Com ocupação do Ministério da Fazenda e ações em 20 estados, Via Campesina consegue conquistas
Contra a idéia da força, a necessidade permanente da força das idéias. A Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF) faz jus ao nome de seu patrono ao permanecer construindo cursos, abrigando militantes e aprofundando temas de fundamental importância para a classe trabalhadora. Segundo Geraldo Gasparin, da coordenação pedagógica da ENFF, manter na pauta a importância da formação
para o conjunto da esquerda em um momento de refluxo é um desafio permanente. Leia a entrevista.
NINA FIDELES
SETOR DE COMUNICAÇÃO DO MST
JST – O MST sempre teve como um das suas prioridades a formação
de militantes. O que mudou, ao longo dos anos, na maneira de “fazer” formação e por que construir uma Escola Nacional?
Geraldo Gasparin – Sempre foi uma preocupação do Movimento, desde seu início, a formação de militantes. Até mesmo para ser fiel aos seus objetivos. Uma organização que tem um caráter popular e autônomo, também tem que ter uma autonomia político-ideológica. Ao longo da sua trajetória histórica, fomos percebendo a necessidade de aprofundar alguns temas extremamente importantes para nós. E, no processo de acúmulo nas lutas que desenvolvemos, fomos incorporando novas metodologias. A Escola surge neste momento em que a luta de classes coloca para nós a necessidade de aprofundar esta formação política, preparar os quadros considerando as exigências que o momento político coloca. A ENFF é fruto de um momento histórico muito preciso de um amadurecimento do MST, e também da leitura da necessidade de que as organizações políticas que não responderam aos desafios da formação política e não prepararam seus quadros tiveram enormes dificuldades e muitas não sobreviveram.
JST – Quais os princípios, a base pedagógica na qual é pensada a formação aplicada na ENFF?
GG – A formação para o MST sempre foi uma forma de ação. Ou seja, a práxis política faz parte do nosso conteúdo. Entender, compreender a realidade nas diferentes manifestações, entender o movimento da história. A formação que desenvolvemos busca nos capacitar para não somente entender, mas também para intervir nesta realidade. Por isso, precisamos nos apropriar e estudar ciências políticas, econômicas, sociais e vinculálos aos processos de transformação social que nós queremos desenvolver. Isso, somado aos conteúdos que a gente busca nas elaborações dos teóricos clássicos que se debruçaram e se desafiaram a responder, ao longo da história, os desafios da luta política. Quais as contribuições que eles deram ao seu tempo e que contribuições podem dar hoje para nos ajudar a analisar a realidade, o nosso país, e pensar um projeto de mudança social? O conteúdo que se expressa em todos os nossos cursos, seja de base, de militantes e de quadros, tem este princípio de entender o funcionamento da sociedade capitalista e de pensar formas de superar esta sociedade.
JST – No início da construção da Escola se pensava em projetar a Universidade da classe trabalhadora. Como é pensado hoje o acesso da classe trabalhadora à uma educação de nível superior?
GG – Sempre vimos a educação como direito nosso. E isso vem sendo negado aos trabalhadores, sobretudo aos trabalhadores do campo. Por isso, colocamos como pauta de luta a questão da educação também em nível superior. Hoje a ENFF estabelece convênios e parcerias com universidades nas áreas das ciências humanas como pedagogia, história, letras, geografia, filosofia. São convênios aportados pelo Pronera, recursos que hoje estão sob risco de serem suprimidos. Por
meio destes cursos de nível superior, ministrados pelas universidades, buscamos dialogar com o conjunto de conhecimentos que dêem conta de qualificar o nosso militante na área da educação, na área da produção agrícola, na organização dos assentamentos, e permanentemente elevar o nível de consciência política e social da nossa militância, da nossa base. Havia o debate: a Escola Nacional seria a universidade dos trabalhadores Sem Terra, da classe trabalhadora? Mas entendemos que a educação é dever do Estado, uma educação pública gratuita e de qualidade, como sempre disse Florestan Fernandes. Portanto, a ENFF se reserva em complementar temas e aprofundar debates que, geralmente, nas universidades não ocorrem e que para nós são fundamentais. Principalmente na área da filosofia, sociologia, economia política, agrária. E não buscamos a diplomação por diplomação. Consideramos que a universidade tem acúmulo na metodologia, na pesquisa, mas não deixamos de aprofundar e adequar o conteúdo à nossa realidade.
JST – Como a ENFF se utiliza dos padrões acadêmicos que existem: pela ressignificação ou apropriação?
