Com ocupação do Ministério da Fazenda e ações em 20 estados, Via Campesina consegue conquistas
Unir organizações de esquerda, canalizar o debate em torno de um projeto comum e apresentá-lo como um todo perante a sociedade brasileira. Estas tarefas – que já seriam desafiadoras em períodos propícios para o levante popular – parecem ainda mais difíceis de serem executadas em um contexto
de desmobilização da classe trabalhadora, principalmente em períodos tão voltados para o debate eleitoral.
Vanderlei Martini, integrante da coordenação nacional do MST, avalia que encontros como a 2ª Assembléia Popular (AP) Nacional – Na construção do Brasil que queremos, que aconteceu no final de maio em Luziânia (GO) e reuniu cerca de 600 militantes de movimentos e pastorais sociais de todo o país, podem representar um passo à frente no processo de construção de unidade em meio ao descenso da luta de massas.
O militante acredita que a formação de quadros e o trabalho de base devem ser prioritários neste momento. “Nos últimos anos a esquerda brasileira abandonou este princípio e priorizou apenas as eleições. Nós estamos retomando para dentro de nossas organizações e no conjunto da sociedade,
nas comunidades pobres das periferias das cidades e no interior do país”.
Para a Irmã Delci Franzen, assessora das Pastorais Sociais da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), o encontro explicitou potencialidades para a rearticulação das lutas conjuntas no Brasil. “A gente já deu a volta, dobrou a esquina, estamos na ofensiva”, afirma.
Segundo ela, projetos contra o imperialismo e o endividamento dos países mais pobres, campanhas contra megaprojetos como Belo Monte e em favor da redução da jornada de trabalho serão bandeiras que podem integrar as agendas das entidades que compõem a AP no próximo período.
A manutenção da crítica ao sistema capitalista, o referencial teórico do marxismo para guiar as lutas sociais, a discussão sobre a crise ecológica e a realização de campanhas e plebiscitos nacionais integram as principais contribuições do documento final da 2ª AP, que será lançado em agosto deste ano.
Outro projeto importante que está no calendário dos movimentos é a luta pelo estabelecimento do limite da propriedade da terra como forma de diminuir a concentração fundiária no Brasil. Será um plebiscito popular, nos moldes dos realizados contra a Alca e pela reestatização da Vale do Rio Doce, previsto para
acontecer na semana do dia 7 de setembro. Confira abaixo as entrevistas.
JST – Como a Assembléia Popular pode se consolidar como espaço de construção de lutas unitárias nesse período de cisão da esquerda, especialmente em um cenário tão focado no debate das eleições?
Vanderlei Martini - A crise que se abateu na esquerda social brasileira caracteriza-se por falta de unidade e debate em torno de um projeto popular, alternativo para o Brasil, pela falta de lutas unitárias e massivas e pelo rebaixamento do debate em torno da questão eleitoral. Boa parte das organizações sociais, sejam elas centrais sindicais, movimentos populares ou partidos, está tentando encontrar uma saída individual para esta difícil conjuntura. Configura-se assim uma espécie de corrida maluca, na tentativa de achar os rumos e retomar o debate em torno de um projeto comum. Sabemos que as saídas não são somente de curto prazo, nem fáceis, mas para o próximo período a AP apontou os desafios da formação, da organização e as lutas de massas como fundamentais para resistir ao período adverso em que vivemos. Nenhuma organização de caráter sindical ou partidário, por mais forte e representativa que seja, consegue sozinha, em períodos de crise, aglutinar o conjunto das organizações. Daí a importância da AP, pois queremos debater com a sociedade brasileira os rumos do país, a necessidade de construção de um projeto que mexa nas estruturas de poder da sociedade brasileira, que se perpetuam há mais de 500 anos. A retomada do trabalho de base é um desafio central na construção do projeto popular para o Brasil e da própria AP como ferramenta de luta. Nos últimos anos a esquerda brasileira abandonou este princípio e priorizou apenas as eleições. Nós estamos retomando para dentro de nossas organizações e no conjunto da sociedade, nas comunidades pobres das periferias das cidades e no interior do país.
JST – Como você enxerga o papel do MST nesse processo de construção da unidade?
VM – O MST surgiu no bojo das lutas pela redemocratização do Brasil, no final da década de 70 e início dos anos 80, quando havia um amplo debate e um processo de luta na sociedade brasileira pelo fim da ditadura militar e pelas eleições diretas. Ele também surge da retomada das lutas concretas pela terra e pela Reforma Agrária, e é fruto de uma construção coletiva, que se tornou referência de luta, organização e de formação. O papel do MST é dispor de seu acúmulo, de sua experiência, de seus militantes e de sua moral coletiva, para propor e apontar mudanças no conjunto da sociedade brasileira, organizada ou não, que almeja um país mais justo e igualitário. Neste sentido, esta experiência histórica do MST pode ser referência para o conjunto das organizações que compõem a AP. Sabemos que a unidade em torno de um projeto, de bandeiras comuns e das lutas não vem por decreto. Esta unidade deve ser construída coletivamente, respeitando as diferenças de cada organização. O MST é uma das organizações que se somam na construção desta ferramenta de luta de classes.
JST – De que maneira o MST e a Via Campesina lêem o plebiscito do limite da propriedade da terra, consequência dos processos de plebiscitos que a AP impulsionou nos últimos anos?
