Com ocupação do Ministério da Fazenda e ações em 20 estados, Via Campesina consegue conquistas
VALDIR MISNEROVICZ
COORDENAÇÃO NACIONAL DO MST
A REGIÃO Centro-Oeste do Brasil é constituída por quatro Estados: Mato Grosso, Mato Groso do Sul, Goiás e Distrito Federal, onde está localizada Brasília, a capital do país. Com uma área de 1.606.371,505 km², o Centro- Oeste é um grande território, sendo a segunda maior região do Brasil em superfície territorial. Por outro lado, é a região menos populosa do país e possui a segunda menor densidade populacional, atrás apenas da Região Norte. Por abrigar uma quantidade menor de habitantes, apresenta algumas concentrações urbanas e grandes vazios populacionais. Além disso, há uma diferença notável entre a parte norte da região, praticamente vazia, e a parte sul, onde se localizam as maiores cidades e também as áreas mais expressivas demograficamente. Brasília sozinha possui mais habitantes que o
Estado de Mato Grosso.
A vegetação da maior parte da região é ocupada pelo cerrado, tipo de savana com gramíneas altas, árvores e arbustos esparsos, de troncos retorcidos, folhas duras e raízes longas, adaptadas à procura de água no subsolo. O cerrado não é uniforme: onde há mais árvores que arbustos, ele é conhecido como cerradão, e no cerrado propriamente dito há menos arbustos e árvores, entre os quais se espalha uma formação contínua de gramíneas. As primeiras estradas e vilas criadas na região foram obras dos bandeirantes que, durante os séculos 17 e o 18, desbravaram territórios à procura de minérios ou para capturar indígenas. Mas o efetivo povoamento regional somente começou quando o desenvolvimento do Sudeste fez surgir um forte mercado consumidor para a pecuária e a agricultura na parte sul da região.
Essa contextualização faz-se necessária para que possamos compreender que nos últimos anos a região Centro-Oeste se tornou um local de grandes investimentos do sistema capitalista através de empresas estrangeiras, especialmente para produção de grãos e cana. As análises oficiais dão conta de explicar que surgiu uma das crises mais profundas e sistêmicas do capitalismo e que se trata de uma grave crise que afeta o conjunto da economia regional por um período prolongado. Até aí tudo bem! Mas o que os porta-vozes do sistema não querem ou não sabem explicar é: quais as causas desta crise? Não explicam por que o agronegócio – que era tido como a “salvação” da humanidade – de repente entrou em crise. São reveladoras e verdadeiras as notícias que circulam na imprensa, que dizem que a crise afetará todos os setores da economia, principalmente a indústria, a produção e o comércio. No caso da região Centro-Oeste, o setor de carnes já é o mais afetado, pois vários frigoríficos fecharam as portas ou estão sob administração judicial. Uma das consequências imediatas é o desemprego. Neste caso se trata de um desemprego estrutural, ou seja, a eliminação de postos de trabalho. Na agricultura, a avaliação é de redução de área plantada,
diminuição da produção e também o desemprego. O comércio também foi afetado diretamente pela redução da circulação e venda de mercadorias. A crise chegou também no setor público, que, diminuindo a arrecadação, piorou ainda mais o atendimento dos serviços básicos, principalmente de saúde e educação. Isso levou muitos municípios a fazer atendimentos de meio período ou manter apenas algumas atividades funcionando precariamente.
Disputas entre capitalistas
Diante do exposto podemos concluir que os mais afetados com a crise do modelo capitalista estão sendo os mais pobres, aqueles que só têm a força de trabalho para sobreviver e que dependem dos serviços públicos. A questão que precisamos continuar refletindo é: porque esta crise que tem sua origem no centro do capitalismo veio bater em nossa porta? O atual modelo tem muitas fragilidades, é um modelo altamente dependente do mercado internacional; é concentrador de renda e riquezas, cada vez mais mecanizado, além de ser predador da natureza. Esse modelo faz disputa de território entre capitais, como em Rio Verde
(Goiás), há uma disputa entre o setor sucro-alcooleiro e o setor de carnes, que dependem de matérias primas para alimentação de animais. Portanto, uma disputa entre capitalistas onde vale tudo para vencer. E quem acaba pagando a conta são os trabalhadores, que são submetidos à precarização das condições de trabalho, chegando até a condições de trabalho escravo, que, aliás, tem aumentado significativamente na região, principalmente nas usinas de cana.
Como parte da disputa e controle do território, as empresas transnacionais estão comprando as melhores terras agricultáveis na região. O exemplo desta ofensiva é no Estado do Mato Grosso, que no último período foi o que mais teve suas terras compradas por empresas internacionais. Este é um sinal claro de para onde o capital está direcionando suas ações, com o interesse de buscar lucros e transferir para suas sedes empresariais. Com essa
ofensiva, a natureza também está sendo afetada, pois o capital, para saciar sua volúpia de lucro, vai destruindo tudo. O pouco da vegetação do cerrado que ainda sobrevive está ameaçado. Alguns estudiosos dizem que o cerrado está dando seus últimos suspiros e pede socorro. Isso sem falar no uso abusivo de intensivos agrícolas, venenos que contaminam o solo, os alimentos, as águas, os seres humanos e todas as formas de vida. Ou seja, a ganância e a disputa dos capitalistas estão comprometendo a atual e as futuras gerações.
Essas questões não são analisadas e informadas pelos analistas do sistema que estão de plantão.
Precisamos ter claro que esta crise não tem solução no próprio sistema, pois a tendência é de aprofundamento e aumento das contradições. Nossa tarefa é de transformar a crise em oportunidade para criar as condições para sua superação. Agora é hora de apontar caminhos alternativos, acumular forças, construir alianças e debater com a sociedade.