GG – De maneira geral, o rigor da análise, do estudo, o quanto exige a universidade
a Escola também exige. Não é por ser uma escola de formação política que o rigor metodológico não esteja presente. Por exemplo, exigimos um trabalho de conclusão de curso, mas qual é o sentido do trabalho? Não é uma tese, um trabalho meramente especulativo. Deve estar imbricado, comprometido com a prática, com a ação. Deve ser produzido a partir da experiência concreta, na inserção na
organização, nos desafios políticos e orgânicos. Toda a produção teórica tem um compromisso em tentar entender a realidade que nos propormos a transformar. Esta é a ressignificação. Nos apropriamos do instrumental de análise, da metodologia científica, e produzimos conhecimento com o objetivo de responder aos desafios da classe trabalhadora. Buscando em Marx eu digo que os
filósofos já pensaram o mundo em diferentes maneiras, cabe aos filósofos agora transformarem o mundo. O conhecimento para nós deve ter o sentido humanístico, mas deve responder também aos desafios concretos da organização política.
JST – Como é o dia-a-dia da ENFF? Os militantes que lá estudam possuem algum espaço formal para contribuir com a política pedagógica da Escola?
GG – A vida da Escola é mantida pela própria militância do MST. Existe um coletivo de militantes que é a Brigada Apolônio de Carvalho – importante revolucionário brasileiro internacionalista. A Brigada tem a função de administrar do ponto de vista político, pedagógico e funcional o cotidiano da Escola. A parte da estrutura é mantida também pelos educandos. Na organização dos espaços, na
produção para o consumo interno, na limpeza... Há um envolvimento permanente. E cada curso tem também uma coordenação pedagógica que dialoga com a Escola e desenvolve suas atividades formativas. A ENFF vai desenvolvendo e acumulando a partir destas inúmeras experiências, metodologias que permitam de fato a participação dos educandos e das comissões pedagógicas em todo o processo da formação política. E como em todo o processo, nós nos deparamos com algumas contradições, que vamos ajustando e superando. Depende muito do educando o próprio andamento do curso. E o militante deve ter a disciplina para o seu tempo de estudo, para a elaboração individual. Mas há também um processo coletivo, um debate no que chamamos de núcleos de base, que é o espaço coletivo onde aprofundamos a leitura dos documentos e confrontamos as idéias.
JST – Podemos considerar que o espaço da Escola é também um espaço de fortalecimento
das relações políticas?
GG – A Escola comunga com as estratégias do Movimento, que define, a partir destas, a sua atuação; e a Escola procura fortalecer estas estratégias do ponto de vista organizativo, político, administrativo. Quando ela se propõe a qualificar e preparar seus dirigentes, tem esta vinculação. Estamos preparando os dirigentes, os militantes, para que atuem de forma a alcançar os objetivos que a organização se propõe. Tanto os mais imediatos quanto os mais estratégicos. É espaço de fortalecimento da política do MST quando ela se empresta para ser um espaço de formação da classe trabalhadora. A Escola hoje recebe militantes de diferentes organizações do campo – vinculados à Via Campesina – e da cidade. É um espaço de formação política fundamental dentro da esquerda brasileira, que tem sistematicamente recusado ou prescindido o espaço de formação política. E está cada vez mais claro, se analisarmos o momento político e histórico que vivemos, que a luta de classe não avança se não nos apropriarmos do conhecimento, se não criarmos aquilo que o Florestan chamava de espírito crítico generalizado na sociedade brasileira. E em uma sociedade como a nossa, sem espírito crítico generalizado, fica impossível criar mudanças sociais, impossível pensar em um projeto socialista. A ENFF se coloca nesta perspectiva: um espaço onde se produz esta consciência política no conjunto dos militantes e dirigentes de movimentos sociais. Sem pretensão de responder a
todas as questões que a própria luta vai colocando, mas ser um espaço de reflexão permanente sobre esta luta. Por isso que é uma escola para além do MST, pois abriga cursos e atividades de organizações que vêem na luta a importância da formação política.
JST – Quais os principais desafios da Escola neste momento complexo que vivemos com a não realização da Reforma Agrária, com o refluxo das lutas sociais...
GG – O grande desafio e aposta que a Escola faz é na necessidade da formação permanente de quadros. É no reascenso da luta que as tarefas estratégicas e as tarefas políticas e de formação se colocam. Nós não formamos quadros para estocá-los no armário, e no momento da luta vamos sacá-los. Mesmo num período de descenso, de refluxo, temos que preparar nossos militantes e dirigentes. O desafio da formação é permanente. A formação também tem como objetivo unir os desafios do conjunto da classe trabalhadora. A Escola não pretende ser ela a portadora de todas as respostas da luta, mas ela tem que dialogar. O desafio de motivar a militância num momento que a luta de classe está tão rebaixada, manter na direção a importância da luta teórica, despertar e motivar no conjunto das organizações populares e no próprio MST a necessidade do estudo. Contra a idéia da força a necessidade permanente da força das idéias.
