Com ocupação do Ministério da Fazenda e ações em 20 estados, Via Campesina consegue conquistas
Por José Luis Patrola
Coordenador da Brigada Internacionalista Dessalines
HÁ MUITOS ANOS a Via Campesina Brasil vem tentando desenvolver um programa de cooperação com as organizações camponesas haitianas. Depois de o governo federal rejeitar nossa proposta de trabalho, decidimos viajar ao Haiti com nossos próprios recursos. Desde janeiro, estamos aqui.
Durante este ano, pretendemos conhecer o país e suas organizações camponesas na perspectiva
de preparar as bases para um programa de cooperação mais intensivo. Estamos percorrendo todo o território, articulando e visualizando a difícil realidade do setor camponês. Ao mesmo tempo, pretendemos iniciar experiências na produção de sementes e mudas, na construção de cisternas e na possibilidade de instalar uma escola técnica de nível médio para capacitar
jovens camponeses. O meio rural haitiano, como todo o país, é muito pobre: 65% da população,
de aproximadamente nove milhões, é camponesa e vive extremas dificuldades. Primeiramente, o meio rural vivencia o problema da terra. A grande maioria dos camponeses tem pouquíssima terra e
na maioria dos casos não possui nenhuma qualidade de titulação e regra para seu uso. Há, portanto, um natural desinteresse pelo uso e pela conservação da mesma. Ao mesmo tempo, a crise ambiental se agrava devido ao uso intensivo de tecnologias nocivas ao meio ambiente e ao consumo intensivo de carvão, que é utilizado em 70% das cozinhas do país. Em todo o território restam apenas 3% de cobertura florestal nativa. Por último, o meio rural vive uma crise econômica muito grave. As políticas neoliberais e o livre comércio estão destruindo a capacidade produtiva
do país. Em 1970 o Haiti produzia praticamente 90% de sua demanda alimentar. Atualmente, importa-se 55% de todos os gêneros alimentícios consumidos. As possibilidades deste pequeno
país se desenvolver são realmente limitadas.
O agravamento dos problemas econômicos, sociais e ambientais poderá gerar verdadeiras convulsões ou catástrofes populacionais sem precedentes, como as enchentes de setembro
de 2008, que mataram mais de 700 pessoas em apenas uma cidade. O Haiti necessita urgentemente da solidariedade internacional construída por parâmetros não capitalistas e oportunistas.
A integração que o país necessita não é a integração que o livre mercado proporciona. Esta lógica prova, a cada dia, sua ineficiência em resolver os problemas estruturais do país, que precisa
urgentemente reabilitar a economia agrícola por meio de sistemas de irrigação e captação de água da chuva. Construção de estradas, novas tecnologias para a produção, um novo sistema de ensino e pesquisa para o campo com escolas técnicas integradas às organizações camponesas.
A tarefa de nossa brigada consiste fundamentalmente em fortalecer as organizações camponesas na perspectiva de buscar saídas coletivas por meio da solidariedade internacional e de uma integração através da Alternativa Bolivariana para as Américas (ALBA). Ou o país caminha rumo a uma integração alternativa ou o futuro é a barbárie.
Em terras caribenhas
No dia 29 de janeiro de 2009, depois de haver passado 50 dias pelo interior da Venezuela, estudando e conhecendo as experiências do Instituto Agroecológico Latino Americano, o IALA, a Brigada Internacional da Via Campesina brasileira, Brigada Dessalines, desembarcou no Haiti para efetivar a missão de solidariedade internacional junto aos camponeses haitianos.
Quatro militantes de três regiões distintas do Brasil. Somos um coletivo, uma brigada composta por membros do MST e do MPA. Somos assentados em áreas de Reforma Agrária, pequenos agricultores, técnicos, professores. Somos militantes internacionalistas. Quatro esperançosos companheiros dispostos a intercambiar, a vivenciar... Dispostos a aprender e ensinar com os camponeses haitianos, herdeiros de Dessalines. Dispostos a aprender e ensinar no cotidiano do povo mais pobre do nosso continente, vítima direta das bárbaras agressões do capital.
Desembarcamos, no dia 29 de janeiro, quatro curiosos. Aflitos para ver, para conhecer o povo,
para sentir o contraste físico, geográfico, cultural, social e econômico que o tempo impôs. Desembarcamos trazendo em nossas malas a solidariedade. A serenidade. O entusiasmo. Trazemos um dos valores mais profundos do militante. A completa disponibilidade. Desembarcamos, no dia 29 de janeiro, dispostos a enfrentar qualquer tipo de adversidade. Dispostos a aprender um idioma completamente distinto do nosso, a percorrer o país por rodovias que literalmente caem aos pedaços, pisoteadas por animais, veículos e pelos “blindados”... Dispostos a visualizar cotidianamente o horizonte montanhoso despido de árvores.
Desembarcamos, trazendo em nossas malas sementes. Uns dos bens mais precisos para a manutenção da vida humana e que nessas terras distantes precisamos blindar do perigo ameaçador
transnacional. Em nossas malas, carregamos grãos que geram a vida e a esperança... Esta, tão pouco valorizada, e tão escassa nesse país roubado, saqueado e invadido muitas vezes. Desembarcamos sem balas, tanques e fuzis. Quatro companheiros sem as armas da guerra,
sem as armas que muitos brasileiros já trouxeram em suas malas e as apontaram contra o povo.
Desembarcamos com nossa esperança unida à esperança dos camponeses haitianos... Nosso entusiasmo unido ao entusiasmo afro-caribenho de camponeses e camponesas pobres que ainda não perderam a perspectiva de um país melhor... Nossa disponibilidade compartilhada com aqueles
que sempre foram duros com os invasores desrespeitosos... Nossas sementes, unidas com as sementes produzidas nestas terras... Nossa luta unida com a luta deles. Nossa bandeira hasteada
com a bandeira deles. Nossa vitória unida com a vitória deles. Nosso continente unido ao continente deles... Viva o Haiti!! Viva a Brigada Dessalines!!
Quem foi...
...Jean-Jacques Dessalines? Líder da Revolução haitiana que proclamou a independência do país em 1º de janeiro de 1804 e foi seu primeiro governante. Ex-escravo, Dessalines participou das revoltasde escravos da colônia francesa de Santo Domingo. (20/09/1758 – 17/12/1806)
