Com ocupação do Ministério da Fazenda e ações em 20 estados, Via Campesina consegue conquistas
Anita Prestes*
28 DE OUTUBRO de 1924: começa o levante tenentista no estado do Rio Grande do Sul. Logo a seguir, tem início a marcha rebelde que, mais tarde, entraria para a História como a Coluna Prestes (ou a Coluna Invicta) – episódio culminante do movimento tenentista.
A insatisfação no país era geral, mas foi a jovem oficialidade militar – os chamados “tenentes” – que assumiu a liderança das oposições. Os “tenentes” lutavam pela “moralização dos costumes políticos” e, em especial, pelo voto secreto, refletindo o anseio generalizado de liquidação da fraude eleitoral então em vigor.
A primeira revolta tenentista, rapidamente sufocada, imortalizou-se pelo episódio do levante dos 18 do Forte de Copacabana (RJ), no dia 5 de julho de 1922. Dois anos depois, estourava a Rebelião de São Paulo. Após três semanas de resistência ao cerco das tropas governistas à capital paulista, os rebeldes, sempre perseguidos pelos adversários mais numerosos e bem-armados, conseguiram chegar ao oeste do estado do Paraná, onde se estabeleceram.
A conspiração tenentista prosseguiu durante todo o ano de 1924. Após o levante paulista, atingiu um ritmo acelerado no Rio Grande do Sul. O principal coordenador da conspiração militar no Rio Grande do Sul foi o tenente Aníbal Benévolo, jovem oficial da Brigada de Cavalaria de São Borja. Também foram importantes na deflagração do levante gaúcho o capitão Luiz Carlos Prestes e o tenente Mário Portela Fagundes.
Na noite de 28 de outubro, levantouse o 1º Batalhão Ferroviário (BF), sediado em Santo Ângelo, sob o comando de Prestes e Portela, e, na madrugada do dia 29, algumas outras unidades militares nesse mesmo estado. Ao mesmo tempo, vários caudilhos “libertadores” (maragatos) ligados ao rico fazendeiro Joaquim Francisco de Assis Brasil aderiram ao levante.
Resistência
As forças governistas foram rapidamente mobilizadas e lançadas contra os rebeldes. Devido à falta de coordenação entre as unidades rebeladas e à espontaneidade de suas ações, em poucos dias estavam desbaratadas. A “revolução” conseguiu sobreviver apenas na região de São Luís Gonzaga.
Primeiro pelo fato de a cidade se encontrar distante de qualquer linha férrea, o que, naquela época, dificultava o acesso das tropas governistas, retardando sua investida contra os rebeldes; segundo por conta do papel decisivo do capitão Prestes na reorganização das tropas. Na prática, Prestes passou a comandar não só o 1º BF, que viera com ele de Santo Ângelo, como também os elementos militares e civis remanescentes dos diversos levantes ocorridos no estado.
Em São Luís Gonzaga, Prestes enfrentou a necessidade de organizar a resistência ao ataque inimigo em preparação. Foi assim que o 1º BF transformou-se na espinha dorsal da tropa rebelde, que ficaria conhecida como a Coluna Prestes.
Em dezembro de 1924, 14 mil homens, sob o comando do Estado-Maior governista, marchavam sobre São Luís Gonzaga. Formavam o chamado “anel de ferro”, com o qual se pretendia estrangular os rebeldes – cerca de 1,5 mil homens armados precariamente e quase desprovidos de munição – acampados em torno da cidade. O governo adotava a “guerra de posição” – a única tática que os militares brasileiros conheciam e que consistia em ocupar posições, abrindo trincheiras e permanecendo na defensiva, à espera do inimigo. Ou, então, quando as posições inimigas estavam localizadas, definia-se o “objetivo geográfico” para onde se deveria marchar, com a meta de cercar o adversário.
Prestes, assessorado por Portela, põe então em prática a “guerra de movimento” – uma espécie de luta de guerrilhas, uma novidade para o Exército brasileiro. O rompimento do cerco de S. Luís pelos rebeldes e a marcha vitoriosa da Coluna em direção ao norte, visando socorrer os companheiros de São Paulo, cercados pelas tropas governistas, constituiu a primeira grande vitória da nova tática
militar imaginada por Prestes.
A Divisão Revolucionária
Em 12 de abril de 1925, na cidade paranaense de Foz do Iguaçu, deu-se o encontro histórico das tropas gaúchas com os rebeldes paulistas. Após a junção das colunas, as tropas rebeldes foram reorganizadas, criando-se a 1ª Divisão Revolucionária, constituída pelas brigadas “São Paulo” e “Rio Grande”, sob o comando do general Miguel Costa. Ao todo, a divisão contava com cerca de 1,5 mil combatentes, incluindo cerca de 50 mulheres.
A formação da 1ª Divisão Revolucionária representou a vitória da perspectiva aberta por Prestes de os rebeldes darem continuidade à “revolução” tenentista. Prestes teria um papel destacado à frente da 1ª Divisão Revolucionária. O general Miguel Costa, reconhecendo sua competência e prestígio, entregou-lhe, na prática, o comando da Coluna.
A Coluna, além de mal-armada (não dispondo de fábricas de armamento e munição), não contava com uma retaguarda que assegurasse o abastecimento da tropa. Baseado na experiência do 1º BF, Prestes transformou a tropa rebelde num exército em que vigorava a disciplina militar e, ao mesmo tempo, era estimulada a iniciativa dos soldados. Sem a participação ativa de cada soldado seria impossível garantir a sobrevivência de uma força armada tão diferente: não havia soldo, nem pagamento de qualquer espécie, ou vantagens de qualquer tipo, e se exigia, para permanecer em suas fileiras, um grande espírito de sacrifício e muita disposição de luta. A Coluna não poderia se transformar num exército revolucionário, movido por um ideal libertário, se não incutisse em seus combatentes uma atitude de respeito e solidariedade em relação ao povo com que mantinha contato. Qualquer arbitrariedade era punida com grande rigor.
A Coluna Prestes durou dois anos e três meses, percorrendo cerca de 25 mil quilômetros através de treze estados do Brasil. Jamais foi derrotada, embora tenha combatido forças muitas vezes superiores em homens, armamento e apoio logístico, tendo enfrentado ao todo 53 combates. Os principais comandantes do Exército nacional não só não conseguiram desbaratar a Coluna Prestes, como sofreram pesadas perdas e sérios reveses impostos pelos rebeldes durante sua marcha. A Coluna, em seu périplo pelo Brasil, derrotou 18 generais.
Os soldados rebeldes foram os esbravadores do caminho que minou os alicerces da Primeira República. A Marcha da Coluna e o impacto causado em Prestes pela situação deplorável em que viviam as populações do interior do Brasil levaram o Cavaleiro da Esperança a se transformar, anos mais tarde, na principal liderança do movimento comunista no país. A Coluna Prestes gerara o líder mais destacado da revolução social no Brasil.
*Doutora em História Social pela UFF e filha de Luis Carlos Prestes com Olga Benário
