Grandes transformações no campo abrem a perspectiva do MST se reposicionar na luta de classes
EM 23 DE JANEIRO deste ano comemoramos cinco anos da Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF). Mas essa história, em constante construção, começou bem antes. Quem sabe podemos arriscar dizer que surgiu lá em 1984 quando, no Paraná, centenas de trabalhadores rurais decidiram fundar um movimento social camponês, que lutasse pela terra e
pelas transformações sociais no Brasil. Entre os pilares do Movimento Sem Terra sempre estiveram a educação e a formação política, entendidas aqui como um processo de estudo e prática, através de cursos, reuniões, ações coletivas e de luta. Muitos foram os cursos realizados pelo Brasil afora, e em 1996, surgiu a necessidade de se ter um espaço que pudesse fortalecer
esse processo de estudo, articulação e intercâmbio entre as organizações de trabalhadores do campo e cidade que lutam por um mundo mais justo.
“O objetivo da escola é a apropriação do conhecimento para a transformação dessa realidade, deste mundo. A proposta de construção inicia a partir de todo um processo do que é de fato o MST, uma construção coletiva a partir da solidariedade e do trabalho voluntário”, explica Maria Gorete, da Coordenação Político-Pedagógica da ENFF.
A construção da ENFF foi realizada por meio de um processo não tradicional: técnica solo-cimento, ou seja, com blocos feitos pelos próprios trabalhadores a partir da prensagem da terra. Neste sentido, a construção da escola significava uma escola em construção, e pessoas em construção. A ENFF se transformou em um espaço de criação de novas relações sociais e humanas entre as trabalhadoras e os trabalhadores voluntários que, ao aprender a técnica de construir com terra, foram construindo a si mesmos como cidadãos, através dos estudos e do contato com a natureza, das trocas de experiências, da solidariedade.
Inaugurada oficialmente no começo de 2005, a escola vem organizando cursos livres em várias áreas do conhecimento, como cursos básicos de formação de militantes, cursos de Economia Política da Agricultura, Sociologia Rural, Comunicação, Cultura e Agitprop, Teoria Política Latino-Americana, Formação de Formadores Latino- Americanos. São realizados também cursos em parceria com várias universidades públicas brasileiras, reconhecidos pelo Ministério da Educação, como graduações em Agroecologia, Pedagogia da Terra, Agronomia, Geografia, História, Direito, Especialização em Educação do Campo, Mestrado em Sociologia Rural, entre outros.
Por ela já passaram já mais de 16.000 educandos/as, com uma participação feminina que ronda em média os 50%, cerca de 500 professores voluntários e aproximadamente 1.900 visitantes de todo o mundo.
Heloisa Fernandes, professora voluntária da ENFF, nos disse um dia que com a inauguração da Escola, seu pai, Florestan Fernandes, retornava às suas três casas: retornava à primeira casa, à casa do saber, retornava à escola, ao ensino, à universidade, retornava realizado, àquela casa com que sonhou e pela qual tanto lutou. Retornava também à sua segunda casa, a casa de seus ancestrais, à sua herança mais íntima e verdadeira: à casa dos camponeses. Retornava, enfim, à sua terceira casa, aquela onde fixou sua morada e seus mais fervorosos projetos; retornava à casa do socialismo. Ao socialismo da solidariedade internacional, que tornou financeiramente possível a construção desta escola, e mais ainda, ao socialismo do trabalho das brigadas anônimas de Sem Terra que, tijolo a tijolo, garantiram sua existência?
Dezenas de homens e mulheres passam por aqui e com suas palavras, seu trabalho, suas árvores plantadas participam dessa construção: esta é uma escola do povo, da classe trabalhadora de todo o mundo. E mais gente, muito mais gente está por vir, esta escola de terra e cimento apenas começou, tem que crescer, para dar conta de tamanho desafio. Seguir é apenas uma tarefa para quem nasceu sabendo que nunca deverá parar.
Parabéns à Escola Nacional Florestan Fernandes!
