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Com ocupação do Ministério da Fazenda e ações em 20 estados, Via Campesina consegue conquistas

Início » Jornal Sem Terra » Seguimos em luta!

Contra o latifúndio entrincheirado, povo organizado

Número: 
296
Set
2009

No Nordeste, convivem o latifúndio e as grandes reservas de território para o agronegócio.
Estão o capital internacional e o trabalho escravo. Existe a seca, e as melhores terras do
mundo. Há também o povo do Nordeste, que historicamente luta para romper as cercas que
impedem o desenvolvimento pleno da região. “No dia em que nós libertarmos a terra das
cercas, nós libertaremos também a água”, aponta Jaime Amorim , da coordenação nacional do MST, que em entrevista para o Jornal Sem Terra , explica que não é a seca o problema da região, mas o coronelismo, a concentração de terra, riqueza e poder. E que os trabalhadores rurais, mesmo transformados em operários, não perderam o sonho da terra. Por isso, a Reforma Agrária segue sendo uma perspectiva “bastante presente” na vida dos trabalhadores.

CÁSSIA BECHARA E JOANA TAVARES
SETOR DE COMUNICAÇÃO DO MST

Jornal Sem Terra – Há 22 anos o MST tomou a decisão de organizar os trabalhadores do Nordeste. Como se deu essa decisão e o início da construção?

Jaime Amorim – Desde o início o MST tinha a intenção de se tornar um movimento nacional, e o Nordeste era fundamental para isso. A região passava por um período bastante
difícil, porque durante a ditadura militar houve muita violência contra os camponeses. As Ligas Camponesas foram praticamente ceifadas, como organização e também a vida de muita gente. A principal dificuldade que enfrentamos foi que, apesar de haver uma história de luta importante, o povo estava completamente desorganizado. Enfrentamos também as dificuldades internas. Com o fim das Ligas Camponesas sobrou o sindicalismo, que é assistencialista, e as ONGs, que passaram a substituir a organização dos trabalhadores. Enfrentamos ainda um latifúndio bastante atrasado, tanto do ponto de vista econômico, como do ponto de vista político. Lembrando que a maioria do Congresso brasileiro é formada
por usineiros, a maioria do Nordeste. É um Estado montado pelos fazendeiros, os cacaueiros, criadores de gado, enfim, o latifúndio mais atrasado que impera e permanece até hoje na região.

JST – Houve mudanças no perfil da base do Movimento nesse período?

JA – Houve uma mudança substancial na base do Movimento, do início até hoje. Por exemplo, apenas nos Estados de Pernambuco, Paraíba e Alagoas, 120 mil sítios desapareceram. Sítios que faziam parte da composição dos engenhos e foram destruídos. Além do prejuízo ambiental, todas essas famílias foram para as periferias das cidades. Basicamente os camponeses da região canavieira – onde nós temos a maioria das famílias Sem-Terra – estão vivendo nas periferias das cidades. E nas periferias há outro processo de
formação cultural, política, social, uma degradação muito maior do ponto devista cultural. Há ainda uma influência maior de outras forças, como as Igrejas Evangélicas, que estão tomando conta do Nordeste. E parte das Igrejas mais reacionárias são financiadas pelos próprios senhores de engenho, pelos usineiros, como forma de submeter a população a seus interesses. Mesmo no Sertão, onde existe uma cultura camponesa mais forte, já não existem
mais moradores de fazenda. O que não quer dizer que os trabalhadores perderam seu sonho principal de ter a terra.

JST – Percebemos que o MST vem crescendo no Nordeste. Ainda é a necessidade de acesso à terra?

