Com ocupação do Ministério da Fazenda e ações em 20 estados, Via Campesina consegue conquistas
Por Isabela Camini
Doutora em Educação pela UFRG
Nos últimos quatro anos tenho dedicado mais tempo para estudar a Escola Itinerante dos acampamentos do MST. Tenho acompanhado a trajetória histórica da educação deste Movimento desde sua origem, na década de 1980, quando surgiu a primeira e, em seguida, a segunda “Escola do Acampamento” na Encruzilhada Natalino e Fazenda Annoni, em Sarandi, Rio Grande do Sul.
As Escolas, seguidas de forma contínua em outros acampamentos dos Sem Terra, serviram de força e pressão para que a Secretaria da Educação e o Conselho Estadual assegurassem legalmente a vida escolar e a criação da Escola Itinerante no ano de 1996, no Estado do Rio Grande do Sul.
Desde então, os filhos das famíliasSem Terra têm o direito de ter escola e continuar estudando, mesmo quando o acampamento muda de lugar. Em minha pesquisa, com a finalidade de encontrar os gérmens capazes de apontar para uma escola “diferente” da escola usual, regular, identifiquei que a luta pela terra sempre se manteve colada à luta pela educação, mesmo que este direito já se
encontrasse formalmente garantido na Constituição Federal. Ou seja, para conquistar e assegurar a escola lá onde vive o povo, os trabalhadores sempre precisaram fazer mobilizações, lutas, e ocupações. Além disso, há necessidade de manteremse vigilantes para não perdê-la, tendo em
vista as consecutivas medidas de controle, fiscalização e ameaças do poder público.
Ao visitar dezenas de Escolas Itinerantes em seis estados brasileiros, (PR, SC, GO, AL, PI e RS) foi possível perceber que a comunidade Sem Terra nos acampamentos tem a Escola Itinerante como sua, orgulha-se dela e de sua pedagogia. É uma escola pública estadual, próxima de sua realidade,
que, no seu dia-a-dia, não se desvincula da vida dos sujeitos que estão acampados. Embora em condições físicas às vezes precárias, ela não se fecha pelas cercas ou grades. Uma outra escolaUma escola viva, alegre, séria e comprometida com a classe trabalhadora. Esta foi a realidade que encontrei nesse período de quase três anos de intenso trabalho de campo, tanto nos acampamentos, quanto nas marchas ou ocupações. No dia em que famílias foram despejadas pela Brigada Militar da Fazenda Guerra, em Coqueiros do Sul, em 2006, a Escola Itinerante Dandara do acampamento foi queimada. Nesse episódio, um educando, batizado por seus colegas pelo nome "Vida”, escreveu a seguinte frase: “aqui a vida tem um novo sentido” e a afixou acima da porta do
barraco da escola, ao lado do mastro que sustentava a bandeira do Movimento. Não tendo outro espaço e contando com poucos materiais para a sua reconstrução, a única sala de aula foi estruturada à beira de um córrego com água poluída que vinha do terreno localizado acima do
local do acampamento, próxima de algumas pequenas árvores. Segundo eles, esse foi o local possível encontrado para construir e fazer funcionar a escola.
Contam que “a outra escola, a mais bonita que haviam construído, toda de madeira, esta havia sido totalmente destruída, inclusive a merenda escolar foi jogada aos cães” durante o violento despejo.
Em relação aos conteúdos escolares, o que encontrei foi uma escola que leva para dentro de si aquilo que lhe é mais caro - o conhecimento da realidade. Uma realidade latente que, a partir do planejamento escolar, é transformada em temas geradores, conteúdos, currículo escolar. Aos educandos é assegurado o acesso a todo o conhecimento historicamente acumulado pela humanidade, desenvolvendo a capacidade individual e coletiva de construir novos conhecimentos.
E os educadores, também acampados, são pessoas simples, comprometidas e estudiosas. Junto com as crianças ajudam na construção dos barracos que abrigam a escola, ou quando não existem condições para tal, ministram as aulas à beira da estrada, à sombra de uma árvore, sem, contudo
descuidar da formação integral de seus educandos. As aulas são planejadas em conjunto e a escola é pensada no seu todo.
É por tudo isso que nos surpreende e causa indignação a decisão tomada pelo Ministério Público e a Secretaria da Educação do estado gaúcho ao retirar o direito das crianças, adolescentes, jovens
e adultos de estudar em Escolas Itinerantes dos acampamentos do MST, evitando deslocar-se para estudar na cidade. A nosso ver, a escola que interroga a realidade, conectada com a vida de seu
educandos não serve aos interesses daqueles que tomaram a decisão de ameaçar e arbitrariamente
retirá-la dos acampamentos. Parece-lhes mais conveniente, neste momento da história do Rio Grande do Sul, obrigar as crianças e adolescentes Sem Terra a estudar na cidade, transportados em ônibus escolares muitas vezes de qualidade duvidosa, investindo recursos financeiros muito acima do que eram gastos para manter as aulas nos acampamentos. Fechar as Escolas Itinerantes significa inviabilizar o direito destes educandos a freqüentarem a escola, sem interromperem o ano letivo, ou verem-se “reprovados” pelo sistema de avaliação classificatório e excludente, criado
e mantido no sistema escolar conservador e autoritário há séculos.
Surpreende-nos porque a decisão é tomada de forma autoritária exatamente por aqueles que deveriam ser responsáveis pelo direito à educação, pela inclusão social, pela cidadania, e dignidade de seu povo. Lamenta-se que experiência como está venha a ser interrompida neste momento histórico. Sua trajetória e história acumulada continuarão motivando a construção da Escola Itinerante no Brasil e no próprio Rio Grande do Sul, uma vez que o autoritarismo é transitório e a organização do povo reprimido pode retornar em outro contexto com mais força. As pesquisas e os aprendizados proporcionados pela Escola Itinerante ajudarão na construção de um novo tempo histórico.
