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O lumpesinato da água

12 de março de 2008

Por Heraldo Campos*

Na sociologia marxista, o lumpesinato é a camada social carente de consciência política, constituída pelos operários que vivem na miséria extrema e por indivíduos direta ou indiretamente desvinculados da produção social e que se dedicam a atividades marginais, como por exemplo, o roubo e a prostituição.

Esse verbete do dicionário Aurélio, muito apropriado para os dias de hoje, representa uma dura realidade para quem vive à margem da sociedade, não experimentando a cidadania, dado seu baixo nível de instrução ou seu orçamento pessoal e familiar bastante limitado. Assim, não se pode falar em exclusão social sem considerar a distribuição de renda da população e seu acesso aos serviços públicos básicos.

E não tem jeito. Para contrapor essa situação é somente pela organização da sociedade. No campo, a organização mais relevante foi a do Movimento dos Sem Terra (MST), que surgiu em 1984, no Rio Grande do Sul, e que, desde então, luta por uma distribuição mais igualitária das terras e pelo fim do latifúndio improdutivo, que há muitos anos predomina no Brasil. Porém, chega a quase 25 de existência sem ter ainda conquistado, em sua plenitude, esse direito.

Por outro lado, como a globalização da economia sinaliza ser um processo de longa duração, limitando a ação dos governos nas suas políticas internas e facilitando o acesso das empresas transnacionais aos serviços públicos, para os mais de 300 milhões de pobres e miseráveis latino-americanos isso significa o reforço da mesma política de empobrecimento que já dura séculos.

Uma das facetas mais perversas da globalização é mostrada, por exemplo, quando os serviços de águas estatais vão sendo privatizados. A água é um direito da população e, os governos têm por obrigação garantir que nenhum cidadão fique à margem desse bem público. Mas quando os governos são frágeis e não voltados para a maioria da população já sabemos o que acontece. "Já estão privatizando a água, agora só faltam privatizar as nuvens!", disse uma vez um índio mexicano.

Lembremos que, no ano 2002, representantes dos cinco continentes se reuniram na chamada Cúpula Rio+10 na África do Sul (dez anos depois da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, mais conhecida como Eco 92, realizada no Rio de Janeiro) e que
passados seis anos as discussões sobre a questão ambiental e o aquecimento global ganharam peso. Entretanto, pode-se dizer que os desafios às instituições governamentais, no que se refere ao
saneamento básico (um dos programas de ação da Agenda 21 para melhorar a saúde do planeta Terra), continuam os mesmos ou que a situação até piorou.

Segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), mais de 5 milhões de seres humanos morrem todo ano pela falta de água potável para beber ou através de alguma doença provocada pela veiculação hídrica. Hoje mais de 3 bilhões de pessoas em países subdesenvolvidos não têm
saneamento básico, num processo de degradação da sociedade, gerando a categoria do lumpensinato da água.

*Heraldo Campos é professor do Departamento de Geociência Aplicada ao Ensino, do Instituto de Geociências, da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas).

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