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O célebre “O Segundo Sexo” faz 60 anos

Número: 
295
2009

NALU FARIA*

O LIVRO escrito pela escritora francesa Simone de Beauvoir, lançado em 1949, marcou um novo momento para o debate sobre a condição das mulheres e da relação entre os sexos. O livro, publicado em dois volumes, é uma obra minuciosa, escrita com todo rigor que caracterizava a autora, para o qual utilizou conhecimentos de várias disciplinas tais como história, filosofia, economia, biologia e também de experiências de vida, com o intuito de colocar a nu a condição feminina. Ela quis mostrar que a própria noção de feminilidade era inventada pelos homens e tinha como intenção que as mulheres se autolimitassem. Questionava que, com todo o avanço da humanidade até o século 20 a construção das mulheres como inferiores e a posição de subordinação permanecia igual. Bem poucos aceitavam denunciar ou condenar, mesmo as mulheres. Dizia que as mulheres tinham que se adequar aos ideais e interesses masculinos e realizar sua feminilidade, que as convertiam em objetos e presas.

Por isso, as mulheres tinham que superar o eterno feminino que engessava e formar o seu próprio ser, escolher seu próprio destino, libertando-se das idéias preconcebidas e dos mitos pré-estabelecidos. O livro buscou justamente desnaturalizar a construção da feminilidade e mostrar que era uma construção social. Foi daí que se tornou célebre a frase “não se nasce mulher, torna-se mulher”.

Simone de Beauvoir pode ser considerada herdeira da primeira onda do movimento feminista, que teve nas francesas grandes expoentes tais como Olympes de Gouges, Flora Tristan, Louise Michel e tantas outras. O livro “O Segundo Sexo” influenciou de forma decisiva para o surgimento da segunda onda do movimento feminista iniciada no final dos anos 60. Já foi traduzido para mais de 70 idiomas e continua como uma referência fundamental para as novas gerações e para o feminismo atual, inclusive para aquelas que são criticas à visão de Simone de Beauvoir.

A segunda onda do feminismo teve como centralidade as relações entre o mundo público e privado e trouxe para o debate que a vida pessoal e familiar é política. Isso se deu tanto em relação às relações familiares, a sexualidade, o afeto, mas também em relação ao trabalho invisível e não reconhecido das
mulheres, a desigualdade salarial, a exclusão dos espaços de poder. Defendeu a construção de um movimento autônomo construído e dirigido pelas mulheres. Da mesma forma, colocou em debate a necessidade de construção de autoconsciência das mulheres como caminho para romper com o modelo de feminilidade que aprisionava. As mulheres deveriam agir com liberdade e autonomia para
decidir por si mesmas seu destino.

Atualidade do feminismo

Atualmente é cada vez mais comum ouvir que a vida das mulheres mudou muito, que já conquistaram tudo. Mas junto com isso cresceu uma outra idéia: de que as mulheres são mais protetoras, acolhedoras, cuidadosas, éticas. Essas características muitas vezes são usadas como argumentos para dizer que as mulheres são mais eficientes ou até mesmo superiores.

À primeira vista, isso até parece algo positivo, como se fosse um contraponto às idéias de subordinação e inferioridade das mulheres e que, portanto, as teses de “O Segundo Sexo” foram superadas. No entanto, essa visão vincula as habilidades construídas pelas mulheres à maternidade e considera que existe uma essência feminina, fixando-as em seu papel tradicional. Portanto, segue não reconhecendo as mulheres dotadas de inteligência e razão, e vincula suas características à biologia.

Os dados atuais em relação à condição das mulheres mostram que um pequeno número teve ganhos expressivos. No entanto, as mulheres são as mais pobres, com um maior número entre as desempregadas, há um incremento do tráfico e da prostituição, cada vez mais têm a responsabilidade manter suas famílias sozinhas, assim como aumenta sua contaminação pelo HIV e outras doenças. Há também um evidente retrocesso ideológico e, entre esses, está a expansão da mercantilização da vida e do corpo das mulheres, que também é marcada pela dimensão de classe. De um lado, as privatizações dos serviços públicos e a diminuição do Estado de bem-estar, sob o neoliberalismo, o que aumentou o trabalho doméstico e de cuidados. Ou seja, no mundo inteiro foi sobre os ombros das mulheres que recaiu uma enorme carga de trabalho, com a diminuição das políticas sociais.

O outro lado da mercantilização é a imposição de um padrão de beleza como norma a ser cumprida obrigatoriamente, que supostamente pode ser comprada no mercado. Dessa forma, são vendidos centenas de produtos e tecnologias que prometem eterna juventude e o corpo perfeito, ou seja, magro. Essa perspectiva de beleza está vinculada ao que se pode consumir. Ao lado da indústria de cosméticos e da beleza, outro setor que aufere grandes lucros com o mal-estar das mulheres é a
indústria de medicamentos. Essa também vende ilusões de bem-estar e felicidade, enquanto invade o corpo das mulheres e nega sua autonomia. Mas, enfim, as mulheres devem ser agradáveis, flexíveis e bonitas, para mostrar que são adequadas e femininas. Uma mulher que não se preocupa com a aparência é considerada fora do lugar, é um desvio. Dessa forma, podemos concluir que continuamos
diante de um modelo de feminilidade que aprisiona e nega a liberdade e a autonomia para decidir. Nossa luta feminista por uma transformação integral da sociedade seguirá até que exista uma verdadeira igualdade entre todas e todos. Isso inclui que possamos decidir que mulheres queremos ser, e aí superaremos esse modelo de feminilidade voltado para manter a desigualdade nos diversos âmbitos da vida.

No campo e no MST, o debate do feminismo trouxe a contribuição para que as mulheres camponesas se dessem conta de que também sofrem as consequências desse sistema. Por isso, tem se intensificado a luta das mulheres contra empresas transnacionais e o agronegócio, ao mesmo tempo em que denunciam a feminização da pobreza. Ao lado disso, tem chamado atenção do MST para o
grande debate sobre os ganhos do capitalismo com a exploração das mulheres, e a desigualdade das relações sociais entre homens e mulheres. Desigualdade que precisa ser superada para alcançarmos nosso objetivo maior que é o socialismo. A contribuição de Simone de Beauvoir seguirá como inspiração que nos alenta a seguir em luta até que as mulheres sejam livres. Mudar o mundo, para para mudar a vida das mulheres!

*Coordenadora da SOF – Sempreviva Organização
Feminista e da Marcha Mundial das Mulheres

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