Com ocupação do Ministério da Fazenda e ações em 20 estados, Via Campesina consegue conquistas
Cristina Vargas
Setor de Educação do MST
EM NOSSA TRAJETÓRIA, aprendemos com a luta que se queremos mudar as coisas que não concordamos precisamos conhecer profundamente a realidade e nela construir alternativas que nos leve a alcançar nossos objetivos. Temos que desenvolver experiências concretas e, destas, tirar lições para ter certezas daquilo que queremos. Dentro desta perspectiva, uma das experiências que desenvolvemos é a luta por escola. Escolas que sejam da classe trabalhadora, pensada pelos trabalhadores e para os trabalhadores. É assim que tem sido feito durante 25 anos. Lutamos para ter o acesso à escola, mas mais do que isso, para exigir nosso direito de construí-la.
Porque a escola é importante para o conjunto de nossas lutas?
Entendemos a importância do acesso à escola, mas compreendemos também que não basta conquistá-la para os trabalhadores. É preciso conquistar uma escola que seja de fato construída a partir das reais necessidades humanas. Mas isso não é uma tarefa fácil. Construir uma escola onde a formação para o mercado não seja o objetivo principal, e sim o ser humano. É preciso intensificar a discussão sobre a educação em nossos assentamentos e acampamentos, pois já há algum tempo estamos vivenciando uma situação bastante difícil de contornar. As escolas do campo estão sendo fechadas com muita facilidade, esta é uma realidade nacional. É por isso que devemos intensificar a luta para a conquista de novas escolas e de permanência das que já existem. Sabemos que a discussão sobre educação não se limita à escola, mas entendemos que, neste momento, este instrumento é fundamental para o acúmulo histórico da luta dos trabalhadores. Algumas questões identificam uma escola construída pela nossa comunidade. Gostaríamos de destacá-las para podermos debater em nossa comunidade o que podemos avançar nesta perspectiva e também razões pelas quais entendemos a importância de lutar para que tenhamos escolas em nossos assentamentos e acampamentos:
A luta que garantiu a escola dentro de nossos assentamentos e acampamentos
É difícil encontrarmos uma escola em nossos acampamentos que tenha sido uma implementação a partir de um oferecimento da prefeitura ou do Estado. Em sua grande parte, a escola é fruto de uma reivindicação dos Sem Terra acampados e assentados. Isto nos faz ter mais responsabilidade em garantir a continuidade de uma participação permanente da comunidade na escola, entendendo que a escola não deve estar desvinculada do assentamento ou acampamento.
O nome da escola
Parece algo sem muita importância em um primeiro momento, mas escolher o nome da escola assim como do assentamento, das ruas de nossa cidade, é algo muito significativo. Na História, a classe dominante sempre teve o direito de nomear os espaços públicos. Cabe a nós, trabalhadores, fazer o contraponto utilizando nomes que homenageiem os lutadores e datas significativas da classe trabalhadora.
A História a partir da luta dos trabalhadores
Em nossas escolas, a luta dos trabalhadores deve ser parte constante do aprendizado. A História não deve ser somente uma disciplina a ser estudada, mas deve fazer parte da vida da escola, valorizando as datas importantes, a fim de nos localizar nos processos históricos e nos sentir parte na construção de uma nova sociedade.
A produção
Em nossas escolas, a produção deve estar ligada ao conjunto do assentamento e do acampamento. Ter horta, viveiros, iniciativas que contribuam para o desenvolvimento da aprendizagem, bem como explorar o trabalho na produção desenvolvida no assentamento nas mais variadas linhas de produção. É preciso ter um diálogo com as discussões e práticas em torno da agroecologia. O aprofundamento deste tema é fundamental para o projeto de uma nova matriz tecnológica capaz de garantir a soberania de nosso país.
Embelezamento
A nossa escola embelezada demonstra o cuidado que temos com o espaço que é nosso. Os cartazes com foto de trabalhadores resgatam a história de lutadores com os quais podemos nos identificar. Esta tarefa é para toda a comunidade e não somente dos professores e educandos, mas de todos que fazem parte do Movimento.
Alimentação (merenda)
Em nosso Movimento estamos discutindo muito a importância da produção agroecológica, dos alimentos saudáveis, da preservação de nossas sementes. Em nossas escolas a alimentação deve se inserir neste processo de discussão. A merenda escolar deve ter um cuidado especial. Sabemos que esta é uma luta que temos que fazer junto às prefeituras e estados. A merenda saudável deve ser uma pauta de nossas lutas.
Coletivos
Em nossas escolas, a palavra coletivo deve ser o “extraordinário que se torna cotidiano”. É preciso que nossas decisões sejam construídas no coletivo. Nossa escola é o lugar onde temos que desenvolver a sociedade de valores coletivos, onde o sujeito saiba que pode contar com o coletivo e o coletivo saiba que pode contar com o sujeito. E este aspecto se aprende na prática, nas várias possibilidades que a escola proporciona, como por exemplo, na organização dos educandos, no coletivo de educadores, na organicidade do assentamento e acampamento.
As famílias dos educandos
Essas não devem ser chamadas na escola somente para falar sobre o rendimento escolar dos educandos e educandas. Em nossas reuniões de pais e mães o tempo deve ser valorizado e potencializado para serem refletidas com mais profundidade as questões da formação de nossas crianças, jovens e adultos.´
Estar no campo
O fato de podermos conquistar uma escola que está no espaço onde os educandos têm sua vida cotidiana é sem dúvida muito importante para demonstrar que valorizamos o lugar onde moramos, vivemos e produzimos com nosso trabalho. É lugar de saberes, onde podemos construir conhecimento, onde queremos qualificar e desenvolver a partir de uma perspectiva emancipatória.
