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Com ocupação do Ministério da Fazenda e ações em 20 estados, Via Campesina consegue conquistas

Início » Jornal Sem Terra » Ruralistas defendem trabalho escravo

Agrotóxico é problema de saúde pública

Número: 
304
Jun
2010

O BRASIL bateu recorde no consumo de agrotóxicos no ano passado. Mais de um bilhão de litros de venenos foram jogados nas lavouras, de acordo com dados do Sindicato Nacional da Indústria
de Produtos para a Defesa Agrícola. Com a aplicação exagerada de produtos químicos nas lavouras no país, o uso de agrotóxicos está deixando de ser uma questão relacionada especificamente
à produção agrícola e se transforma em um problema de saúde pública e de preservação da natureza.

Os trabalhadores das fazendas que aplicam os agrotóxicos, seus familiares que vivem nas áreas pulverizadas, a população das cidades vizinhas e os consumidores de alimentos são os principais prejudicados pela utilização excessiva de venenos. Determinados agrotóxicos causam distúrbios
neurológicos, respiratórios, cardíacos, pulmonares e no sistema endócrino, ou seja, na produção de hormônios, principalmente nas pessoas que trabalham diretamente na aplicação dessas substâncias.
Além disso, causam um desequilíbrio no ecossistema, com a contaminação dos poços artesianos de água potável, dos córregos, rios e lagoas, da água de chuva e do ar, além da própria produção que será comercializada.

Campanha

De acordo com dados divulgados em novembro de 2009 pelo Censo Agropecuário 2006 do Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), houve, em 2006, pelo menos 25.008 casos de intoxicação de agricultores. Os dados também indicam que herbicidas, fungicidas e inseticidas foram usados em mais de um milhão de fazendas. Nesse quadro, o MST pretende fazer uma campanha nacional para denunciar os efeitos nocivos dos agrotóxicos, ao lado de cientistas, pesquisadores, organizações ambientalistas, movimentos populares, centrais sindicais e entidades ligadas à educação.

O que os gringos não comem, empurram para o nosso prato

O Brasil é o principal destino de agrotóxicos banidos no exterior. Pelo menos dez produtos proibidos na União Européia (UE) e Estados Unidos são liberados nas lavouras brasileiras, de acordo com a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Dos 14 produtos que deveriam ser submetidos à avaliação da Anvisa, só houve uma decisão: a cihexatina, empregada na citrocultura, será banida a partir de 2011. Até lá, seu uso é permitido só no estado de São Paulo.

Três produtos aguardam análise de comissão tripartite – formada pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama), Ministério da Agricultura (Mapa) e Anvisa – para serem proibidos: acefato, metamidofós e endossulfam. Enquanto as decisões são adiadas, o uso de agrotóxicos sob suspeita de afetar a saúde aumenta. Um exemplo é o endossulfam, associado a problemas nas glândulas que produzem hormônios. Dados da Secretaria de Comércio Exterior mostram que o país importou 1.840 toneladas do produto em 2008. Ano passado, saltou para 2.370. Proibido na UE, China, Índia e no Paraguai, o metamidofós segue caminho semelhante.

4ª causa de intoxicação

Os agrotóxicos ocupam o quarto lugar no ranking de intoxicações. Ficam atrás apenas dos medicamentos, acidentes com animais peçonhentos e produtos de limpeza. Houve registro de 6.260 casos provocados por agrotóxicos em 2007. Laboratórios demonstram em estudos o risco de algumas substâncias provocarem problemas agudos e crônicos. Uma análise da Anvisa, realizada desde 2001, chamada Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos (Para), acompanha os níveis de resíduos de agrotóxicos nos alimentos consumidos pela população. (veja abaixo)

Regras sanitárias

Além da importação de produtos banidos em outros países, há fábricas de agrotóxicos instaladas no Brasil que desrespeitam regras sanitárias. Seis das sete indústrias fiscalizadas pela Anvisa entre julho de 2009 e maio deste ano tiveram a linha de produção interditada e o material apreendido por irregularidades.

Há problemas desde o uso de matéria-prima vencida até adulteração da fórmula autorizada. São misturadas até essências aromáticas para camuflar o cheiro de veneno e tornar o produto mais tolerável para o agricultor e para a população que vive no entorno das fábricas.

