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Início » Jornal Sem Terra » Mobilizações em 20 estados marcam luta das mulheres

“A tarefa da mulher assentada é produzir e lutar”

Número: 
302
Abr
2010

Mulheres têm maior participação com cooperaçãoMulheres têm maior participação com cooperaçãoA família da assentada Irene Manfio produz de forma cooperativada com outras 12 famílias no Assentamento 16 de Março, em Pontão (RS), na antiga Fazenda Annoni. A Cooperativa de Produção Agropecuária Cascata, da qual são associadas, produz cerca de 30 mil litros de leite por mês e cria entre 70 e 80 cabeças de gado de corte ao ano, comercializados em mercados da região e em programas públicos.

No entanto, o que mais orgulha Irene é a produção para o consumo das famílias. Praticamente tudo o que os assentados consomem é produzido nos lotes, em grande quantidade e com bastante diversidade. Em entrevista ao Jornal Sem Terra, Irene fala sobre a participação das mulheres no setor de produção e nas cooperativas, os desafios da
cooperação e a importância da prática de uma nova agricultura nos assentamentos, que colabore com a construção de uma sociedade com mais igualdade e menos agressiva ao ambiente.

Jornal Sem Terra – Qual o papel dos assentamentos na Reforma Agrária Popular?

IM – O capital está articulado no campo e na cidade, então o assentamento passa a ter que se articular com o povo urbano para poder discutir temas que estão na pauta e que vão envolver essa parcela da sociedade – como a questão da água, do ambiente, do território – para que a gente possa fazer lutas conjuntas. O assentamento também tem que ser referência de organização coletiva, educativa, para o povo da cidade. E uma referência de produção na perspectiva popular, de buscar alternativas ao agronegócio, de tecnologia, de diversificar
a produção, de produzir com fartura para construir dignidade para as famílias assentadas.

JST – A agroecologia contribui para aumentar a participação política das mulheres nos assentamentos?

IM – Com certeza, porque é um debate em que elas se identificam muito. São as
mulheres que mais sentem as desgraças do sistema, toda destruição provocada pelo capital. E são elas, mais do que ninguém, que sabem cuidar e embalar a vida. As mulheres não se apegam apenas aos resultados econômicos, olham para a vida com outro olhar. A mulher tem esta sensibilidade de olhar para o mundo, para a natureza, e pode buscar produzir o alimento saudável de forma a preservar o ambiente. O debate da agroecologia dialoga, de fato, com as mulheres.
Acredito que no dia em que as mulheres tomarem para si esta tarefa, poderemos
avançar. É algo que as mulheres dominam, têm conhecimento de causa.

JST – Quais os limites que o MST enfrenta para implementar a cooperação agrícola?

IM – A gente vive uma contradição muito grande na sociedade. Ninguém mais consegue viver sozinho, a gente depende um do outro, inclusive para “produzir” a nossa própria existência. Mas tem uma ilusão na sociedade de que nós temos liberdade de escolha, de fazer o que a gente quiser, e que é mentira. Também há um culto ao individualismo, ao egoísmo e à competição, cria-se a idéia de que o indivíduo é o centro de tudo. Como vivemos nesta sociedade, passamos a ter uma série de limites quando vamos discutir cooperação. Primeiro, porque a gente tem um debate muito pequeno sobre cooperação. Precisamos enxergar a importância da cooperação e vencer esta ilusão do individualismo e de liberdade que a sociedade nos coloca. O Setor de Produção e o MST também precisam propor novas formas de cooperação e que também sejam viáveis economicamente, viabilizando a vida das famílias. A cooperação precisa ir além do econômico. Claro que a cooperação se dá na economia, mas nós precisamos trabalhar outros
aspectos nas nossas experiências que temos visto que dão certo, que aspectos são os valores de solidariedade, de justiça, de companheirismo. A experiência, aspectos precisa criar um ambiente bom de vivência e de convivência, que, além do aspecto econômico, ajuda a avançar na cooperação. Que as pessoas possam, de fato, viver bem e ter uma vida com outras
relações construídas.

