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Início » Jornal Sem Terra » Sem luta, não há vitória

Chico Mendes vive!

Por Frei Joseumar Miranda da Silva
Coordenador Regional da CPT (AC)

FRANCISCO ALVES Mendes Filho, o Chico Mendes, nasceu em 15 de novembro de 1944, num seringal quase na fronteira do Brasil com a Bolívia, no município acreano de Xapuri. No caminho comum de muitas lideranças populares, aprendeu a ler já depois de adulto e não conseguiu uma educação formal sofisticada. Mas poucas pessoas da Amazônia terão utilizado os conhecimentos adquiridos na escola informal da família seringueira como Chico o fez. O primeiro e único mandato legislativo de Chico Mendes foi como vereador de Xapuri, eleito em 1976, pelo então Movimento Democrático Brasileiro (MDB), hoje PMDB.

No mesmo ano, Chico participa ativamente da fundação do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Xapuri. A partir daí começa a sofrer as primeiras ameaças de morte, e tem início as dificuldades
com o MDB, que não via com bons olhos suas propostas políticas. Assim, Chico se engaja na fundação do Partido dos Trabalhadores (PT). Chico Mendes foi herdeiro da luta do Ciclo da Borracha. Dessa história que o Brasil desconhece e que certamente a literatura, o cinema e a televisão terão que contar ao longo do terceiro milênio.

História que os líderes dos movimentos sociais, espalhados pelo país afora, terão que sistematizar
para as novas gerações. Povos da Floresta Em outubro de 1985, Chico Mendes organiza o 1º Encontro Nacional dos Seringueiros e sua figura começa a ganhar relevo no meio sindical. Podese
dizer que, juntamente com Wilson Pinheiro – assassinado em 1980 – Chico iniciou o processo de formação de consciência numa população de trabalhadores, os seringueiros, que há mais de um século perambulava pelas selvas amazônicas sem reconhecimento de quaisquer direitos.

Com a criação do Conselho Nacional dos Seringueiros, a proposta de unir os Povos da Floresta é posta em discussão. Era a primeira tentativa concreta de unir os interesses de índios e seringueiros em defesa da selva amazônica. A partir de 1987, Chico começa a ser reconhecido no cenário internacional. Apesar deste reconhecimento e dos vários prêmios recebidos lá fora, os dias de vida
de Chico Mendes aqui começaram a entrar em contagem regressiva. À frente do Sindicato de Xapuri, o movimento tem suas raízes na resistência dos seringueiros para não permitir que a selva amazônica fosse queimada e transformada em pasto para implantação de grandes fazendas de pecuária.

Chico Mendes tornou-se o símbolo dessa resistência. O movimento, liderado por ele, é de caráter pacífico e ecológico. Arriscavam suas vidas em defesa do meio ambiente e em defesa da própria
sobrevivência. Uma das táticas utilizadas por este grupo era o “empate”. Que no linguajar do amazônida quer dizer: impedir, atrapalhar. Operações em que os seringueiros reuniam grupos
de 100 a 200 pessoas, também com as mulheres, para impedir que os “peões” derrubassem a floresta. Chico Mendes lutou contra o latifúndio, pela Reforma Agrária. Ele era representante de
milhares de trabalhadores brasileiros na luta por transformações sociais.

Indiferença
Sua morte, na noite do dia 22 de dezembro de 1988, não foi em vão para muitos movimentos sociais existentes no país e no mundo. Para aqueles que já foram vencidos pelo monstro do capital, esta história e martírio não têm valor algum. A indiferença é um dos piores sentimentos que uma pessoa pode ter.

Pude perceber esta indiferença quando estive em Xapuri, para participar das homenagens ao Chico Mendes, na data dos 20 anos de seu assassinato. Sua terra natal não o reconhece como herói e tampouco como líder. Das pessoas que participaram das atividades, posso arriscar em dizer
que pouco mais de 20% eram do município. O comércio, os bares, as conversas nas praças seguiram sua rotina. Fazendome lembrar das palavras de Jesus: “Nenhum profeta é bem aceito na sua terra”. Isto mesmo, Chico Mendes é mais conhecido internacionalmente, por meio de sua luta pela preservação da Amazônia, sem, contudo, ter o devido reconhecimento aqui no Brasil, e tampouco na cidade que recebeu seu sangue, derramado naquela noite traiçoeira, pela escopeta de um covarde atirador.

Será que Xapuri mereceu o sangue derramado por ele? Será que o Acre mereceu a vida doada por este líder? Será que o Brasil mereceu este bravo filho seu que não fugiu à luta? Apesar de sua casa ter sido transformada em atração turística, juntamente com o museu que relembra sua trajetória
e o seu túmulo ocupando lugar de destaque no cemitério da cidade de Xapuri; apesar de ter seu nome colocado em Reserva Extrativista, em Instituto, em parques, em avenidas etc., os ideais de Chico Mendes quase não são levados adiante. Dando uma sensação de que sua morte foi em vão. Tornou-se um bom marketing para o Acre, para vários políticos que se elegeram, e ainda se elegem, dizendo carregar a mesma bandeira de luta que Chico Mendes carregava.

Este mesmo Estado, que se diz orgulhoso de ser a terra de Chico Mendes, o defensor da floresta e dos povos da floresta, tem hoje mais de 100 projetos de manejo florestal, inclusive um já em pleno
funcionamento no Seringal Cachoeira, berço de luta de Chico Mendes, e mais de 10 mil cabeças de gado dentro da reserva extrativista que leva seu nome.

Durante a caminhada até o seu túmulo – parte da programação em homenagem aos 20 anos do seu assassinato – escutei algumas piadas de pessoas que não concordam com a maneira que o nome de Chico Mendes é usado. Durante os gritos deordem “Chico Mendes Vive!” Eles diziam: “... se viver, muita gente aqui vai matá-lo novamente!” “... ele dá mais lucro morto do que vivo!” “... se viver, muitos vão perder seus empregos e até cargos políticos!”. Mas, para muitos sonhadores que
pensam no coletivo e na construção de uma nova sociedade, o grito ainda ecoa forte na alma: "Chico Mendes vive!”.

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