Com ocupação do Ministério da Fazenda e ações em 20 estados, Via Campesina consegue conquistas
TALVEZ A PRINCIPAL lição que aprendemos em nossos 25 anos de luta é que apenas os trabalhadores organizados e em luta podem transformar a sociedade. E demonstramos isso novamente com a Jornada Nacional de Lutas em agosto, quando arrancamos conquistas importantes do governo federal, como a promessa de atualização dos índices de produtividade, 34 anos defasados, a liberação dos recursos para obtenção de terras e o assentamento das famílias acampadas em Felisburgo (MG). Mais do que as conquistas, é o exemplo pedagógico das lutas o que mais incomoda a burguesia.
Desde que a crise econômica internacional se acentuou, a mídia, os empresários e os governos pedem calma aos trabalhadores. “Não reclamem, todos têm que dar sua parcela de sacrifício”, esta era a mensagem. E assim milhares perderam seus empregos, enquanto o BNDES socorria uma por uma as empresas que apostaram no cassino das bolsas de valores. Mas, então, eis que os Sem Terra se mobilizam, colocam em cheque o discurso de que não há dinheiro para área social e arrancam conquistas.
Foi o que bastou para despertar a ira dos setores mais retrógrados da nossa sociedade. Rapidamente, a mídia, em especial a Revista Veja, em jogada articulada com a Senadora Kátia Abreu, musa da improdutividade, requentaram velhas notícias da CPMI da Terra – aquela que deveria investigar a violência no campo e virou palanque para a bancada ruralista – para ressuscitarem uma nova CPI com assuntos velhos. Uma estratégia de “cortina de fumaça”, para encobrir o que o agronegócio não quer e não pode discutir: a revisão dos índices de produtividade.
Ora, se o agronegócio afirma que “sustenta” o país, que bate recordes de produtividade e que domina a tecnologia no campo, por que tanto medo de atualizar 3 décadas de atraso e estabelecer um índice que apenas afirme o que já seria real? Para que a sociedade não discuta e não perceba que não é o agronegócio que sustenta o país, mas o contrário. A cada ano, volumosos recursos públicos são destinados ao agronegócio. Apenas para a safra 2008/09, foram R$ 65 bilhões. Isso sem contar as linhas de crédito do BNDES, criadas emergencialmente para salvar empresas como a Aracruz e Sadia da crise. Soma-se a isso um calote histórico de R$ 87 bilhões desde a década de 90, que são sucessivamente anistiados pelo governo. E para onde vão estes recursos? Para 10 grandes empresas multinacionais que
controlam desde as sementes ao comércio agrícola. Recebendo muito menos, a agricultura camponesa, que acessa em torno de R$ 500 milhões, garante a produção de 70% dos alimentos que chegam na mesa do trabalhador. Logo, não é o medo da desapropriação de terras, mas da falácia do seu modelo que assusta o agronegócio.
Porém, a mídia e o legislativo não são as únicas ferramentas utilizadas para combater os movimentos sociais. A criminalização – o tratamento dado aos movimentos sociais como criminosos – conduzida por governos estaduais só tem se acentuado. Como fica evidente no caso do Rio Grande do Sul, onde perdemos um companheiro covardemente assassinado pelas costas por um policial militar, mas também em estados como Pernambuco ou Pará. Nestes casos, o poder Judiciário também cumpre um papel: seja tornando mais lenta a Reforma Agrária, suspendendo desapropriações, seja garantindo a impunidade de improdutivos e assassinos.
A estratégia da burguesia é combinada e articulada e se dá em diversos campos e simultaneamente, como num jogo de xadrez. A reação dos trabalhadores e trabalhadoras deve se dar da mesma forma, mas não no campo da burguesia. O tabuleiro dos movimentos sociais é na rua e com a construção de unidade, em torno dos direitos da classe trabalhadora, para barrar os setores mais conservadores e conseguir conquistas. Não existe outro caminho que não a luta!
