Grandes transformações no campo abrem a perspectiva do MST se reposicionar na luta de classes
Por Rogério Almeida
Na paisagem da viagem que dura aproximadamente uma hora, o visitante só enxerga cerca, pasto, gado e algumas castanheiras mortas. É o rastro deixado pela implantação pecuária extensiva na década de 1960, que cimentou a transferência de terras e recursos naturais para a iniciativa privada.
100 km separam Marabá, a cidade pólo do sudeste do Pará, da “Curva do S”, em Eldorado dos Carajás, local da chacina de 19 sem terra em abril de 2006, sob a ordem do médico Almir Gabriel (PSDB). A chacina que tirou a pacata cidade do anonimato, parece não abalar a consciência nacional.
A mídia, ávida por um motivo para manter o linchamento ao MST, teve a expectativa frustrada, posto a não realização de ocupação, ou mesmo, a reocupação da fazenda Rio Vermelho, em Sapucaia. Em síntese, não houve abril vermelho no sudeste do Pará.
A região é celebrizada como onde mais se mata sem terra no país; onde mais se realiza reintegração de posse, locus onde menos se apura a execução de sem terra, religiosos, advogados.
Até chegar à “Curva do S”, passa-se por dois acampamentos do MST. O primeiro, em Marabá, 26 de Março, e o segundo em Eldorado, Lourival Santana, à beira da PA 150. As áreas estão em nome da família Mutran, notabilizada pela aversão a sem terra. As áreas mantinham trabalhadores em condições análogas à escravidão.
Hoje, no sudeste paraense, o que ocorre é no máximo, um abril azul. A cor dá o tom à estrela que ocupa a logomarca do governo estadual, do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), o mesmo que ordenou o massacre em Eldorado dos Carajás.
O slogan costuma associar um determinador setor à frase, “essa é nossa bandeira”. Assim, o governo do PSDB se apropria de símbolos e discurso do PT: a estrela e bandeira. Tão comuns aos trabalhadores. Como seria então, o slogan em relação ao sem terra? “Sem terra na cadeia. Essa é a nossa bandeira”? Ou, “matar sem terra. Essa é a nossa bandeira”?
Sob o rigoroso inverno que desabriga a anos continuados milhares de famílias, 280 PM´s cumprem mandados de reintegração de posse. O arrastão da PM iniciou no dia 25 de março. Não se tem previsão para terminar. A criminalização e judiciarização marcam os dias na luta pela terra no Pará.
No sudeste do Pará, são seis os presos nos processos de reintegração de áreas. Todos os dias amigos, militantes e simpatizantes são obrigados a levarem refeições aos presos, sob pena de não comerem. Uma centena de sem terra ocupam o pátio do INCRA em Marabá. Até agora seis mandados de reintegração foram cumpridos. Estima-se em 22 o total.
Terra e recursos naturais ocupam o centro da disputa de uma diversidade de atores que dão vida à disputa pelo território nas terras dos Carajás. Pelo controle do espaço, esgrimam sem terra, garimpeiros, indígenas, Companhia Vale do Rio Doce (CVRD), etc. O que confere à região uma dinâmica ímpar.
Ainda que o estado insista em tratar a disputa pela terra numa esfera militar, (a região tem cinco quartéis do Exército), e que uma das maiores companhias de mineração do mundo goze de certa hegemonia na definição do território, os sem terra têm conseguido, em certa medida, territorializar as suas bandeiras.
São em 400 projetos de assentamento na região, à custa de muitas mortes e impunidade. Como o Massacre de Eldorado dos Carajás, a morte da Irmã Adelaide, Gabriel Pimenta, Paulo Fonteles, chacinas nas fazendas Princesa, Ubá, Pau Seco, Fusquinha, Doutor, Dezinho, etc
*Rogério Almeida é colaborador da rede www.forumcarajas.org.br