As indústrias já analisadas detêm cerca de 80% das vendas no mercado nacional. Foram apreendidas nas fiscalizações 9,06 milhões de toneladas de agrotóxicos suspeitos.

"Tendência é aumentar a utilização de agrotóxicos"

O pesquisador da Fiocruz, médico e professor da Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT), Wanderlei Antonio Pignati, realizou estudos sobre os impactos dos agrotóxicos no Mato Grosso, demonstrando que nas regiões com maior utilização de agrotóxicos é maior a incidência de problemas de saúde agudos e crônicos. Abaixo, leia trechos da entrevista com o professor.

Por que a cada safra cresce a quantidade de venenos jogados nas lavouras?

O consumo de agrotóxicos dobrou nos últimos 10 anos. Passamos a ser o maior consumidor mundial desses produtos. A utilização tem aumentado porque a semente está dominada por seis ou sete indústrias no mundo todo, inclusive no Brasil.

Quanto mais avança o agronegócio, maior o consumo de agrotóxicos?
As sementes das grandes indústrias são dependentes de agrotóxicos e fertilizantes químicos. As indústrias não fazem sementes livres desses produtos, porque são produtores tanto das sementes como dos agrotóxicos. Criam sementes dependentes de agrotóxicos. Com os transgênicos, a situação piora ainda mais. Mas a Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) liberou diversas variedades de transgênicos, com o argumento de que se diminuiria a necessidade de agrotóxicos... Temos que desmascarar essa situação em nível nacional e internacional. A soja transgênica, por exemplo, não é resistente a pragas, mas apenas a um herbicida, o glifosato. Então, é ainda maior a utilização de agrotóxicos.

Quais os efeitos dos agrotóxicos para a saúde e para o ambiente?
Os principais impactos negativos são sobre os trabalhadores que aplicam diretamente o produto e em suas famílias – que moram dentro das plantações de soja, nas periferias das cidades - porque a pulverização é quase em cima das casas. Há também o impacto no ambiente, com a contaminação das águas. Ficam resíduos dos agrotóxicos nos poços artesianos de água potável, nos córregos, nos rios, na água de chuva e no ar. Isso faz com que a população absorva esses agrotóxicos.

Como vocês comprovam o aumento de doenças devido ao consumo de agrotóxicos?
Para fazer a comprovação desses casos, é preciso comparar dados epidemiológicos de doenças de regiões que usam muito agrotóxico com outras que usam pouco. Por exemplo, nas três regiões do Mato Grosso onde mais se produz soja, milho e algodão há uma incidência três vezes maior de intoxicação aguda por agrotóxicos.

Quais as iniciativas da Agência Nacional de Vigilância Sanitária para coibir esses malefícios?
A Anvisa está fazendo a revisão de 16 agrotóxicos, desde que lançou um edital em 2008. Quatorze deles são proibidos na União Européia, nos Estados Unidos e Canadá por serem cancerígenos, teratogênicos (causarem danos ao embrião ou feto durante a gravidez), distúrbios neurológicos e endócrinos. Nessa revisão, já há uma lista desses agrotóxicos, que são proibidos lá fora, mas aqui são vendidos livremente.

Qual o perigo para os consumidores de alimentos?
A Anvisa tem o Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em alimentos, no qual faz a análise de 20 alimentos desde 2002. Nesses estudos, acharam resíduos de agrotóxicos acima do limite máximo permitido. Os fazendeiros dizem que, se usar corretamente os agrotóxicos, não há perigo. Há problema sim. Se o trabalhador ficar como um astronauta, usando todos os equipamentos de proteção individual necessários, pode até não prejudicar a sua própria saúde, mas e o ambiente? Todo agrotóxico é tóxico, tanto da classe um como da classe quatro. Dentro desse quadro, qual é a tendência em relação ao consumo desses produtos? A tendência é aumentar a utilização de agrotóxicos. Por isso, é preciso uma política mais contundente do governo, dos movimentos de agroecologia e da sociedade, que cada vez mais consome agrotóxicos. É preciso discutir o modelo de produção agrícola que está aí. É um modelo insustentável.

Setor de Comunicação do MST

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