JA – São vários fatores. O Nordeste tem uma tradição muito forte do latifúndio e
das secas. Essa é a simbologia do Sertão. Todo mundo trata o sertão como seca, mas o grande problema do Sertão não é a seca, são as cercas que cercam a terra e a água. Na região canavieira – com a falência do setor, as novas tecnologias e as mudanças climáticas –, hoje, há trabalho de colheita apenas quatro meses por ano. É um monte de gente sem trabalho, sem nenhuma alternativa, e a luta pela Reforma Agrária é então uma perspectiva. Com uma tradição de concentração da terra, da renda, do poder, e com um coronelismo ainda muito forte, a Reforma Agrária é uma perspectiva bastante presente na vida dos trabalhadores, especialmente para quem vive nas periferias das cidades.

JST – Quais são as principais conquistas da Reforma Agrária, o que há de
novidades em termos de produção?

JA – Havia um sentimento – por parte da burguesia, dos governos e até de algumas lideranças de trabalhadores – de que a Reforma Agrária dava certo no Sul do país, e que no Nordeste não tinha massa, os trabalhadores já viviam nas periferias das cidades e a Reforma Agrária não era mais uma alternativa. Tinha aquela idéia: “é difícil organizar as cooperativas, os assentamentos do Nordeste”, por diversos fatores sociais, culturais, por causa do atraso do desenvolvimento econômico na agricultura. E o Movimento Sem Terra quebrou todos esses paradigmas. Nós conseguimos massificar a luta em todas as regiões do Nordeste. Tínhamos a avaliação de que iríamos massificar no litoral, na chamada Zona da Mata e na zona cacaueira da Bahia. Somado à qualidade do solo e do sol, temos aí as melhores terras de produção do mundo, e é onde se concentra a maioria da população. Mas foi no Sertão que foram se desenvolvendo os melhores assentamentos. No Agreste e no Semi-Árido, o povo tem uma tradição cultural camponesa mais forte, tem de fato uma vida camponesa.
No litoral, as experiências do cacau e da cana não foram experiências camponesas, foram escravas. Quando falamos de vitórias da Reforma Agrária, talvez a principal delas seja termos conseguido massificar o Movimento no Nordeste. Construímos boas experiências de assentamentos em todos os Estados. Praticamente 100% dos assentamentos são formados por agrovilas. E hoje estamos estruturando as casas, com quintais produtivos, energia elétrica, água encanada. Isso é fundamental para mostrar que a Reforma Agrária dá resultados – não só do ponto de vista social, que isso nós já provamos, mas também do
ponto de vista econômico.

JST – Como o Movimento desenvolveu tecnologias de produção no Semi-Árido?

JA – Cada estado vem buscando suas alternativas. No geral, nós nos somamos
com os que dizem que as cisternas são uma alternativa, mas achamos importante desenvolver também outras formas. Muitas vezes as pessoas pensam na água apenas como irrigação da produção. O Sertão tem um potencial bastante grande para a caprinocultura, produção de gado de leite e de corte. Resolvendo primeiro o problema de sobrevivência, a subsistência, a outra parte as pessoas vai conseguindo resolver. Temos grandes potenciais para a questão da água, desde as cisternas de placa, barraginhas, poços, regiões onde se faz pequenos barreiros, enfim... não é por falta d’água que o povo do Nordeste não fica na terra, é por causa das cercas que têm impedido as pessoas de desenvolver a região. A maioria dos grandes açudes estão cercados, porque pertencem aos grandes latifundiários.

JST – Como está hoje a questão da transposição do Rio São Francisco no Nordeste?

JA – Há muito debate em torno dessa questão. Inicialmente, não seria um grande problema o Rio São Francisco colocar suas águas abundantes a serviço de todo o Nordeste, para atender todo o povo. Há quem diga que é uma alternativa efetiva para o desenvolvimento da região. O problema é a forma como está sendo feita a obra, a quem ela vai atender e principalmente seu tamanho, que vem desse modelo desenvolvimentista, para atender as grandes empreiteiras. De qualquer modo, nós temos duas lutas pela frente. A primeira é garantir que – sendo feita a obra da transposição – todas as áreas ao redor do canal sejam desapropriadas para a Reforma Agrária. A segunda é garantir que as famílias
e comunidades que estão à margem de onde vai passar o canal tenham seu direito à terra onde vivem, que tenham direito de continuar na terra e que essas águas possam beneficiá-las.

