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Com ocupação do Ministério da Fazenda e ações em 20 estados, Via Campesina consegue conquistas

Início » Jornal Sem Terra » Avante!

Ativos em mais uma batalha

Número: 
299
Dez
2009

No início de 2009, o capital estava francamente em crise. E são nos momentos de crise que as classes sociais podem se reposicionar. Além da expectativa de eclosão de novas lutas, o Movimento se somou a outras organizações para dizer que a crise do capital não é nossa, e não deviam ser os trabalhadores a responder por seus efeitos. Tentamos colocar para a sociedade que a Reforma Agrária era e é a saída para a crise, e como resposta veio mais uma ofensiva contra o Movimento. Fizemos grandes jornadas de lutas, cobrando o cumprimento de compromissos históricos, como o assentamento das famílias, o aumento do orçamento, a atualização dos índices de produtividade. Mais uma vez, os inimigos reagem com a tentativa de desmoralização e chegam a instalar uma CPMI contra a Reforma Agrária. Vanderly Scarabeli, da Coordenação Nacional do MST, conversou com o Jornal Sem Terra sobre essa conjuntura complexa e apontou ainda os desafios para nossa luta em 2010. “Precisamos preparar uma nova ofensiva para o próximo ano”, aponta.

Joana Tavares
Setor de Comunicação do MST

JST – O ano começou com o impacto da crise econômica e a expectativa de reorganização das classes, com uma possibilidade de avanço das lutas populares. Como se deu o movimento das classes para responder à crise do capital?

VS – A crise pegou a classe trabalhadora no Brasil e no mundo desmobilizada e desorganizada, então o capital teve liberdade total de se recompor. Isto não quer dizer que a crise está superada, mas neste momento a classe trabalhadora não tem um projeto que mobilize as massas e possa impor derrotas significativas ao capital. Além disso, a política econômica do
governo Lula tem sido eficiente para manter o sistema funcionando, apesar da crise. Dificilmente uma empresa irá à falência onde existe um banco como o BNDES, que possui em caixa R$ 100 bilhões para salvar a burguesia. A isenção do IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) faz parte desta política de salvar o capitalismo. As empresas e o governo federal foram blindados por esta política.

JST – Um desafio constante do Movimento é a articulação de lutas comuns, a construção da unidade com outros setores da classe trabalhadora. O que avançamos neste sentido?

VS – No Brasil houve e há esforços para construir a unidade, agora para combater a crise. Além de reuniões entre diversas organizações, foram realizadas duas grandes mobilizações nacionais contra a crise, em março e agosto, reunindo centrais sindicais e movimentos populares. É preciso criarmos táticas de luta e instrumentos organizativos para que a classe proponha soluções para os seus problemas, e não seja usada para garantir os interesses da burguesia e de seus governos. Para o nosso Movimento esta cada vez mais claro que a construção da unidade é decisiva para a resistência e a vitória da classe trabalhadora. Nós temos nos esforçado para ampliar nossa política de alianças, porém não basta termos clareza, é preciso que a classe trabalhadora tenha instrumentos que facilitem as alianças e a unidade. Os instrumentos existentes são importantes, mas estão com grandes dificuldades de massificação das lutas, o que inclui o MST. Isto não quer dizer que não existem iniciativas, é claro que existem. Podemos citar a Via Campesina, a Assembléia Popular, a Campanha “O Petróleo tem de ser nosso”, que são exemplos desse esforço, mas são ainda insuficientes.

JST – Desde o início do ano, assistimos a um processo que buscava criminalizar o MST e as lutas populares, culminando agora com a CPMI contra a Reforma Agrária. Qual o objetivo dessa criminalização e o que ainda pode estar por vir?

VS – A criminalização dos movimentos sociais faz parte dos métodos de combate de nossos adversários, que primeiro ignoram, depois subestimam e quando nada disso funciona, atacam a moral de quem luta. A CPMI é um dos mecanismos de criminalização e será uma ação articulada envolvendo o parlamento, os meios de comunicação e o Poder Judiciário. É preciso que saibamos os verdadeiros interesses da CPMI, que são os seguintes: impedir a realização da Reforma Agrária; intimidar o governo para que não atualize os índices de produtividade; desmoralizar o MST e todos que lutam no campo brasileiro; fazer o governo recuar nas políticas
para os assentamentos e ainda projetar em melhores condições o candidato do PSDB à presidência da Republica.

JST – Como reagir?

