Com ocupação do Ministério da Fazenda e ações em 20 estados, Via Campesina consegue conquistas
Depoimento de Meirton Germiniano, 29 anos
Onde você estava no momento do confronto?
Eu estava no meu barraco, cozinhando uma merenda porque eu tava com fome. Eu me assustei porque achei que era rojão para animar, não desistir. Mas quando me dei por conta, todo mundo estava correndo. Larguei tudo e corri em direção ao meu pai. Quando cheguei lá, tinha muita gente caída. Quando fui socorrê-lo, tomei uma bala na perna. Ele me falou para ficar calado e sentado. Ele estava deitado e eu tomei outro tiro na perna. Tentei levantar meu pai, mas ele não conseguia. Vieram quatro policiais e pegaram meu pai. Fui me levantar e um policial, com um facão de trabalho nosso, me deu uma lapela no peito e eu caí. “Tu vai para onde, ser vergonha? Fica aí! Não queria terra? Olha terra para você aí”, disse. E me bateu mais. Eu não queria perder meu pai. Tinha um companheiro morto e ele me mandou pegar o corpo. E meu pai do outro lado do asfalto. Ele me deu um chute. Me mandaram ir para o barracão onde as mulheres e as crianças estavam escondidas. Era também onde o Oziel estava. Então me disseram para ficar deitado, sem olhar pra ele. Deram uma rajada de tiros lá. Falaram que tínhamos dois minutos para correr e que 1 minuto e meio já tinha passado. Tinha mãe que não sabia onde seu filho estava, e nem criança sabendo onde estava a mãe. Saiu todo mundo desesperado. Eu até ajudei uma criancinha. Nem conseguia andar, mas acho que deus botou uma perna lá para mim. Eu ficava o tempo todo pensando no meu pai, sem saber se ele estava vivo ou morto.
Quantos tiros você tomou?
Foram três, todos na perna. Fui muito humilhado também. Vi tanta gente morta sem poder fazer nada.
Como você achou o seu pai?
Achei em Parauapebas. Eu fui lá na rodoviária, baleado, sangrando. Todo mundo falava “rapaz, vai se esconder porque se eles te verem, matam”. Fui até em casa. Minha mãe me abraçou, chorou. Perguntei pelo meu pai e ela disse que já tinha encontrado ele.
Você conheceu o Oziel?
Conheci. Tínhamos quase a mesma idade. Eu vi aquela hora que ele tava junto com as mulheres se escondendo. Eu vi quando os policiais o pegaram e arrastaram pelo cabelo. Eles falavam “grita MST”, e ele apanhava. Só não mataram ele na hora porque tinha muita gente vendo. Ele gritava “MST, MST”. Bateram muito nele. E nós não podíamos fazer nada. Se levantasse para reagir também já estaria morto.
Nesses últimos 10 anos, como foi a sua vida?
Temos que viver, mas não podemos trabalhar. Sofre mos demais com as seqüelas, a dor. Eu era o braço direito do pai. Ainda bem que temos essa ajuda do estado, porque eu estaria passando fome. Recebo há três anos 300 reais. No sete anos anteriores, ficamos só com a cara e a coragem.
O que o Massacre deixou?
Tristeza, sofrimento, dor, perda. É uma coisa que eu não queria passar de novo. Hoje no Pará a justiça é uma vergonha. Como é que essas pessoas tiram a vida de tantas outras e tudo fica em vão? A justiça decretou prisão para eles, mas em regime aberto. Isso não é justiça! Quem perde é só quem morreu.
Você constituiu família?
Sim, hoje eu tenho família. Graças a deus eles são sadios, mas eu não queria que a minha família estivesse lá. Relembrar o passado é sofrer duas vezes. Eu lembro porque nunca esquecemos. Até na hora de dormir, vem na cabeça aquela alucinação.
