Depoimento de Dalgisa Dias de Sousa, 50 anos
O que aconteceu com a sra no dia 17 de abril?
Para mim foi um grande sofrimento. Levei uma pancada no pescoço e senti o sangue escorrendo nas minhas costas. No momento não percebi se era por causa da pancada ou se foi bala. Quando cheguei no barraco, meus filhos estavam agoniados. Coloquei eles no braço e ainda carreguei mais dois filhos alheios. Cada dia que eu relembro aquilo parece que estou vivendo de novo. Fiquei doente mais de três anos. Todo o tempo minha cabeça doía por causa daquela pancada que levei. Quando eu sinto a dor, preciso de tratamento rápido. Se não fico em casa, com a cara toda inchada.
A senhora viu o policial que deu a pancada?
Eu vi. Eu acho que agravei também porque um rapaz que era do nosso grupo, caiu nos meus pés, o Amâncio. Eu chamei a polícia de urubu e ele me bateu. Eu não ligava mais, tanto fazia viver ou morrer naquele momento. Não tinha mais limite. Ele era um amigão, uma pessoa muito delicada e não podia ouvir bem. Algo daquele tipo não devia acontecer com uma pessoa daquela.
A sra. quer pedir justiça?
Quero justiça. Tanta gente que morreu. Era para justiça ter sido feita muito antes, mas não acontece nada.
A sra recebe ajuda médica?
Até o momento estou recebendo. Queria que eles entendessem e pagassem para nós o salário do mês, assim viveríamos melhor. Alguns recebem, mas eu não.
A luta vale a pena?
Pelo que estamos batalhando, vale a pena sim. Esses últimos 10 anos foram de sofrimento. Eu nasci para o sofrimento e estou conformada com tudo o que Deus me der. Não vou dizer que está ruim porque ruim é morrer. Estou passando muitas dificuldades, mas estou viva. Isso para mim é importante. Eu tenho esperanças que um dia eu chego lá. Assim como muitos chegaram, eu vou chegar também.