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Com ocupação do Ministério da Fazenda e ações em 20 estados, Via Campesina consegue conquistas

Início » Jornal Sem Terra » Apresentamos nossas armas » A CPMI nos convoca a novas lutas » O MST e a luta pela redução da jornada

Reconstruindo a casa humana

Número: 
298
Nov
2009

A região central do Paraná chamada de Cantuquiriguaçu abrange uma área de 13.986 Km², é composta por 20 municípios e concentra, atualmente, o maior número de assentados do estado, com mais de 2,5 mil famílias beneficiadas. O histórico de luta dos trabalhadores e trabalhadoras Sem Terra na região, também conhecida como Cantagalo, tem origem na madrugada de 17 de abril de 1996 - quando mais de três mil famílias protagonizaram a maior ocupação da América Latina no latifúndio da empresa madeireira Giacomet- Marodin. A área, de mais de 80 mil hectares, abrange os municípios de Rio Bonito do Iguaçu, Nova Laranjeiras e Quedas do Iguaçu. Após a ocupação, a fazenda (fruto de grilagem da empresa) passou a ser vigiada por pistoleiros, que aterrorizavam as famílias. Em 1997, os Sem Terra Vanderlei das Neves e José Alves dos Santos foram mortos numa emboscada dentro da área. Oito anos depois, cerca de 50 mil hectares da fazenda foram transformados em quatro assentamentos, hoje responsáveis pela movimentação da economia regional. Nas terras libertas, os assentados produzem, principalmente, milho, soja, feijão, arroz e leite. Recentemente, conquistaram a construção de um campus da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS) dentro de um dos assentamentos. Voltada para a população mais excluída, a universidade
terá a participação dos movimentos sociais na sua coordenação. Elemar Cezimbra, do Setor de Formação e da Direção Estadual do Paraná, falou ao Jornal Sem Terra sobre a história de lutas, conquistas, experiências de organização e desafios do Movimento na região daqui para frente.

MARIA MELLO E SOLANGE ENGELMANN
SETOR DE COMUNICAÇÃO DO MST

JST – Qual o contexto histórico da experiência organizativa do MST na região de Cantagalo?

Elemar Cezimbra – A região centro do PR é uma das regiões com o mais baixo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do Sul do Brasil, o Território da Cantuquiriguaçu. Nas políticas públicas do governo Lula, foi definida como Território da Cidadania (programa lançado em 2008 pelo
governo federal para universalizar programas básicos de cidadania em regiões mais pobres do país). Há 20 anos, eram muito fortes na região o extrativismo de madeira e de erva-mate, a pecuária extensiva e uma agricultura camponesa, basicamente de subsistência, em meio a latifúndios – muitos, além de grilados, improdutivos. A Reforma Agrária começa após 1986, com os primeiros acampamentos e logo assentamentos, muitos deles em regiões distantes de centros urbanos, com péssimas estradas e precária infra-estrutura. Em 1994, começam a ser criadas as primeiras cooperativas, com destaque para a Cooperativa de Trabalhadores Rurais e Reforma Agrária do Centro-Oeste do PR (Coagri), que recebeu um impulso inicial com os recursos do Programa de Crédito Especial para Reforma Agrária (Procera). Quando a cooperativaentraria na fase de agroindustrialização, o crédito do programa foi extinto, interrompendo o processo de agregação
de renda a partir do beneficiamento de grãos e industrialização de leite, hortigranjeiros. A cooperativa entra então em um processo de crise, sofre com problemas de deficiência administrativa, com os desdobramentos da política agrícola e do abandono da Reforma Agrária. O saldo positivo desse
período, no entanto, foi o apoio que os assentados organizados na cooperativa deram para a conquista do latifúndio da empresa madeireira Giacomet Marodin, hoje chamada Araupel. Em 1996, tem início um processo de ocupações massivas na região, que 13 anos depois resultou em três projetos de assentamento, que totalizam maisde 57 mil hectares e beneficiam mais de 2,6 mil famílias. Hoje, é um grande complexo de assentamentos, com uma altíssima produção de grãos (ao redor de 2,5 milhões de sacas ao ano), leite e demais produtos de subsistência. A região abriga também um importante centro de formação técnica e política dos filhos de assentados e de pequenos agricultores da região, o Centro de Desenvolvimento Sustentável e Capacitação em Agroecologia (Ceagro). Já temos mais de 5,5 mil famílias assentadas na região, em mais de 55 assentamentos. Hoje vivemos um momento de retomada forte do processo de cooperação e intercooperação e de
fomento da agroecologia nos assentamentos. Temos um importante convênio de intercooperação de apoio na gestão estratégica de cooperativas com o Movimento Cooperativo de Mondragon, do país Basco, sete escolas de ensino médio e pelo menos 40 escolas municipais. Também estamos
num momento de retomada intensa da organicidade interna do MST, que com a crise das cooperativas também sofreu um certo descenso. As ocupações massivas na Giacomet Marodin ajudaram a conquistar vários outros latifúndios na região e devem seguir acontecendo, pois ainda há
áreas para a Reforma Agrária.

