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Com ocupação do Ministério da Fazenda e ações em 20 estados, Via Campesina consegue conquistas

Início » Jornal Sem Terra » Mulheres da Via Campesina em luta

"A resposta está com os trabalhadores"

Por Nina Fideles
Setor de Comunicação do MST

Estudiosos, economistas, presidentes, empresários. Todos têm algo a dizer sobre este momento que estamos vivendo. O que se pode afirmar é que em momentos de crise o capitalismo vai buscar as melhores formas – para ele – de superação. Os altos índices de desemprego apontados desde o início do ano indicam uma destas “alternativas”. Além da precarização, da intensificação da exploração da força de trabalho e dos recursos naturais, que levam a pioras significativas da vida do trabalhador.

Seja no campo ou na cidade. Para buscar mais elementos sobre como o MST tem observado este momento complexo e como tem preparado a sua ação para este período, o JST entrevistou Soraia
Soriano, da coordenação nacional do Movimento. Leia abaixo.

JST – Antes mesmo do tema “Crise” aparecer na mídia e em declarações públicas, podemos afirmar que já havia sintomas desta crise na sociedade?
Soraia Soriano – Normalmente os trabalhadores têm dificuldade de perceber a crise. Só percebemos quando ela já está no auge, quando na verdade o capital já está buscando saídas. A alta dos preços dos alimentos, por exemplo, pode ter sido um dos indícios no ano passado. Parece-me que a crise já apontava em 2007 nos EUA, mas só foi assumida pelo capital mundial no
final do ano passado. Enquanto os capitalistas não assumem a situação, as coisas ficam naturalizadas para o trabalhador, que pensa: “aumentou o preço do feijão ontem, hoje do óleo,
amanhã com certeza algum outro problema...” Toda vez que eclode uma crise, eleva-se o preço das mercadorias, e o trabalhador tem dificuldade de comprar bens essenciais, pois seu salário
não foi elevado da mesma forma.

JST – E quais são as respostas dadas pelo capital neste momento?
SS – Para os capitalistas, é hora de ajustar o que eles chamam de recursos fictícios com a produção. As saídas dadas por eles até agora não apontam solução para a crise. Ou eles vão conseguir administrá-la por um período ou não. A crise pode se aprofundar. A resposta está em como se dará a relação do capital sobre o trabalho e sobre o trabalhador. Desemprego, demissões,
precarização do trabalho, diminuição dos direitos sociais já são medidas que vêm sendo adotadas. Além disso, recursos públicos que já não eram direcionados aos trabalhadores, agora passam a ser direcionados ainda mais para salvar a grande produção, as indústrias. A única saída que os capitalistas apontam para as crises é novamente investir na produção. E a única forma de fazer
isso é intensificando a exploração da jornada de trabalho.

JST – Quais os sinais da crise que o Movimento tem percebido nos assentamentos
e acampamentos pelo Brasil?
SS – A crise vai afetar e está afetando os assentamentos de várias formas. A situação dos assentados talvez seja mais perceptiva no processo de produção da safra e de venda. Como
os assentamentos são territórios, serão afetados de várias formas para além da produção. A situação precária de educação, saúde e infraestrutura geral deve piorar próximo período. Porque os recursos num momento de crise são deslocados para salvar as grandes empresas, o agronegócio, os bancos e assim, nós vamos receber bem menos recursos para estes territórios.
Já no caso dos acampamentos, as pessoas já estão desempregadas há algum tempo, e vão sentir com certeza os efeitos da crise. A única saída na situação dos acampados é intensificar o processo de luta. Não é mais um processo de espera, os acampados não podem mais esperar. Se neste período algumas políticas públicas tinham a possibilidade de chegar, mesmo com toda a demora, em um processo de crise isso vai dificultar.

JST – No campo, como o trabalhador rural vai sentir a crise?
SS – No campo a gente tem duas situações. Temos o trabalhador assalariado, que vai sentir igual ao trabalhador da cidade, porque está dentro do processo produtivo industrial, como a cana, por exemplo. Mas no caso da agricultura familiar, tem diferenças. Porque vai haver uma maior exploração do capital sobre os recursos naturais, que são fontes de matéria prima e ainda um aumento da compra e especulação sobre a terra. Somado a isso, há um deslocamento dos recursos públicos disponíveis, que passam a priorizar a grande produção. Imagino que o trabalhador
vai ter muito mais dificuldade de garantir sua pequena produção.

JST – A esquerda aponta que momentos de crise podem ser propícios para a mobilização popular. Já estamos vivenciando este momento?
SS – Acho que as coisas não são totalmente positivas nem totalmente negativas. Agora a esquerda vai ter que disputar a consciência dos trabalhadores com a burguesia, com os patrões e com o Estado. É hora das organizações de esquerda politizarem as reivindicações dos trabalhadores. Agora, o Estado, os patrões, a burguesia de modo geral vão fazer o mesmo movimento: “a crise é um problema de todo mundo”. Estas serão as duas possibilidades para o
trabalhador: se organizar ou jogar o jogo da burguesia. Acho que há a possibilidade de esquerda
ter uma abertura para a politização dos processos, pois todos vão sentir a crise. Mas não podemos esquecer que o outro lado joga também. E eles vão querer realizar alguns pactos com os trabalhadores. Quem num momento de crise vai querer perder o emprego? Os trabalhadores também estão propícios a fazer negociações, que até já estão acontecendo em muitos sindicatos. Temos que fazer com que o trabalhador se recuse aos acordos e entenda que todas as lutas reivindicatórias fazem parte de um conjunto maior de reivindicações, relacionadas ao modo
de produção capitalista. Dia 30 de março foi tirado por um grande conjunto de organizações e
movimentos sociais como o dia nacional de paralisação e mobilização da esquerda e dos trabalhadores. Será um dia de ensaio, de possibilidades com o conjunto das forças representativas dos trabalhadores. E o MST estará presente. (veja manifesto abaixo).