JST – Que outras formas de cooperação são essas?

IM – Foram construídas cooperativas de produção, de comercialização e algumas experiências de grupos coletivos que não são formalizadas. Penso que temos que criar outras formas, outros tipos de cooperação. Por exemplo a CPA (Cooperativa de Produção Agropecuária), em que se tem uma estrutura legalizada em que se coopera desde a produção até a comercialização. Precisaria buscar outros tipos como esse. Não se tem a receita porque a experiência precisaria ser desenvolvida a partir de cada realidade, porque também precisa ter um mercado para venda. Ter um outro tipo de cooperação sem ser estes já formatados, porque as coisas estão mudadas, estão diferentes. E para fazer cooperação tipo a CPA (considerada de último grau na cooperação) não é tão simples para as pessoas se adaptarem. Acho que os assentados têm buscado outras formas, como quando se juntam para guardar o leite no resfriador, mas é preciso mais do que isso. Precisamos discutir mais e buscar, a partir da realidade em que vai ser instalado o assentamento, o que ali é possível ser feito de forma cooperada. Seria uma organização mais informal e mais simples, com mais participação dos assentados.

JST – Desde que o MST foi criado, houve avanço na participação das mulheres nas cooperativas?

IM – As cooperativas de produção permitiram um envolvimento maior das mulheres, que puderam dar opinião, ajudar a decidir mais sobre o destino e os rumos da produção. Também foram criadas algumas condições para facilitar a participação das mulheres, como as cirandas. De fato, houve espaços que possibilitaram avanço na conscientização e participação das mulheres – diferentemente das cooperativas de comercialização que sempre, na minha avaliação,
tiveram muito pouca participação das mulheres. Pouca participação e com muito pouco poder de decisão no aspecto econômico do destino e do futuro destas cooperativas. O que se identifica também é que, quando vamos para o debate econômico e da produção, as mulheres sempre recuam. Isso acontece, primeiro, porque há uma carga muito pesada sobre as mulheres de cuidar dos filhos e da casa; e nem sempre há as condições reais para que elas possam participar, como o espaço da ciranda para deixar os filhos Afinal, em última instância, sempre cabe à mulher o cuidado dos filhos e da casa. Todos estes aspectos acabam impedindo as mulheres de participarem e atuarem nestas questões econômicas. O que se agrava com a divisão que já existe na sociedade, de que os assuntos econômicos cabem aos homens, limitando a participação das mulheres. Acho que as mulheres também precisam acreditar mais na sua capacidade quando se trata dos aspectos da produção e econômicos.

JST – Você vive em um assentamento na região Norte do Rio Grande do Sul, em que predomina a monocultura e a produção de transgênicos. Como é que vocês sentem a pressão do agronegócio no dia-a-dia do assentamento?

IM – É criado um clima, um ambiente, de produzir a qualquer custo. A semente tem que ser de ponta, o veneno tem que ser o mais forte, o adubo tem que ser em maior quantidade, os produtos que você usa têm que ter marca. Essa pressão é exercida pelos meios de comunicação, pelos vendedores, pela assistência técnica, pelo agrônomo que vem visitar a lavoura já com o pacote de adubo e de veneno na mão. E na sociedade também é assim. A primeira pergunta que é feita ao agricultor é quanto ele produziu por hectare. Nunca é questionado o que custou para ele produzir aquela quantidade, o que custou para o meio
ambiente, se a terra vai aguentar até as futuras gerações, se você vai conseguir respirar um ar saudável daqui a alguns anos. Há uma idéia construída de que você tem que produzir a qualquer custo e muito, não importa se isso custar a vida das pessoas daqui a alguns anos. Esta é a pressão criada pelo agronegócio.

JST – E o que vocês fazem para burlar esta pressão e construir alternativas?