JST – Em 1997, foi realizada na região a maior ocupação da América Latina, com mais de 3 mil famílias no latifúndio da Giacomet Marodin, onde atualmente estão localizados quatro assentamentos.
Como se deu esse processo?

EC – O latifúndio da empresa, com aproximadamente 100 mil hectares, rodeado de minifúndios e famílias camponesas pobres, era o sonho de todo sem-terra. No entanto, era temido por sua violência extrema, com uma guarda de pistolagem com mais de 60 homens fardados, que cometeram inúmeros assassinatos, com cadáveres enterrados nas matas e que até hoje não foram investigados. A área era totalmente grilada e, além de devastar totalmente a madeira de lei, era improdutiva.Em 1996, a região centro já contava com mais de 1,5 mil famílias assentadas, a maioria em lugares remotos, de difícil acesso, com extremas dificuldades de desenvolvimento. Neste
momento, o MST nacional discutia que a Reforma Agrária tinha de ser feita em boas áreas e que o latifúndio, independente da dimensão que tivesse, não cumpria a função social. É daí que, após muito debate na região e em nível estadual, o MST define uma grande brigada estadual de militantes
da Frente de Massa para iniciar o processo organizativo e preparar as condições para enfrentar a Giacomet Marodin e seus pistoleiros. Junta dois acampamentos próximos ao latifúndio (um com 2,3 mil famílias e outro com 700 famílias), e no dia 17 de abril decide ocupar a área. Entre crianças,
jovens, adultos e idosos, são quase 15 mil pessoas que, na silenciosa madrugada, numa marcha onde só se ouvia o tropel dos passos, começa o fim do maior latifúndio do sul do Brasil, imortalizado na foto de Sebastião Salgado da abertura da porteira. A Coagri foi importantíssima nessa conquista. Os sócios soberanamentedecidem que a cooperativa também deveria ser um instrumento de luta por terra, pois quem já conquistou a sua tem o dever e a obrigação de ajudar quem ainda não conseguiu. Toda sua estrutura de caminhões, carros e escritórios foi posta a serviço da conquista deste latifúndio. Foram três grandes ações de massa: primeiro em 1996, com três mil famílias, conquistamos mais de 27 mil hectares; depois em 1998, com 1,5 mil famílias, ocupamos mais cinco mil hectares, mas não conquistamos assentamento e, finalmente em 2002, com mais 1,7 mil famílias, ocupamos outro setor do latifúndio. Este ficou cercado por dois grandes acampamentos
e um grande assentamento, até que saíram mais de 25 mil hectares.Há mais dois mil hectares ainda
ocupados e, agora, mais 2,5 mil jovens filhos dos assentados dispostos aseguir o rumo de seus pais e ocupar o restante do latifúndio grilado – que ainda tem mais de 50 mil hectares.

JST – Hoje a região central do Paraná concentra o maior número de famílias assentadas do estado. Qual a importância disso para o MST e para Reforma Agrária?

