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Início » Especiais e Campanhas » Massacre de Eldorado dos Carajás: 10 anos de mortes e impunidade

Depoimento de Miguel Pontes da Silva - SOBREVIVENTE

Depoimento de Miguel Pontes da Silva, 42 anos

Como aconteceu o massacre?

Eu fazia parte da coordenação de segurança, A polícia começou a se preparar, como se fosse para um combate. Corriam com as armas, mostravam, apontavam se ajoelhavam, fazia tudo isso. Nós fechamos portas e ficávamos olhando pela brecha. Eles entraram e falaram “vocês fazem parte desse movimento?”. Quando eu ouvi a turma gritando, eu fui correndo para o meio do pessoal. Eu achava que lá seria só pancadaria, que não haveria tiro nem nada, isso acontece sempre em manifestação. Quando eu cheguei, já tinha um caminhão boiadeiro atravessado. Quando os ônibus de Marabá chegaram com os policiais, já desceram e deram uma rajada para cima. Achamos que era só para nos intimidar. Começamos a gritar palavras de ordem.Tinha um surdo, o finado Amâncio. Ele foi o primeiro que caiu. Começou a fazer gesto com um pau na mão para o policial. Veio outro policial e deu porrada nele pelas costas. Ele caiu e um terceiro deu um tiro. Aí deram uma rajada na perna do pessoal. Todo mundo começou a correr. Nessa hora eu senti uma fisgada na minha perna. Passei a mão, vi o sangue e corri para mato também. Mas quando corri para o mato vi muita gente caída, gritando, feridos. Fiquei ouvindo os tiros e só voltei depois que eles tinham ido embora.

E quando o senhor voltou para o local, o que viu?

Quando eu cheguei tinha um monte de gente amontoada. Havia muito sangue, tinha até miolo de gente. Depois a polícia pegou e colocou dentro da cabeça do que tinha morrido. Muito tiro, e bombas que eles jogavam. Tinham jogado uns no chão, mas tinham colocado outros em cima de uma camionete. Nessa hora eu estava na beira da estrada, olhando eles arrastarem o pessoal pelo pé.

Por que só mataram e acertaram homens ?

Eles estavam procurando as lideranças, os mais jovens e homens. Às vezes fazíamos reuniões, de vez em quando tinham policiais. O major Oliveira sempre ia ao nosso acampamento negociar com o finado Oziel. Ele via que na nossa reunião tinha mais jovens e homens.

Você acredita no numero oficial de 19 mortos?

Não. Tinha muita gente reclamando corpos, deram esse numero e não apareceram parentes. Uma vez, apareceu um cara que tinha dois irmãos que sumiram. Os corpos nunca foram encontrados.

E o que Carajás deixou marcado para você?

Deixou marcado que hoje o que temos devemos aos companheiros que foram mortos, tombados. Depois disso, as coisas ficaram bem mais fáceis para nós. Se não tivesse acontecido isso, até hoje estaríamos lutando nas estradas, acampando.

Qual o seu sentimento por não ter ninguém preso?

Nós fomos ao primeiro julgamento, contando que eles seriam condenados. No final, foi todo mundo absolvido. Queriam condenar os nossos companheiros que estavam lá, em vez de condenar os culpados que mataram os trabalhadores. Depois disso, fizemos manifestações e os dois principais foram condenados, mas estão em liberdade.

Como funciona a justiça?

Não funciona. Os culpados, se forem ricos, não vão presos. Se fosse trabalhador estaria apodrecendo na cadeia. Eu culpo mesmo é o governador. O policial não tem iniciativa para fazer desobstruir uma rodovia dessa, sem autorização. Um tempo depois eu encontrei um policial em Parauapebas, o Edson, e ele falou na minha frente, “dei tanto tiro em Sem Terra que o cano do meu revolver ficou vermelho”. Aquilo foi como dar um tapa na minha cara.

O senhor recebe alguma coisa?

Não, eu tenho um processo rolando na justiça por causa de uma ação que nós entramos contra o Estado. Uma parte dos companheiros conseguiu pegar uma tutela antecipada, que é um salariozinho. O governo diz que está tratando todo os mutilados, mas se não tiver doendo onde foi a bala, eles não nos tratam. Não adianta ir lá com uma dor de cabeça ou algum outro problema que eles não atendem. Que tratamento é esse? Essa balinha aqui já parou de doer, mais eu sofro de dor de cabeça.

Depois de tudo isso o senhor conseguiu sua terra?

Consegui minha terrinha, peguei uns créditos de habitação para custeio, vou me mantenho. Planto arroz, feijão, mas sem assistência técnica só nos restam dívidas para pagar.

E a sua luta valeu?

Valeu. Hoje eu tenho o que eu não tinha antigamente: uma casinha para morar, um pedacinho de terra. Isso eu devo ao Movimento, porque se não fosse ele eu estaria procurando um emprego na rua. Hoje estou trabalhando para mim, não tenho tanta preocupação. Aqui o cara não morre de fome, tem a terrinha dele, ele pode plantar o que quiser.

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