IM – Buscamos alternativas. O que primeiro a gente faz, que é muito forte entre os assentados, é produzir para o auto-consumo, para comer. Uma comida abundante e diversificada, sem ficar somente na monocultura que o agronegócio prega. A gente também busca fazer cooperação na venda da produção; fazemos vendas coletivas, para programas sociais do governo, procuramos não ficar dependentes de um único comprador. Na região Sul do estado, os assentados formaram a Bionatur, que produz sementes agroecológicas. Na região de Porto Alegre, os assentados plantam arroz e hortigranjeiros ecológicos, sem veneno. Foi construído o Instituto Educar, uma escola de agroecologia, para os nossos assentamentos, que busca formar técnicos nesta área.

JST – Por que a comercialização é tão difícil para os assentados?

IM – Aqui na nossa região, como em outras no Rio Grande do Sul, há uma estrutura de silos e armazéns voltada para a monocultura e para o agronegócio. Então o que você produz e está voltado para este sistema tem a venda garantida. O financiamento no banco só sai para plantar soja e milho, e ainda transgênico. Na nossa produção alternativa, o que a gente consegue comercializar na cooperativa tem a produção garantida, mas o produto que não tem mercado fica mais difícil de ser produzido, sem ter a garantia da venda. Por isso, buscar as alternativas de comercialização é fundamental para que os assentados saiam da monocultura e do sistema do agronegócio. Conseguir fazer com que os assentados produzissem para o autoconsumo
não foi algo dado, foi a partir de muito debate. A partir das discussões, as pessoas foram se conscientizando de que é fundamental produzir para o auto-consumo, porque muitas vezes vigora aquela idéia de que não rende dinheiro. Mas o pessoal foi se dando conta de que se não produz, precisa tirar dinheiro do bolso para comprar. Hoje, aqui o assentado produz mandioca, batata, alface, tem fruta à vontade. Não tem como a Reforma Agrária não dar certo. Na medida em que se produz e fartamente, tem o que comer à vontade, a outra parte, a de garantir a renda mensal, é mais fácil. Um outro aspecto que dificulta são as normas sanitárias. Para o assentado vender uma dúzia de ovos, tem que ter inspeção. Para vender o salame, a carne, o pão, a bolacha, o leite, tudo tem que estar dentro das normas. Agora, se for vender soja, pode botar o veneno que quiser, com o risco de matar as pessoas, que o grão é vendido e ninguém te pede absolutamente nada. Não precisa ter inspeção nenhuma. Pode botar o 2,4-D, que é um veneno proibido de usar aqui no país, que não tem fiscalização. Mas quando o assentado vai vender a sua produção alternativa, cai em um sistema todo montado pelo Estado para inspeção de comercialização que acaba criando barreiras para que as famílias possam produzir.

JST – Na sua opinião, qual é o principal papel da mulher assentada?

IM – Eu diria que é produzir e lutar. Produzir, porque estando na terra conquistada, que a mulher conquistou, esta terra precisa produzir o autosustento, mas também ajudar a produzir a renda para que se possa ter uma vida digna. E para isso, a mulher tem que continuar lutando, participar das atividades de formação, porque o assentado não consegue produzir se não continuar lutando para buscar condições para isso. Desta terra, também precisa brotar uma educação diferente para os filhos, com outros valores, de igualdade, de solidariedade, de justiça. Precisa brotar o sonho de uma sociedade justa e igualitária, pois só assim poderemos dar uma vida digna para todos os filhos da classe trabalhadora e sonhar com a emancipação humana.
Produzir e lutar vão fazer uma mulher com maior emancipação e consciência, com mais formação político-cultural; vai garantir uma vida que valha a pena viver. A mulher assentada precisa se dar conta de que está no meio do caminho, que ainda não acabou. A nossa luta é produzir a vida e uma sociedade socialista.

RAQUEL CASIRAGHI
SETOR DE COMUNICAÇÃO
(Com colaboração de Miguel Stédile)

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