Com ocupação do Ministério da Fazenda e ações em 20 estados, Via Campesina consegue conquistas
Por Igor Felippe Santos
Uma delegação formada por 200 pessoas - entre militantes sociais, ambientalistas, intelectuais, defensores de direitos humanos e jornalistas nacionais e internacionais de mais de 30 países -, visitou projetos que demonstram a disputa entre as grandes empresas e os movimentos populares na Amazônia, no final de janeiro, no Fórum Social Carajás. A atividade foi organizada pelos movimentos sociais do Pará, como o MST e a Via Campesina, com apoio da Prefeitura de Parauapebas.
A primeira parada foi na mina explorada pela Vale, em Parauapebas, onde a empresa tira a maior parte das riquezas que garantem o lucro de R$ 20 bilhões ao ano. A visita intimidou a empresa, que tenta construir uma imagem positiva a nível internacional. Antes da atividade, a diretoria da Vale pressionou autoridades para impedir a visita. Depois, tentou impor um roteiro que limitasse a atividade. Por que a Vale quer esconder suas instalações?
A mina fica dentro da Floresta Nacional de Carajás, sob a responsabilidade do Instituto Chico Mendes. O órgão federal, que cumpre uma função pública, poderia autorizar a entrada da delegação, apesar das pressões de uma empresa que não está acostumada a ser contrariada. Com isso, a mineradora mudou de tática: em vez de impedir a visita, resolveu influenciar os integrantes da delegação. Tanto que despachou do Rio de Janeiro a chefia da sua assessoria de comunicação para o interior do Pará. Por que tanto medo?
Foi liberado apenas o acesso a uma das menores minas do Pólo Carajás. Mesmo assim, a visão é grandiosa: o buraco parecia resultado da queda de um asteróide. A “cratera” de onde a Vale tira as riquezas do povo brasileiro é tão grande que escavadeiras gigantes parecem formigas. O tamanho da mina evidencia o nível de exploração e ganância no seio da Amazônia.
Por conta da pressão da Vale, durante os três dias de viagem, os ônibus da delegação foram escoltados por soldados da Força de Segurança Nacional, que acompanharam todos os passos dos participantes, causando um constrangimento a personalidades reconhecidas internacionalmente.
Trilhos no assentamento
As atividades prosseguiram no dia seguinte com uma visita ao assentamento da Reforma Agrária Palmares II, cortado em 20 km pelos trilhos da Vale. Conquistado pelo Movimento em março de 1996, depois de dois anos de ocupação, o assentamento ocupa 15 mil hectares. As 517 famílias produzem arroz, milho, feijão, mandioca e farinha, frutas da região como cupuaçu, açaí e murici, além de banana. Na praça central da agrovila, há brinquedos para as crianças. Em frente à praça, está a escola, que atende 1,3 mil crianças e adolescentes de ensino fundamental e médio, que podem ler e estudar na biblioteca.
Foram famílias desse assentamento que pararam os trilhos da Vale para denunciar que os lucros da empresa implicavam na pobreza dos trabalhadores da região. A comitiva observou a passagem dos 3,9 km de comprimento de um dos 13 trens da mineradora. Cada um deles tem 330 vagões, que levam diariamente o minério de ferro extraído da serra dos Carajás, no sul do Pará, até o porto de São Luis, no Maranhão. De lá, é despachado para a China e Japão. Os trens podem transportar 270 mil toneladas de minério. Em 2008, passaram pelo assentamento 96,5 milhões de toneladas.
No assentamento, foi lançada a pedra fundamental da construção do Instituto de Agroecologia Latino-Americano (Iala), que pretende formar técnicos em agroecologia especializados no bioma amazônico, dentro da perspectiva do desenvolvimento de uma nova matriz de produção agrícola, baseada em técnicas que respeitem o ambiente.
Curva do S
A delegação visitou também um ponto que sintetiza a contradição entre modelos de desenvolvimento da Amazônia: a Curva do “S”, onde foram assassinados 19 trabalhadores rurais do MST em 17 de abril de 1996, no município de Eldorado de Carajás.
Na curva, onde estão as 19 castanheiras que simbolizam os lutadores que tombaram, aconteceu o lançamento do Bosque Internacional de Solidariedade, onde foram plantadas árvores nativas da região. Em seguida, a comitiva jantou no assentamento 17 de Abril, conquistado pelos sobreviventes do massacre.
No último dia, a delegação visitou a Usina Hidrelétrica de Tucuruí, distante cerca de 300 km ao sul de Belém. Na chegada, estavam a postos 200 soldados do batalhão do Exército brasileiro, com armas e três tanques de guerra. Um horizonte de águas e uma construção grandiosa, da maior hidrelétrica brasileira, são vizinhos de uma comunidade pobre, que vive em casas de sub-construção com instalações elétricas precárias.
O Fórum conseguiu apresentar alguns exemplos do quadro que ameaça a Amazônia, que não pode avançar sem o conhecimento e posicionamento da sociedade. De um lado, madeireiras, siderúrgicas, barragens e mineradoras, com suporte do Estado, que estão transformando a floresta em um espaço privado de exploração predatória para a acumulação do capital.
De outro, trabalhadores rurais, assentados, ribeirinhos, indígenas e movimentos sociais, que dependem da preservação da floresta para garantir seus meios de sobrevivência e cobram controle social sobre essas atividades. Esses são os protagonistas da disputa entre os projetos das grandes empresas e as experiências populares para o controle de um dos maiores patrimônios do nosso país, a Amazônia.
