Com ocupação do Ministério da Fazenda e ações em 20 estados, Via Campesina consegue conquistas
Por Vinicius Mansur
Entre os dias 27 de janeiro e 1° de fevereiro, o Brasil sediou mais um Fórum Social Mundial. A 9° edição do evento aconteceu em Belém (PA), e, de acordo com os organizadores, reuniu mais de 150 mil pessoas na capital. Entre elas, estavam cerca de 1,6 mil militantes dos movimentos que compõe a Via Campesina, todos concentrados no Núcleo Pedagógico Integrado (NPI). A militância, em sua maioria, veio do próprio Pará e dos estados mais próximos. A delegação internacional contava com 20 delegados.
De acordo com coordenador nacional do MST, Egídio Brunetto, em outras edições do Fórum, a Via Campesina deslocava muito mais gente para participar. Mas, a percepção de que a atividade vem abrindo mão de realizar grandes mobilizações de massa, fez com que a Via Campesina optasse por não colocar muita energia nesta edição.
Atividades
Entre as muitas discussões realizadas pelos movimentos camponeses, predominou o debate sobre o projeto do capital para a agricultura contra o projeto popular. Mas a relação da teologia da libertação com os movimentos sociais também ganhou destaque com a mesa que reuniu os teólogos Berger Furer, da Noruega, Frei Betto, do Brasil e Fernando Lugo, presidente do Paraguai.
O NPI também foi espaço de comemoração e homenagens. Durante a noite do dia 30, a Via Campesina brindou os seis anos do jornal Brasil de Fato com um ato político. Já na noite seguinte, foi a vez da militância homenagear os 50 anos da revolução cubana, em um ato que contou com a presença da médica e filha de Ernesto Che Guevara, Aleida Guevara.
O momento de encaminhar a luta política foi a Assembléia dos Movimentos Sociais. A plenária reuniu os movimentos de todo o mundo e definiu uma agenda para 2009.
O ponto forte da Via Campesina no Fórum Social Mundial foi a construção de um encontro entre os presidentes e os movimentos sociais latino-americanos que estão impulsionando a Alternativa Bolivariana para os Povos de Nossa América (Alba). O ginásio da Universidade Estadual do Pará (UEPA) ficou apertado para as mais de 1,5 mil pessoas que assistiram, inicialmente, as falas de Nalu Faria, da Marcha Mundial de Mulheres (MMM), Magdalena Leon, da Rede Latino-americana de Mulheres transformando a Economia (Remte), Camille Chalmers, do Jubileu Sul e Pablo Michelli, Central dos Trabalhadores Argentinos (CTA).
Depois falaram os presidentes do Equador, Rafael Correa, do Paraguai, Fernando Lugo, da Bolívia, Evo Morales e da Venezuela, Hugo Chávez. O dirigente do MST, João Pedro Stédile, encerrou o ato destacando a identidade existente entre os presentes e as propostas citadas durante o debate para o fortalecimento da Alba.
Segundo João Pedro, os setores que impulsionam a Alba precisam de um programa mínimo para enfrentar a crise econômica mundial. O primeiro ponto seria a recuperação da soberania dos povos sobre recursos naturais, como o petróleo e a energia. Ele disse também que “não devemos ter medo de começar a falar na nacionalização dos bancos” como forma do Estado controlar o capital financeiro e o fluxo de dinheiro para o exterior. A terceira medida seria a criação de uma moeda regional, capaz de reduzir a importância do dólar na região. Ao final, ele ainda pontuou a necessidade de se democratizar os meios de comunicação e avançar nos processos concretos de construção da Alba.
Balanço do Fórum
Praticamente todas as organizações que lutam por justiça social consideram o Fórum Social Mundial um importante espaço de articulação. Porém, os movimentos que compõe a Via Campesina acham que o Fórum Social Mundial precisa rever sua organização para promover novos avanços nas lutas sociais.
A integrante da União Nacional dos Camponeses de Moçambique (Unaic), Sheila Mandlhate, ressaltou que o Fórum é um belo espaço para, por exemplo, aumentar o contato de intelectuais e movimentos populares. Porém, ela criticou a metodologia do encontro, que provoca a dispersão da maior parte das pessoas que participam do evento.
Claude Girod , dirigente da Confederação de Camponeses da França, também elogiou a troca de experiências que o Fórum propicia, mas pontuou uma limitação. “Pessoas pobres não participam do Fórum. Se você sair daqui de dentro do NPI, onde está a Via Campesina, veremos só a classe média. Precisamos atrair estas pessoas”, concluiu.
Já a integrante da Associação Nacional de Pequenos Agricultores de Cuba, Maria del Carmen, lembrou que o atual quadro político na América Latina, aonde muitas lutas populares ganharam fôlego frente às ofensivas neoliberais e aonde muitos presidentes progressistas assumiram o poder, se deve muito a realização dos Fóruns Sociais. Entretanto, ela considera que a organização e a política dos fóruns não estão acompanhando essas transformações no ritmo devido. “O Fórum tem uma limitação em sua carta de fundação, que impede encaminhamentos. Afinal, para que estamos aqui? Se temos um mundo que está nos matando e queremos outro, o que faremos para concretizá-lo?”, indagou.
Na mesma linha, Egídio Brunetto, do MST, considerou um desperdício político reunir tanta gente e não colocá-las em marcha. “Com uma crise dessa, com a agressão que está acontecendo na Palestina, que é um genocídio cometido por Israel, com a invasão que continua no Iraque e no Afeganistão, com a situação do Haiti, do povo colombiano e o Fórum não consegue fazer nenhum tipo de protesto, não consegue fazer uma agenda? Então é um Fórum que, do ponto de vista da estratégia e da mudança de correlação forças, não contribui”, declarou.
AGENDA
Jornada mundial contra a crise e a guerra - de 28 de março a 04 de abril, sendo que aqui nas Américas centraríamos força na data de 30 de março.
8 de março - Dia internacional das mulheres trabalhadoras
17 de abril - Dia internacional da luta camponesa
1° de maio - Dia mundial do trabalhador
12 de outubro - Dia mundial da defesa da vida, da biodiversidade e dos povos originários.
