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Início » Especiais e Campanhas » Massacre de Eldorado dos Carajás: 10 anos de mortes e impunidade

Depoimento de Antônio Alves de Oliveira - SOBREVIVENTE

Depoimento de Antônio Alves de Oliveira, o Índio, 45 anos

Você recebe ajuda do governo?

Faço parte de um grupo de mutilados, sou um dos coordenadores. São 75 mutilados, mas apenas 69 são reconhecidos pela Justiça. Desses, só 20 recebem ajuda de custo. Os outros estão lutando pra ver se conseguem alguma coisa. No dia, a polícia apresentou 19 corpos, só que não foram só esses que morreram. Depois já morreram mais. Esses dias morreu mais um.

Como você se lembra do Massacre?

Não é muito boa a história, acho que às vezes é melhor. Tem gente que fala o massacre foi dia 17 de abril, mas esse foi apenas o começo do massacre. Em1996 morreram 19 companheiros, mas e quem ficou sofrendo? Os mutilados sofrem o massacre do não conhecimento e da não justiça. Trabalhar ninguém dá conta mais. Isso é viver a vida? É vegetar!

E a Justiça?

Justiça só de deus mesmo... Não existe justiça no mundo. Se pobre morrer, que se dane, que se enterre se puder. Não existe justiça. A burguesia mata, faz o que quer e nada é feito para que ela seja punida. Há quanto tempo vivemos nesse massacre e até hoje não existe culpado.

Você segue na luta?

Se a luta tivesse que começar amanhã eu seria o primeiro comandante. A luta é significativa. Lutar é muito importante. Por isso que eu digo que enquanto existir um Sem Terra eu sempre serei Sem Terra. Tem gente que pergunta o que a luta me dá. Me dá educação de ser companheiro, dignidade do saber... tudo isso eu ganho. Ninguém luta só entorno de si. Você luta sabendo que a sua luta vai fortificar alguma coisa para quem fica. O importante é lutar de cabeça erguida. Ser digno da organização, mesmo que tenha contradição e contratempo.

Como é a situação dos mutilados?

Lutamos entorno de oito anos e ninguém tinha informação de nada. Conseguimos descobrir que existia um direito. Em 1998 fomos pra Belém e lá já estavam pessoas com fraturas expostas que tinham ido se tratar. Fomos nos articulando e descobrimos que todos tínhamos direito. Conseguimos encontrar um advogado que tocou a causa para nós. Em 2000, a justiça deu um veredicto dando ganho de causa para nós. Um dinheiro absurdo, o mais barato era 280 mil reais. Mas o Estado recorreu e a quantia diminuiu. Achamos que agora ele vai pagar.

E o tratamento?

O tratamento é uma miséria. Nos exames só dá verme, por mais que uma bala esteja no corpo. Quem teve seqüela vai morrer assim. O Estado alega que dá tratamento, fala na mídia que dá, mas na verdade não dá. Somos Sem Terra e sabemos que não torcemos o braço por qualquer coisa. É esta maldição do massacre: viver e saber que passamos pela chacina.

E os culpados?

Eu condenaria o governo, o Almir Gabriel e o Fernando Henrique. Eu condenaria Almir Gabriel como o primeiro autor, os segundo os coronéis e em última instância, os policiais. Ou os policiais faziam aquilo ou deixariam de ganhar o pão de cada dia. São criminosos porque mataram, mas o culpado é o Almir Gabriel.

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