Grandes transformações no campo abrem a perspectiva do MST se reposicionar na luta de classes
ESMERALDO LEAL
DIREÇÃO ESTADUAL SE
O CARRO DE BOI é um dos meios de transporte mais antigos da humanidade. Muito conhecido por chineses, egípcios, indianos e europeus de modo geral, ele chega ao Brasil com os primeiros colonizadores portugueses e logo ganha importância para a economia local. Por vários anos, foi o mais importante transporte de carga e de pessoas, além de ter sido indispensável nos
engenhos de cana-de-açúcar do Nordeste.
O carro de boi só perdeu sua primazia na economia brasileira alguns séculos depois, mas ainda hoje seu canto (som que sai do contato entre o eixo e as rodas) é ouvido na zona rural de muitas cidades brasileiras, principalmente nordestinas. Em Sergipe, o carro de boi ainda é um meio de transporte importante para a economia e está muito vivo na cultura popular. Por isso, todos os anos as famílias do assentamento Maria Bonita, no município de Simão Dias, a 100 km de Aracaju, reúne dezenas de carreiros de Sergipe e da Bahia para celebrar a Festa do Carro de Boi. O historiador e pesquisador Auremi Rabelo classificou a festa como “uma das importantes celebrações da cultura popular da região”. Este ano, a festa aconteceu no dia 25 de abril e contou com 35 carros de boi grandes (com juntas de 4 a 6 bois) e 3 carros de boi pequenos (com carneiros e bodes). Reuniu cerca de duas mil pessoas das comunidades vizinhas e de várias cidades do Nordeste. O dirigente estadual do MST João Daniel destacou a importância da festa: “Ela já entrou no calendário, como uma das mais bonitas festas da região, pois mantém vivo um dos mais importantes símbolos da cultura camponesa”.
A festa começou com torneios de futebol e culminou com o passeio dos carros de boi, que saíram da sede do assentamento e foram até a rodovia estadual, que liga o município de Simão Dias a Poço Verde. No retorno ao assentamento, houve apresentação dos carros e carreiros e a premiação. Entre os aplausos dos presentes, um dos organizadores da festa, assentado e militante do Setor de Frente de Massa, Zé das Porções, comemorou: “Estamos felizes por termos reunidos tantos carros e tantas pessoas. Estamos no começo do inverno e mesmo assim o povo veio. Já vamos preparar a festa do próximo ano para que ela possa ser ainda melhor que essa. VIVA A FESTA DO CARRO DE BOI!”.
Com esta festa as 36 famílias do assentamento Maria Bonita e o MST demonstram que a Reforma Agrária vai além da distribuição de terras. Dentre outras coisas, ela tem a função de resgatar e fortalecer a auto-estima do camponês.
