Grandes transformações no campo abrem a perspectiva do MST se reposicionar na luta de classes
LUIZ ANTONIO PASQUETI
PROFESSOR DA UNB E MILITANTE DO MST
ENTRE 2005 E 2008, realizei uma pesquisa para o doutorado em História na Universidade de Brasília, tendo como objeto de estudo a reconstrução da Identidade Sem Terra pelas pessoas simples e comuns que fazem a história (“A história vista de baixo”, E. P. Thompson). Na pesquisa, fiz um recorte em que três grupos foram entrevistados: aqueles que sempre participaram de processos coletivos, os que estavam no coletivo e saíram, e os denominados “individuais”. O local
da pesquisa foi o assentamento da Fazenda Annoni, no Rio Grande do Sul.
Percebi um traço comum nas entrevistas: a afirmação da Identidade Sem Terra, independente da forma de participação, coletiva ou não. Sentem-se parte do Movimento tanto aqueles que estão nos coletivos, participando das instâncias de direção, como aqueles que se afastaram do coletivo ou que trabalham individualmente. Mesmo assim, continuam defendendo o Movimento e sentindo-se parte dele. Afirmam com orgulho: “eu sou do MST”. Em suas falas, expressam o
sentimento de pertencimento, realizando uma defesa emocionada, apaixonada, relembrando as lutas enfrentadas para conquistar a terra. Reagem quando ouvem críticas ou falas depreciativas sobre o Movimento em qualquer espaço, dentro ou fora do assentamento. Em suas narrativas, reafirmam a condição de Sem Terra como uma identidade construída na luta.
Portanto, para estes trabalhadores, não importa a forma como se organizam. Todos se sentem parte do Movimento, se sentem Sem Terra. Fica evidente que não existe uma identidade coletiva padronizada. Em suas memórias, estão vivas as experiências, os sentimentos e a determinação de continuar mantendo as conquistas.
São múltiplas as formulações da Identidade Sem Terra e podem ser encontradas em diferentes espaços: nas manifestações, no pensar e projetar a cooperação agrícola, no processo de formação, na escola, nas representações da mística, nas relações de gênero. Nas entrevistas orais, constatei que todos se sentem “do” MST, mesmo sem ocupar qualquer espaço na estrutura orgânica.
Histórias de vida
Um aspecto importante foi a análise das histórias de vida, considerando-se as experiências anteriores à chegada no acampamento ou assentamento, ou seja, os costumes mais fortemente enraizados na forma de produzir e de se relacionar com a terra. A passagem da produção familiar – ou meeiro, arrendatário, peão – para a organização e a produção coletiva ocasiona uma ruptura de valores, uma mudança, tanto de concepções como de relações cotidianas,
que vão sendo tecidas num processo lento e conflituoso. Entendo que as diversas experiências e formas de organização são partes inseparáveis do processo de construção da Identidade Sem Terra.
O desafio está na capacidade de criar espaços de organização social em que o coletivo possa se fortalecer como identidade social, e, ao mesmo tempo, que cada indivíduo possa manter sua singularidade dentro dos coletivos, construindo-se como sujeito. Assemelhando- se ao que Darcy Ribeiro chama de “povo em fazimento”. Estes sujeitos, sempre impedidos de sê-lo pela classe dominante, enfrentam a tarefa de reinventar o humano, sonhando com a constituição de um povo novo a partir das diferenças que se estabelecem entre eles, das especificidades e contradições políticas e sociais que os envolvem. Portanto, as identidades não estão ligadas ao centralismo do indivíduo isolado, mas de um sujeito que se constrói num processo histórico e relacional.
Neste sentido, a construção de uma identidade fixa, imutável e preexistente é improvável. O que constato na pesquisa são identidades em constante processo de reconstrução. Identidades entrelaçadas e tecidas pela luta social, no fazer social do cotidiano.
Destaco a importância dos processos estruturais e organizativos, que necessitam fazer o “enquadramento” dos sujeitos. Isso é comum em qualquer tipo de organização social: as normas, os princípios, valores, a formação. Como as águas de um rio – que necessitam das margens para se guiar, mas são também firmes e flexíveis para contornar uma montanha, abrem-se numa
planície e estreitam-se quando for necessário – os indivíduos precisam de uma estrutura organizativa que lhes dê guarida. Trata-se de levar em consideração a diversidade e as diferenças, mas nunca perder de vista a condição principal: a identidade de classe, de trabalhador Sem Terra.
