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Início » Jornal Sem Terra » Criminalização: estratégia das classes dominantes para conter as lutas sociais

Pense no Haiti

Número: 
301
Mar
2010

AO FIM DA TARDE do dia 12 de janeiro de 2010, o mundo recebeu a notícia de mais uma tragédia no Haiti. Um terremoto de 7,2 graus na escala Richter teve efeito devastador na capital Porto Príncipe e as fontes oficiais indicaram um número superior a 200 mil mortes, além das centenas de milhares de desabrigados sem água, comida, assistência médica e em busca de ajuda para reconstruir seu país.

É comum nos perguntarmos: por que o Haiti? Um dos países mais pobres do mundo não merece tanta desgraça. No entanto, é preciso recordar que os desastres naturais poderiam ser amenizados se historicamente não houvesse um processo deliberado pelas nações imperialistas para oprimir o país e apoiar seus sucessivos governos ditadores e corruptos, responsáveis pela repressão e o descaso econômico e social vividos pela população.

O Haiti foi, depois dos EUA, a primeira nação a tornar-se independente nas Américas. E o fez através de uma bem sucedida revolução de escravos liderados pelos também nascidos escravos Toussaint L´Ouverture – que iniciou a revolta em 1791 – e depois por Jean-Jacques Dessalines, que a consagrou, após derrotarem as três grandes potências imperiais da época: a Espanha, a Inglaterra e, por último, a França de Napoleão Bonaparte. Tornouse, em 1º de janeiro de 1804, a primeira república negra independente na história.

A guerra pela independência custou a vida de um terço da população do Haiti, além de deixar suas cidades e plantações em ruínas e a economia debilitada. Porém, o sucesso de uma revolução de escravos repercutiu nos quatro cantos do mundo, influenciando principalmente na América Latina as lutas pela independência. O temor tomou conta das elites escravocratas, principalmente quando começaram a haver apoio e cooperação direta do Haiti com o processo de independência da Venezuela, liderado por Simon Bolívar.

Logo veio a contra-ofensiva, com um brutal bloqueio comercial e econômico, planejado conjuntamente por Espanha, Inglaterra e França, para isolar e sufocar o país independente. Depois, a exigência por parte da França de indenização, pela perda de “seus” escravos e de “sua” propriedade colonial. O Haiti ainda resistiu por 20 anos, mas diante desse estrangulamento imposto, teve que ceder. Por volta do final do século XIX, os pagamentos à França consumiam quase 80% do orçamento nacional, e os bancos franceses receberam a última parcela em 1947.

Nova invasão

Os Estados Unidos invadiram o Haiti em 1915 e governaram o país até 1934. Só saíram após imporem um “programa estrutural”, que incluía eliminar da constituição a proibição da posse de propriedade haitiana a estrangeiros e expropriação de grandes propriedades em favor da empresa americana “Haitian American Sugar Corporation”. Além disso, transformaram as Forças Armadas em instrumentos capazes de sufocar qualquer rebelião contra essas políticas. E mais adiante, em 1957, apoiaram o ditador François “Papa Doc” Duvalier, que impôs um regime que vitimou entre 30 e 50 mil opositores, além dos milhares que tiveram que fugir do país.

Em 1971, Jean-Claude “Baby Doc” Duvalier, sempre com o apoio dos EUA, herdou o cargo de seu pai e implementou o modelo neoliberal que os haitianos apelidaram de “plano mortal”. Um dos efeitos mais devastadores para o país, além das privatizações do patrimônio público haitiano, foi a abertura para entrada de produtos agrícolas sem nenhuma proteção aos produtores locais.

Para citar um exemplo: até esse período o país era auto-suficiente em produção de arroz. Hoje, com a entrada de arroz dos EUA altamente subsidiado, grande parte dos pequenos produtores migrou para as cidades e o país passou a importar 62% do arroz consumido.

Após esse período ditatorial, o Haiti passou por um processo de transição à democracia, que culminou com a eleição do padre Jean-Bertrand Aristide em 1990. Em setembro de1991, outro golpe apoiado pelos EUA interrompeu este processo. Aristide foi reeleito em 2000, mas outra vez, no ano do bicentenário (2004) foi deposto, sequestrado e levado para fora do país pelos EUA e França. A deposição de um governo eleito pela segunda vez causou uma onda de protestos populares em todo país. Utilizando-se do pretexto de “estabilização” no Haiti, a ONU ocupou o país com as tropas da Minustah.

Tropas da ONU

A Minustah (Missão das Nações Unidas para Estabilização do Haiti) foi criada pelo conselho de segurança da ONU em abril de 2004 e, desde então, está no país. Esta missão, que não é humanitária e sim militar, é formada por mais de sete mil soldados e é comandada vergonhosamente pelo Brasil, que tem um efetivo de 1266 militares em operações no Haiti. Com a tragédia do terremoto, os EUA mobilizaram e enviaram mais de 15 mil militares, controlaram os
portos e aeroportos, o que suscitou protestos inclusive da Minustah, pois na prática se tratava de uma nova ocupação.

Solidariedade

O gesto de generosidade e apoio no passado do Haiti com a Venezuela agora é retribuído pelo governo do presidente Chávez ao povo haitiano, ao enviar diariamente 14 mil barris de petróleo com preço subsidiado. Já atuava em conjunto com os mais de 400 médicos cubanos (somados com os 200 enviados agora com o terremoto) e mantém 10 hospitais.

Os movimentos sociais, sindicais e estudantis de todo o Brasil, em recente reunião para debater a questão do Haiti, concordaram em atuar conjuntamente nos seguintes pontos: pressionar o governo e o congresso brasileiro para transformar as tropas militares de ocupação em missões humanitárias para a reconstrução do Haiti em suas mais variadas áreas; pressionar o governo brasileiro para que encontre os meios para enviar as toneladas de doações como água, comida e remédios que estão sendo recolhidas em todo o país pelas organizações sociais; pressionar os organismos internacionais e os bancos para que cancelem a dívida atribuída ao Haiti; envio por parte das organizações sociais de brigadas de voluntários nas áreas de saúde, construção,
educação e produção; potencializar as campanhas de arrecadação de dinheiro organizadas
pelas entidades sociais; orientar para que as doações sejam entregues diretamente para as organizações sociais no Haiti, e realizar um dia de ação em solidariedade com o povo haitiano no dia 21 de março de 2010, com mobilizações e ato cultural.

Participe e mobilize-se, porque somos todas e todos Haiti.

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