VM – O Brasil possui um dos maiores índices de concentração da propriedade da terra do mundo, e é um dos poucos países que não fez Reforma Agrária e que não tem limite da propriedade da terra. É fundamental a realização de um plebiscito nacional sobre este tema. Com o limite da propriedade da terra, teremos mais terra disponível para a Reforma Agrária e consequentemente mais alimento barato e de melhor qualidade na mesa do povo brasileiro. Ao longo de cinco anos, a Assembléia Popular incorporou uma boa e profícua experiência em campanhas e plebiscitos nacionais. Ela possibilita a massificação do debate em todo o território nacional, e no conjunto de organizações que a compõem. Podemos destacar a campanha da tarifa social de energia, o plebiscito contra a Alca e o plebiscito pela reestatização da Vale. Assim, para este ano, é acertada a decisão da AP de priorizar o plebiscito sobre o limite da propriedade da terra. Temos pouco tempo para a realização do plebiscito, que vai acontecer na semana do dia 7 de setembro. Por isso, devemos debater urgentemente em todas as instâncias, em todos os nossos assentamentos, acampamentos, comunidades e fazer a coleta de assinaturas. Podemos aproveitar este momento para debatermos a atualidade da luta pela terra no Brasil, a necessidade da Reforma Agrária popular, a ofensiva da direita contra o MST. Devemos nos preparar também para o plebiscito continental sobre o clima, puxado pela Bolívia, que acontecerá em abril do ano que vem.
JST – A delegação do MST na AP contou com 77 companheiros e companheiras de 17 estados. Esse número demonstra que estamos tentando construir a AP localmente?
VM – Sim, e apesar de todas as dificuldades, é uma demonstração de que esta é uma prioridade nos estados e que está tomando corpo nacionalmente. Foi importante a participação dos/das militantes do MST neste espaço. Podemos destacar a nossa participação nos debates dos grupos e mini-plenárias, nas relatorias dos debates, na construção da unidade e na animação da atividade. Em nível local nossa participação está contribuindo para a tomada de corpo desta importante ferramenta da classe trabalhadora.
Maria Mello
(Setor de Comunicação)
"Eu vejo uma semente da reorganização da esquerda no Brasil
JST – Quais acúmulos e expectativas a 2ª Assembléia Popular Nacional trouxe para o debate e a prática da construção de um novo projeto para o país?
Irmã Delci Franzen - Precisamos usar espaços como a AP para tentar construir consensos, superar diferenças e potencializá-las no debate. Devemos explicitar nosso projeto, e o documento vai trazer isso, a clareza do Brasil que queremos. Estamos propositivos, indo além das pautas que o modelo capitalista está impondo ao povo. A gente já deu a volta, dobrou a esquina, estamos na ofensiva. Pode parecer muito otimista, mas acho que esta é uma característica que acompanhou esta AP, a confiança mútua, a parceira. Eu vejo uma semente da reorganização da esquerda no Brasil nesse espaço, que não é o único, mas é muito importante.
JST – Que diferenças podem ser apontadas entre o documento lançado pela 1ª Assembléia Popular, em 2005, e o que será divulgado agora?
DF – No processo de preparação da 2ª AP revisitamos o documento anterior, em torno do qual foi feito um trabalho de base muito grande. Vieram várias contribuições. Um dos pontos mais importantes do documento é a manutenção da crítica ao capitalismo e às suas instituições. Nesse sentido, surge o apoio à luta por projetos que se opõem a este modelo – principalmente ao imperialismo – e que lutam contra o endividamento de países em desenvolvimento, como o Brasil. Outro item importante no documento é a presença da análise da crise ecológica. Junto da análise de outras crises, como a econômica, a política e a energética, essa reflexão está cada vez mais presente entre as entidades e na própria Igreja. O documento também constrói com clareza a relação da sociedade civil com o Estado brasileiro. Um Estado que favorece o atual modelo capitalista, principalmente como investidor e financiador, a serviço do capital, é altamente criticado. Foi retomada com muita firmeza a Plataforma BNDES, que propõe a reorganização do banco para o projeto popular, em contraposição ao do capital e das grandes empresas.
JST – Em que medida as Pastorais Sociais estão comprometidas com a
construção e o enraizamento da Assembléia Popular?
DF – Nós nos sentimos parte da origem da AP, porque ela congregou ali todo o movimento que vinha da Igreja, com a Semana Social Brasileira. Hoje as pastorais se sentem profundamente comprometidas, e fazem constantemente a autocrítica em relação à construção deste espaço. Nosso compromisso é com o enraizamento da AP para dentro das pastorais, para fortalecê-la e multiplicá-la em tudo o que é canto,
nos bairros, no mundo urbano e no campo. É muito importante que a AP vá para as bases, e sabemos que as pastorais sociais têm uma capilaridade muito grande. Esse é o nosso compromisso: fazer com que a AP seja do povo, que chegue às bases.
JST – Como resgatar o trabalho de base? De que forma a ala progressista da Igreja Católica, que historicamente desenvolveu essa prática, pode contribuir nesse processo atualmente?
DF – Temos um legado importante dos anos 80, do trabalho popular das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), que precisa ser repensado do ponto de vista do método. Essa metodologia tem que ser reavaliada em contextos novos, principalmente no contexto urbano. É preciso estar junto com o povo, organizar pequenos grupos, levar a proposta do projeto popular para discussão, ouvir dentro das novas realidades do mundo urbano, na área da moradia, do meio ambiente, dos novos movimentos do povo da rua, do movimento feminista. Colocar a AP no meio das iniciativas da economia solidária, no meio camponês, principalmente com relação às iniciativas de agroecologia. Estes são espaços novos que têm metodologia própria. É preciso repensar o discurso. Incorporar a arte, a cultura local, ouvir, fazer com que o povo se escute e entenda que processos locais estão ligados a um processo nacional.