VS – Para enfrentar esta ofensiva da direita iremos aplicar duas táticas. A primeira é continuar fazendo luta, ocupando o latifúndio, porém devemos atacar o que consideramos pontos fracos do agronegócio, como áreas de trabalho escravo, grilagem, problemas ambientais e de propriedade de empresas estrangeiras. Nossa segunda tática é a de popularização do MST, ou seja, fazer ações direcionadas para ampliar o nosso apoio na sociedade, como realizar feiras da Reforma Agrária, campanhas de doação de sangue, incentivar o trabalho voluntário para a sociedade, em colégios, creches, asilos, universidade, etc. Outra ferramenta importante serão as rádios, comunitárias, locais e até rádios comerciais, pois nelas temos mais acesso para explicar para a sociedade os verdadeiros interesses da CPMI e denunciar o agronegócio pela apropriação do dinheiro público, pela depredação do meio ambiente e exploração do trabalho escravo. Devemos aproveitar os Encontros Estaduais para aprofundar o debate sobre este novo momento de luta de classes no campo e preparar nossa ofensiva para o próximo ano. A guerra continua, estamos em mais uma batalha.

JST – Outra questão marcante no ano foi a disputa em torno do orçamento para a Reforma Agrária. Denunciamos o corte de 41% dos recursos para desapropriação, 62% do Pronera e depois de jornadas de lutas, conseguimos a promessa do governo de descontigenciar o orçamento. Em que pé está a questão do orçamento para a Reforma Agrária e as outras promessas do governo após o acampamento nacional?

VS – O governo Lula contingenciou o orçamento de vários ministérios com o objetivo de ter recurso em caixa para garantir os lucros das empresas diante da crise. É claro que foi cortado mais onde a prioridade do governo é menor. Nós fizemos uma boa mobilização nacional e obtivemos conquistas concretas, como o assentamento de Felisburgo O governo se comprometeu com um conjunto de promessas, mas com a falta de prioridade com a Reforma Agrária, somada com a CPMI proposta pela oposição, ele está recuado. Um dos exemplos é em relação à atualização dos índices de produtividade, que está parado. Outro é o compromisso, também ainda não realizado, da destinação de R$ 300 milhões para a aquisição de terras. Mesmo esse orçamento seria insuficiente, pois daria para assentar apenas 5 das 96 mil famílias
acampadas. Ou seja, teremos bons motivos para fazer lutas no próximo ano. O Encontro Nacional (em fevereiro) dará rumo para nosso planejamento.

JST – Em 2009, quais nossos avanços na questão da produção e da consolidação dos assentamentos? Como o Censo do IBGE pode ser aproveitado para provarmos a viabilidade da Reforma Agrária?

VS – Tivemos dificuldade de consolidar alguns dos nossos assentamentos, pois a política agrícola do governo atende com crédito somente 1 milhão das 5,2 milhões de propriedades. Além disso, em 12 estados não há assistência técnica. Mas um fator importante desse ano foi a divulgação do Censo Agropecuário, que revelou a inutilidade do latifúndio e a importância da pequena agricultura para a geração de emprego de 12,3 milhões de pessoas,
para a produção de 85% da mandioca do país, 70% do feijão, 46% do milho, 38% do café, 59% dos suínos. Devemos usar este censo para fazer em disputa na sociedade em torno do que é melhor para o Brasil e o campo brasileiro.

JST – Qual a perspectiva para a luta por Reforma Agrária em ano eleitoral?

VS – Em outros períodos eleitorais o MST priorizou a formação e a organização interna, porém devemos também aproveitar as eleições de 2010 para pautar a Reforma Agrária, fazendo luta. Estamos sem conquistas objetivas há muito tempo e precisamos fazer ações que abriguem o/a futuro presidente a se posicionar. Teremos também um desafio a mais na construção de unidade, pois o debate eleitoral será prioritário para a maioria das organizações com que o MST se relaciona. Porém um dos aprendizados que tivemos nesses dois mandatos do governo Lula é que sem luta de massa não haverá conquista, ou seja, é preciso debater o pós-eleição, se preocupar com a mobilização da classe.

JST – Quais os principais desafios a serem enfrentados?

VS – No campo dos desafios internos, podemos citar a massificação e organização de nossa base; a preparação para enfrentar a CPMI e os meios de comunicação da burguesia; a formação da base e dos quadros e a mobilização de todo nosso Movimento, com ações estaduais, municipais e locais com todas as famílias acampadas e assentadas, adquirindo um caráter unitário e nacional. No diálogo com a sociedade, precisamos recolocar o debate de Reforma Agrária de forma positiva, por meio de ações junto à população, lutas de massa e articulação com outras organizações. Temos também a necessidade de contribuir na construção
de um instrumento político de organização da classe trabalhadora.

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