Grandes transformações no campo abrem a perspectiva do MST se reposicionar na luta de classes
Raul de Souza Amorim
Coletivo de Cultura
O BRASIL TEM com principal tarefa no desenvolvimento do capitalismo, desde a invasão portuguesa, a extração máxima dos recursos naturais como matéria prima para produção de mercadorias, voltada para o lucro e desenvolvimento da Europa. Atuaram para isso, além dos nativos, povos aqui se instalaram de forma impositiva para cumprir esta tarefa e, conjuntamente, constituir a formação deste povo explorado brasileiro. No período de industrialização, com poucas alternativas de sobrevivência, após um longo período de escravização, grande parte deste povo migra para os centros urbanos. Em busca de uma vida melhor (e o capital em busca de mais lucro em menor tempo) vão para inchar as cidades, potencializar as favelas e vender
sua força de trabalho nas fábricas e onde mais fosse necessário para uma burguesia
em desenvolvimento.
É sobre este povo retirante de seu país de origem, de seu sertão, de seus pequenos laços familiares que João Cabral de Melo Neto escreve em “Morte e Vida Severina”, em 1955. Os personagens são apresentados numa síntese de complexos seres sociais em um indivíduo chamado Severino, pobre, sofrido “na mesma cabeça grande que a custo se equilibra, no mesmo ventre crescido sobre as mesmas pernas finas, e igual também porque o sangue que usamos tem pouca tinta”. A poesia de João Cabral compõe uma estrutura de um auto versificado, finalizando com o nascimento do menino Jesus de poucas alternativas de vida na cidade. “É uma criança pálida, franzina, mas tem a marca de homem, marca de humana oficina (...) vejo dentro de uma
fábrica”, e reis magos pobres que não tinham riquezas e nem grandes presentes.
Para os que resistem no campo atrasado, comandado pelas oligarquias, o texto teatral “Mutirão em Novo Sol” escrito em 1961, a partir do levante camponês, trata do conflito entre criadores de gado e trabalhadores rurais que sobreviviam do arrendamento de terras conhecido como
“Arranca Capim”, em 1959.
Luta sistematizada esteticamente pelo teatro, “Mutirão em Novo Sol” traz uma gama de temas relacionada aos conflitos agrários brasileiros que ainda permanecem e se reconfiguram. Abordando questões como os aparelhos ideológicos a serviço do direito burguês como a escola, a igreja e os meios de comunicação; o modelo governamental, os processos eleitorais, corrupção, acordos oportunistas, a redução e amesquinhamento do conceito de política, e as influências dos poderes do coronelismo sobre os vários segmentos da sociedade. Trata ainda dos que necessitam reivindicar direitos garantidos, mas não realizados pela lei, por meio de uma organização popular para enfrentar os latifundiários. “Estamos arriscando nossa vida e vale a pena arriscar. Nós todos somos iguais, temos filhos, temos fome, temos direito de trabalhar nesta terra, nós todos temos o dever de lutar juntos (...) vale defender até a morte o direito do trabalho e da justiça”.
Nordeste produtivo para o capital
Não é estranho que durante os últimos anos o Nordeste, até então colocado como o seco, árido e sem água, por conseguinte com fome, pobreza e grandes migrações, de uma hora para outra deixa de cumprir o papel do atraso e é revelado pelo agronegócio, empresas transnacionais e governo, através do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), como a grande solução para o país?
Diferente do período em que foram escritos os dois textos, o Nordeste passa agora por uma nova configuração para o capital. Com grandes projetos de desenvolvimento do agronegócio em toda região, com fruticultura irrigada entre outros monocultivos para exportação como eucalipto e a nunca substituída de forma hegemônica cana-de-açúcar. Estes exemplos vão de encontro com as mentiras ditas até hoje que o grande problema do Nordeste são as “condições naturais” da
região: seca e a baixa fertilidade do solo.
Analisa-se que este novo avanço do capital no Nordeste possui três motivos principais: matéria prima em abundância, mão de obra barata e mobilidade do trabalho. Esta “modernização do campo Nordestino” está causando ainda um intenso processo migratório, agora para dentro da própria região. A população urbana chega a 72,8% no Nordeste (número duvidoso quanto à concepção de área urbana) para descentralizar o Sudeste. Estes dados têm relação direta com o
desenvolvimento do capitalismo e com o desejo do modelo agrícola dominante. Tudo
isto gera uma consequência maior: a suposta não necessidade da Reforma Agrária, com
o argumento de que não há mais atividades agrícolas no campo relevantes e que a
população já está adaptada à vida na cidade, tornando-se essencialmente urbana.
Saídas
Os dois textos literários apresentam, dentro do contexto de modernização conservadora brasileira de meados do século XX, saídas diferentes determinadas pelas condições que cada realidade detinha para a organização dos trabalhadores do campo em seu período histórico. Diferente de “Morte e Vida Severina” onde Severino vê como uma das poucas possibilidades a busca de condições melhores na cidade grande, “aquela vida que é menos vivida que defendida, e é ainda mais severina para o homem que retira”. Em “Mutirão”, apesar de toda inviabilidade de vida, após
a ordem de retirada das terras onde pretendiam plantar comida ao invés de capim, eles se organizam, ocupam o armazém, sofrem repressão e buscam construir um instrumento político para resistir e enfrentar os poderes do coronel. “Ele (coronel) sabe que vocês podem fazer
e o que está sendo feito em toda a parte: união dos que trabalham. Isso é pior que qualquer saque ou tiroteio. [Na capital os operários já sabem da nossa luta]”.
Agora o desafio é apresentado a nós.
Percebe-se ao final uma relação mútua de temas sobre as contradições existentes no campo que ainda permanecem, ainda que de forma modificada, e precisam urgentemente ser superadas. Também como a produção artística pode ter força formativa no debate e desafio de entender
cada vez mais esta nova conjuntura e qualificar nossas ações.
