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Grandes transformações no campo abrem a perspectiva do MST se reposicionar na luta de classes

Início » Jornal Sem Terra » Juventude que ousa lutar

Eleições não apontam mudanças profundas

Número: 
305
Jul/Ago
2010

HISTORICAMENTE, na luta de classes, os trabalhadores desenvolveram táticas e ferramentas para acumular forças no embate com a burguesia. As greves, ocupações de terras e as eleições são parte deste repertório coletivo que foi construído, cada qual conforme sua realidade, sua força e capacidade organizativa.

No caso das eleições, é indiscutível que ela foi a ferramenta para onde se canalizaram processos anteriores de mobilização e que resultaram em conquistas nas experiências chilenas e mais recentemente na Bolívia, Equador e Venezuela.

No Brasil, mais uma vez estamos em um ano eleitoral. Entretanto, como vivemos um período prolongado de descenso na luta e na organização de massas, não há força e organização acumulada que transborde para uma disputa entre classes e que possa resultar em
avanços para a classe trabalhadora.

Pelo contrário, sem lutas de massas e organizações populares fortes, a eleição se torna um processo onde o povo não é sujeito, mas espectador de programas eleitorais e debates da chamada “pequena política”, aquela que não mexe com os graves problemas estruturais e sociais do país. Novamente, sem as lutas de massas estamos órfãos de um debate em torno de um projeto popular para o país, em torno das verdadeiras transformações que deveriam ser feitas
para melhorar a vida de cada trabalhador.

Neste quadro de poucas conquistas e mobilizações, muitos setores de esquerda perderam esta perspectiva estratégica e passaram a se contentar apenas com o jogo eleitoral, satisfeitos em realizar pequenas mudanças, políticas de compensação ou assistenciais ou ainda de não enfrentarem poderosos grupos econômicos transnacionais, em especial o setor ligado ao capital financeiro internacional, que utiliza os financiamentos de campanha para fazer valer seus interesses econômicos.

Protagonismo e mobilização

No conjunto dos movimentos sociais do campo organizados na Via Campesina, temos debatido há alguns anos este tema. É consenso entre as nossas organizações que é importante eleger o maior número de deputados progressistas, favoráveis à Reforma Agrária e a um outro modelo de desenvolvimento para agricultura, inclusive para contrapor a bancada ruralistas no Congresso, uma das principais ferramentas da criminalização dos nossos movimentos. Por outro lado, compreendemos que as estruturas e a militância das nossas organizações não devem ser
colocadas a serviço do processo eleitoral, uma vez que nossa tarefa principal segue
sendo a organização dos camponeses e a mobilização para a luta.

Entendemos também que na disputa presidencial não há interesse em pautar a Reforma Agrária ou em enfrentar o poder do agronegócio, o braço do capital financeiro no campo, e que mesmo em setores mais a esquerda, não foi possível superar a fragmentação e a falta de unidade que marcam estes momentos de descenso. Não se tratam de nomes, mas de projetos realmente capazes de aglutinar e mobilizar a esquerda brasileira.

Entretanto, é evidente que a candidatura José Serra representa um projeto de retomada acentuada das privatizações, de aprofundamento do agronegócio e da criminalização aos movimentos sociais, além da subordinação total aos Estados Unidos na política externa,
inviabilizando articulações de integração latino-americana.

Ainda, num esforço de que a campanha não seja meramente torneio de promessas ou disputa entre cabos eleitorais pagos, que substituem as antigas militâncias dos partidos, buscamos politizar este momento político e apresentar uma plataforma de medidas estruturais e emergenciais que consideramos fundamentais para construir um outro modelo agrícola. É com este documento que queremos debater, não com os candidatos, mas com o conjunto da sociedade neste período.

Desta forma, compreendemos que a energia da nossa militância deve ser direcionada para o esforço de construir novas táticas de luta, adequadas a um momento histórico de reascenso, sem rebaixar nossos objetivos estratégicos; de fortalecer a organização, a formação política e o trabalho de base. Não se trata de ignorar o processo eleitoral ou estar isolado dos debates conjunturais, mas de compreender que as mudanças necessárias só são possíveis com protagonismo e mobilização que vai além de marcar um nome na urna eleitoral.

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