EC – A região se tornou um grande território reformado, ajudou muito as regionais vizinhas do MST a conquistar em outros grandes latifúndios, seja com o apoio das cooperativas, seja com força de massa. O MST cumpriu um papel importante para a criação dos sindicatos de trabalhadores rurais na região e de demais movimentos camponeses. É decisivo nos processos eleitorais no apoio aos partidos e candidatos progressistas de modo a politizar a região. Participa de muitas organizações sociais e públicas, levando a sua ideologia de defesa da classe trabalhadora e do desenvolvimento regional participativo e democrático. Sem os assentamentos, muitos municípios da região não existiriam. Muitas cidades dobraram e até triplicaram de tamanho. Houve um grande dinamismo econômico regional, com geração de trabalho e renda impressionantes, que começam a tirar a região do mapa da fome. Com participação crítica nas esferas social, pública e política, aponta rumos para que a população se organize e lute pelos seus direitos. Hoje é muito difícil imaginar a região sem a Reforma Agrária e sem o MST.

JST – Qual a importância da implantação da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS) na
região para o avanço da Reforma Agrária no estado?

EC –A UFFS é uma conquista principalmente dos movimentos sociais dos três estados do Sul, numa área geográfica que o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) chama de Mesorregião Sul e adjacências. Também teve um apoio importante das igrejas, dos políticos progressistas, da juventude etc. A Universidade foi criada com a vocação de ajudar a desenvolver
essa região nos seus vários aspectos, tem um caráter popular e é voltada principalmente para atender a população mais excluída. Terá um conselho estratégico social que controlará a universidade no sentido de estar atento para que cumpra com sua natureza de desenvolvimento regional e para os setores mais pobres da população, sem deixar de estar aberta a toda sociedade. Obviamente que a Reforma Agrária será uma das preocupações da universidade, o MST participará do seu conselho estratégico juntamente com outros movimentos sociais e demais setores sociais. Será a participação firme e decidida dos movimentos sociais, com qualidade, que garantirá que a UFFS não fuja do seu caráter social e com ótima qualidade. Não será uma universidade pobre para os pobres. Lutaremos firmemente para que seja uma universidade de alta qualidade, e estaremos vigilantes e participativos para que isso aconteça.

JST – Um dos campi da UFFS no Paraná será instalado em um terreno do Assentamento 8 de Junho, em Laranjeiras do Sul. Quais os benefícios disso para as famílias assentadas na região?

EC – Os assentados e a juventude poderão estudar. O lugar certamente será decisivo, porque todos os dias centenas, talvez milhares de jovens, verão a Reforma Agrária de fato. A Universidade estará dentro da Reforma Agrária e a Reforma Agrária estará dentro da Universidade, com tudo o
que isso implica. Nós do MST regional zelaremos cuidadosamente para que esta conquista desenvolva todo o seu potencial, voltada para as questões sociais, ao desenvolvimento na ótica dos movimentos sociais e da emancipação humana, da transformação social, aberta e solidária para com as causas dos trabalhadores e da humanidade.

JST – Qual a perspectiva da luta pela terra no Paraná para os próximos períodos?

EC – Penso que a luta pela terra no Paraná tem muito futuro. Há no estado quase um milhão de hectares de terras griladas, muita terra improdutiva e mais de 150 mil famílias sem-terra. O MST é forte, o movimento camponês em geral é forte. A agricultura camponesa tem um papel importante na soberania alimentar, na agroecologia, na produção de comida sem venenos. A população está se dando conta de que o modelo de agricultura do agronegócio é insustentável, doente, excludente e concentrador de riquezas e terra. Que tem no seu oposto a favelização, com todas as suas mazelas urbanas. Nós temos que saber debater com a sociedade, com os sindicatos urbanos, com as escolas e com as universidades as contradições do agronegócio e o que propomos como alternativa para o campo e para o povo brasileiro. Há que se discutir a Reforma Agrária, colada à alternativa social ao capitalismo. A senilidade do capitalismo está pondo em risco a humanidade e as condições ambientais de vida. A casa humana está em risco. Temos de construir um outro mundo, socialista, distributivo, emancipatório da espécie humana. Nunca foi tão favorável, no dizer de Marx, poder começar a verdadeira história humana. Há condições e é necessário.

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