JST – Quais as formas de organização para a esquerda atuar frente à crise?
SS – A esquerda deve repensar e analisar melhor o período em que vivemos e as formas de organização da classe trabalhadora em períodos anteriores. Énecessário buscar novas formas de
organizar a classe. Porque atualmente parte dos trabalhadores está organizada em instrumentos como sindicatos e movimentos sociais. Mas não sabemos se esses meios serão suficientes...
Mas sabemos que a resposta está sempre com o trabalhador. Qual é a resposta da classe para a
saída da crise? O trabalhador precisa tomar posição e dizer que não aceita as demissões, a redução dos direitos. Precisa se movimentar.

JST – Qual o papel do Estado nos momentos de crise?
SS – O papel de Estado sempre foi de salvar a burguesia, dispondo de recursos públicos nos momentos de crise. Como por exemplo no processo de fusões, em que recursos públicos do BNDES são destinados para salvar grandes empresas, pelo meio de financiamento, ou pelos baixos juros oferecidos nos empréstimos. E neste movimento com certeza vai haver corte de orçamento nas políticas públicas voltadas para os trabalhadores.

JST – Como o MST pode contribuir em uma proposta de alternativa para a crise?
SS – O modelo do agronegócio não serve para os trabalhadores, pois é ambientalmente
insustentável e socialmente injusto. Nós temos um processo que pode se transformar numa alternativa, que ainda está em construção, mas tem elementos para avançar. Nós somos uma referência de luta, seja com críticas ou com adesões pelo conjunto da classe trabalhadora. A sociedade nos reconhece por conta dos nossos 25 anos de luta no campo. E vamos continuar fazendo luta e impulsionando os trabalhadores a se mobilizarem.

JST – E para onde o MST aponta?
SS – Nós estamos apontando para aquilo que não é muita novidade para nós. A impossibilidade da realização de uma Reforma Agrária massiva está colocada neste momento. Então, é hora da gente botar peso pra construir uma aliança com os trabalhadores, quer eles sejam organizados ou não. Mas não pode ser uma aliança artificial. Talvez seja difícil, num primeiro momento, estabelecer um projeto com o conjunto dos trabalhadores, mas é necessário dialogar, e
construir uma alternativa. Com os trabalhadores organizados pode ser mais difícil no sentido político, mas ao mesmo tempo você tem organizações representativas de cada categoria, para fazer lutas comuns. Este é um processo que precisa ser pensado com bastante cuidado, porque
também é um período em que a esquerda tem diferenças com relação aos projetos. E a crise pode possibilitar uma unidade nas lutas. Também temos que pensar com bastante carinho em construir alianças com os trabalhadores não organizados das periferias, dos bairros. Neste caso, o que a gente vem tentando resgatar no Movimento é o trabalho de base. Realmente temos que estabelecer diálogos e construir lutas.

Trabalhadores e trabalhadoras não pagarão pela crise!

O Brasil foi às ruas no dia 30 de março. Os trabalhadores e trabalhadoras do campo e da cidade estiveram unidos contra a crise e as demissões, por emprego e salário, pela manutenção e ampliação de direitos, pela redução dos juros e da jornada de trabalho sem redução de salários, pela Reforma Agrária e em defesa dos investimentos em políticas sociais. A crise da especulação e dos monopólios estourou no centro do sistema capitalista, os Estados Unidos, e atinge as economias menos desenvolvidas. Lá fora - e também no Brasil -, estão sendo torrados trilhões de dólares para cobrir o rombo das multinacionais, em um poço sem fim, mas o desemprego continua se alastrando, podendo atingir mais 50 milhões de pessoas.

No Brasil, a ação nefasta e oportunista das multinacionais do setor automotivo e de empresas como a Vale do Rio Doce, CSN e Embraer, levaram à demissão de mais de 800 mil trabalhadores nos últimos cinco meses. O povo não é o culpado pela crise. Ela é resultante de um sistema que entra em crise periodicamente e transformou o planeta em um imenso cassino financeiro, com regras
ditadas pelo “deus mercado”. Diante do fracasso desta lógica excludente, querem que a classe trabalhadora pague a fatura em forma de demissões, redução de salários e de direitos, injeção de recursos do BNDES nas empresas que estão demitindo e criminalização dos movimentos sociais. Basta! A precarização, o arrocho salarial e o desemprego enfraquecem o mercado interno, deixando o país vulnerável e à mercê da crise, prejudicando fundamentalmente os mais pobres; nas favelas e periferias, É preciso cortar drasticamente os juros, reduzir a jornada sem reduzir os salários, acelerar a reforma agrária, ampliar as políticas públicas em habitação, saneamento, ducação e saúde, e medidas concretas dos governos para impedir as demissões, garantir o emprego e a renda dos trabalhadores.

Manifestamos nosso apoio a todos os que sofreram demissões, em particular aos 4.270 funcionários da Embraer, ressaltando que estamos na luta pela readmissão. O dia 30 também é simbólico, pois nesta data se lembra a defesa da terra Palestina, a solidariedade contra a
política terrorista do Estado de Israel, pela soberania e auto-determinação dos povos. Com este espírito de unidade e luta, vamos construir em todo o país grandes mobilizações.

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