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Grandes transformações no campo abrem a perspectiva do MST se reposicionar na luta de classes

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Transnacionais acabam com meio ambiente

O aumento do preço do petróleo, o aquecimento e mudança do clima, a pressão da sociedade e, ainda, a conjuntura vivida por vários países produtores de petróleo (governos nacionalistas que protegem seu petróleo, como Venezuela, Irã, Rússia e Equador, e outros que estão em permanente conflito, como Iraque, Colômbia e Afeganistão) fizeram com que se firmasse uma grande aliança entre as empresas capitalistas no Norte.

Desse modo, foi feita uma união entre três tipos de transnacionais: as petrolíferas, que precisam adicionar outros óleos e diminuir a dependência ao petróleo; as automobilísticas, que não querem diminuir o número de veículos circulando; e as que controlam o comércio agrícola, de onde pode sair o novo combustível, como Cargill, Monsanto, Bunge etc. Essa aliança gerou uma proposta de produção de agrocombustíveis que eles já estão aplicando e que o governo Bush veio aqui apresentar.

A proposta

Eles querem manter o controle do comércio no atacado desse novo agrocombustível; para isso, suas empresas vão financiar a instalação de grandes usinas de álcool ou usinas de biodiesel para óleos vegetais. E eles vão ser donos dessas usinas. Portanto, vão controlar o preço do agrocombustível e o mercado.

Além disso, estão induzindo para que a produção desses vegetais, como cana-de-açúcar, soja, planta de dendê, seja feita em grandes extensões de terra e na forma de monocultura. Assim, facilita-se o controle do acesso à matéria-prima e, com essa escala, diminui-se o preço que vão pagar.

As transnacionais querem manter suas taxas de lucro e, sobretudo, manter a atual matriz de transporte baseado em veículos individuais, que eles produzem e vendem. Ou seja, eles não querem mudar o jeito de viver da classe média e dos ricos do Norte. Dessa forma, em vez de buscar formas mais baratas e limpas de transportar as pessoas, preferem apenas procurar um substituto ou complemento ao petróleo, para continuar ganhando dinheiro sem mudar o modelo.

Da mesma forma, pretendem manter essa mesma matriz energética baseada no petróleo, no carvão e no alto consumo de energia por parte dos ricos do hemisfério Norte. Eles não aceitam mudar a matriz energética, diminuindo os gastos de energia e o consumo de bens de luxo.

Para emplacar esse modelo, as transnacionais passaram a usar os termos biodiesel e biocombustível como uma questão ideológica para transformar esse programa de produção massiva de um novo
combustível, a partir da agricultura, num conceito mais simpático. Bio é sinônimo de vida e, portanto, parece politicamente mais correto, mais aceitável.

Dessa forma, escondem que esse modo de produzir na agricultura, em monocultura e em grande escala, vai trazer enormes conseqüências, como a substituição de áreas que hoje são ocupadas para produzir alimentos, carne, leite etc. Também não falam que a monocultura agrícola gera igualmente mudanças climáticas e o aquecimento do planeta. E escondem, sobretudo, as conseqüências sociais: mais desemprego, mais êxodo rural e mais inchaço das cidades.

Propostas da Via Campesina

A humanidade e o povo brasileiro enfrentam vários problemas relacionados com o uso da energia. Nós temos um jeito de usar a energia que é perdulário, gasta excessivamente. Temos uma energia cara para os trabalhadores. Uma energia que polui o meio ambiente, na produção e no consumo. E que é usada principalmente para o transporte individual, de carros, que é o agente mais poluente das grandes cidades. De modo a enfrentar esses problemas, a Via Campesina está discutindo, em todo o mundo, as propostas dos camponeses para apresentar para toda a sociedade, já que esse é um problema para todos e não apenas para os camponeses.

1º) É preciso mudar o atual sistema de transporte baseado em veículos individuais e priorizar o uso de metrô, trem, barco e ônibus, que possam transportar as pessoas de forma coletiva, mais barata e menos poluente.

2º) É preciso mudar a matriz energética utilizada, atualmente, em todo o mundo, para formas diferenciadas e complementares, que levem as comunidades a produzirem sua própria energia, no que chamamos de soberania energética. Assim, se cada município for autônomo em energia, diminui-se o custo, o transporte e reduz-se a dependência das grandes cidades.

3º) Buscar construir pequenas e médias usinas que levem soberania energética, primeiro, para as comunidades do interior e pequenas cidades, tirando a pressão resultante da necessidade de tanta energia; e, depois, para todo o país.

4º) Devemos produzir energia a partir da agricultura, com base na biomassa ou transformando certos vegetais em energia. Mas o cultivo de vegetais, como cana-de-açúcar, soja, milho e mamona, não pode ser na base da monocultura, que continuará trazendo mais problemas de desequilíbrio e de aquecimento. Problemas esses que o próprio petróleo já causa. Portanto, defendemos que a produção dos agrocombustíveis seja feita na forma de policultura, de forma equilibrada, que não afete o meio ambiente, e sem agrotóxico. Assim, gerará mais emprego, fixando as pessoas no campo, e não destruirá o meio ambiente.

5º) O cultivo de vegetais para energia não pode competir e substituir a produção de alimentos. A prioridade da agricultura é produzir alimentos. E, portanto, num estabelecimento agrícola, podemos usar as piores terras para, de forma complementar, cultivar agrocombustíveis.

6º) A produção desses produtos não pode estar sob controle de empresas transnacionais.

7º) Toda geração de energia num país qualquer deve ser controlada pela própria população nacional. Ou seja, a produção de energia aqui no Brasil deve ser controlada pelos brasileiros.

Fonte: Jornal Sem Terra Especial - Rumo ao 5° Congresso

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