JST – Como está o avanço do agronegócio?

JA – O governo Lula, do ponto de vista da possibilidade de avançar na mudança
de um modelo de desenvolvimento da estrutura agrária, foi muito prejudicial ao Nordeste. Ele chegou a chamar os usineiros de heróis. Isso é um sinal ideológico muito ruim para os trabalhadores. Os usineiros sempre foram os maiores inimigos do povo do Nordeste. Por 500 anos exploraram as terras, destruíram as possibilidades de sobrevivência das comunidades e continuam explorando mão-de-obra escrava até hoje. Nunca pensaram no desenvolvimento da região, sempre pensaram na acumulação econômica de suas famílias. Durante os
anos 80, 47 delas dominavam todas as usinas do Nordeste. São de um grupo seleto, casam-se entre si e mantêm concentradas as terras, as riquezas e o poder político. A força dos usineiros é muito grande. E um governo que poderia fazer alterações nessa estrutura política e econômica, faz o contrário: elogia os usineiros, coloca dinheiro nas usinas falidas, dá acesso a crédito e subsídios. Com isso os usineiros ganharam novo fôlego e estão se expandindo novamente.

JST – Isso não seria uma volta ao período colonial?

JA – A cana na verdade é isso, a recolonização. Mantém o trabalho escravo, a terra concentrada, baixo nível tecnológico, grande concentração de poder econômico e político. Uma situação semi-feudal, que mantém uma situação muito adversa para o avanço da Reforma Agrária.

JST – O que representa a eleição de governos mais progressistas em alguns estados do Nordeste?

JA – Essa foi a grande novidade do último período. Faz parte dessa reação que está ocorrendo em toda a América Latina, uma opção eleitoral por pessoas ou partidos que são anti-oligárquicos, anti-imperialistas, mais progressistas. Temos governos mais progressistas no Rio Grande do Norte, Pernambuco, Sergipe, Ceará e a Bahia, além da experiência com o Jackson Lago no Maranhão. É a resposta de uma população que vive na miséria, violentada pelo Estado, pela criminalidade que toma conta das favelas. Uma resposta contra essa burguesia submissa e nefasta que dominou o Nordeste durante muitos anos.
Isso representa avanço? Do ponto de vista econômico, não creio, porque esses governos fazem parte de um processo, da política econômica nacional. Do ponto de vista político sim, é um aceno, deve haver mais mudanças, principalmente no Senado. Houve uma diminuição da violência institucional. O Estado passa a negociar, a discutir. Mas do ponto de vista ideológico não representa muito, porque esses governos populares não têm organizado o povo, que
nunca esteve tão desorganizado e desmobilizado quanto está agora. Os governos tendem a aproveitar o povo do ponto de vista político-eleitoral, e não do ponto de vista organizativo.

JST – Quais são os principais desafios do MST e da Reforma Agrária hoje?

JA – O Movimento no Nordeste representa hoje mais de 60% das famílias acampadas no país. Isso demonstra que, além de muita terra, nós temos muitas famílias que colocam a Reforma Agrária como expectativa principal de vida, tanto cultural e social, como da vida econômica. Sabemos que a Reforma Agrária só será possível no dia em que a população urbana entendê-la como um projeto que beneficiará não só agricultores pobres,
mas um projeto de desenvolvimento que interessa a toda a sociedade. Infelizmente não há esse entendimento, eles olham a luta pela Reforma Agrária muito de longe. Talvez esse seja nosso principal desafio, levar a questão da Reforma Agrária para a cidade, para que as pessoas entendam que é possível construir um país sem concentração da terra. Se no passado as elites e as burguesias não visualizavam a possibilidade de sociedade sem o trabalho escravo, houve a luta e conseguimos viver num país sem o trabalho escravizado. Então é possível levar essa idéia para as cidades, para que as pessoas entendam que é necessário e possível o desenvolvimento sem o latifúndio.

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