para seguir viagem até assentamentos em Goiás. A cebola produzida na Bahia, bem perto do rio São Francisco, vai parar na mesa de uma dona-de-casa em Brasília.

“A feira mostra que o campo está produzindo. Além da venda de produtos, cria amizades. Favorece uma troca de culturas e experiências”, destaca a coordenadora da feira, Joelma Gomes de Queirós. O critério para participar é ser orgânico, artesanal e não-transgênico. “Nosso produto quando vem para a feira nunca tem agrotóxico. Todos vendem o seu alimento e ninguém aqui quer comer veneno”, diz. Ela destaca que muito trabalho foi necessário para organizar toneladas de materiais, de todos os cantos do Brasil.

Sem atravessador

Somente de melancia, Anacleto Menezes trouxe com o filho mais de oito toneladas do município de Santa Maria da Boa Vista (Pernambuco). Além de uva, banana, manga, melão. Tudo vindo da terra dele e da família. Contou com o auxílio do movimento para o transporte até Brasília. “Aquilo que a gente ganha em feira, assim, não vai para o atravessador”, destaca. E tem biscoito, cesta de palha, banana cristalizada, CDs, material para todos os gostos e de diferentes preços.

Há quem siga até o Congresso apenas para participar da feirinha. Essa foi a forma que uma elegante senhora encontrou para apoiar o movimento. “Sou favorável ao MST, é uma vergonha esse país não ter Reforma Agrária”, diz ela, que prefere ser identificada apenas como Lúcia. Levou cebola, melão, farinha de mandioca e estava procurando feijão. “Também comprei bandeirinhas e camisas do movimento”, conta.

A feira é também espaço para o encontro, ouvir histórias, conversar sem pressa, para passear entre o belo. Mestre Antônio, artista de Sergipe e assentado do MST, fez da barraquinha uma exposição de tipos e formas em madeira. Como a escultura do Jesus Sertanejo, crucificado em um mandacaru, com o pote e a enxada aos pés. “Depois que fiz, fui perguntar ao bispo se não era pecado. Ele comprou uma e disse que poderia continuar fazendo”, conta.

O mestre veio do assentamento Asa Imendada, município de Poço Redondo, e está conquistando admiradores dos locais mais distantes, do Rio Grande do Sul à França. “O bom é estar em contato com nossos irmãos Sem Terra de todo Brasil e também de outros países”, ressalta.

A arte indígena e quilombola também esteve presente em exposição numa outra barraca, a da região Amazônica. Objetos em barro, peças em tecido, fotografias e músicas são apresentadas aos visitantes. Um enorme bumba-meu-boi dá as boas vindas. A tenda é uma atração à parte. No teto, palha vinda do Maranhão. A madeira das pilastras é do Pará. O Tocantins trouxe a comida e a arte da floresta. Todos se dividiram em equipes de construção, ornamentação, vendas e cozinha. “Calculamos as tarefas no tempo e no espaço do Congresso. E tudo é ecologicamente sustentável”, diz a coordenadora da tenda Amazônica, Michele Elias, que é assistente social do MST.

Farinha artesanal

Uma viagem no tempo foi possível com a reprodução de uma Casa de Farinha montada durante o Congresso. Assentados e acampados do MST do Sergipe reconstituíram todo o processo de fabricação da farinha de mandioca, nos moldes artesanais. Depois de descascada, a mandioca é levada a um ralador movido à tração humana. Dois homens puxam as cordas, enquanto outro joga a raiz. De lá, segue para a prensa de madeira, manual. Debaixo da tenda, vendiam a farinha e faziam ainda o beiju, o pé-de-moleque feito de mandioca.

Gilson Tavares acompanha todo o processo, com outros dez companheiros e parte das famílias. Trouxeram uma tonelada de mandioca, que não parecia tanto frente à procura. Ele se orgulha em dizer que "peleja só com orgânicos". Na terra que agora é dele, planta também batata, pimentão, tomate, cria galinha entre outros. "O movimento abriu meus caminhos. Um só não faz nada. Tem as dificuldades, mas passa", ensina.

Fonte: Jornal Brasil de Fato

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