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No mesmo mês em que o MST completou 25 anos de luta pela Reforma Agrária no Brasil, o povo cubano comemorou meio século de resistência da Revolução Socialista. A médica Aleida Guevara, uma das filhas de Che, participou das comemorações de aniversário do Movimento durante o XIII Encontro Nacional, em Sarandi (RS). Em entrevista ao Jornal Sem Terra, Aleida falou sobre a importância da luta do MST, dos 50 anos da Revolução Cubana e das perspectivas para seu país, da necessidade da união entre os povos e da realização da Reforma Agrária no Brasil.
Para ela, o MST tem se convertido em um dos movimentos mais importantes da América Latina por mostrar que unindo forças é possível transformar a sociedade. Leia a entrevista.
Jornal Sem Terra - Para você, que vem de um processo revolucionário de 50 anos, como é participar da comemoração dos 25 anos do MST?
Aleida Guevara - Não acompanhei os 25 anos do MST, mas de quase 20 com certeza. A primeira vez que conheci algo do MST foi em São Paulo, quando um grupo de pessoas me falou de um documentário que havia visto na televisão sobre meu pai. Nesse dia discutimos muito, porque para mim o documentário era muito ruim! Alguns anos depois, o pessoal do MST começou a me mobilizar para falar de Che, da Revolução Cubana e pouco a pouco meu pai foi se tornando uma pessoa muito importante dentro do Movimento. Começaram a conhecê-lo melhor e a tê-lo como exemplo. Eu também fui conhecendo melhor o Movimento, vendo as dificuldades, os problemas enfrentados - e como combatente - onde quer que estivesse, não falava somente da Revolução Cubana, mas também do MST do Brasil. O Movimento foi crescendo, se tornando maior e ao mesmo tempo mais unido, mais forte, mais coerente. Há algum tempo, comecei a escrever um livro sobre o MST e comecei a fazer entrevistas com as pessoas mais simples do Movimento. Havia um camponês que me disse: “Quando eu entrei no MST, a única coisa que queria era um pedaço de terra para dar de comer aos meus filhos. Só isso. Agora não. Agora entendo que a terra não é propriedade de ninguém, que a terra é de todos, que é preciso fazê-la produzir para o bem de todos.” Aquele homem, que entrou no Movimento com uma ambição pessoal, hoje luta para mudar uma sociedade. Essa maturidade política dentro do MST nos dá esperança de que se pode fazer coisas muito lindas, mesmo sem ter os meios necessários. Eu entendo hoje o MST como um dos movimentos mais importantes da América Latina, talvez o mais importante, porque tem mostrado que unindo forças é possível mudar a sociedade.
JST - Em janeiro o MST completou 25 anos e a Revolução Cubana, 50. O que a revolução tem a ensinar ao MST?
AG - O MST não pensa apenas em seus integrantes, pensa em seu povo, em seu continente. E tem sido solidário com o Haiti, com outros países africanos. Já rompeu as fronteiras do Brasil. Isso é o mais importante porque começa a mostrar ao mundo que sim, é possível. Por isso, nos próximos anos, seria muito bom que o Movimento tivesse a oportunidade de fazer algo mais pelo povo brasileiro e de chegar mais até a população. Como fazer isso é com vocês, mas de alguma maneira tem que dar um passo a mais e caminhar em frente porque é necessário para nosso povo. A América Latina está passando por uma mudança muito importante, que começou com a Revolução Cubana e que vai se fazendo cada dia mais presente, não somente por uma questão ideológica, mas por necessidade. A primeira vez em que estive no Brasil foi para inaugurar um hospital que levaria o nome de meu pai em Santos, e fiquei muito impressionada com que vi. Crianças nas ruas, drogas, violência. Eu me perguntava: “Onde estou, o que é isto?”. Eu pensei que vivendo nisto as pessoas teriam que chegar a um limite e dizer: “ou morro de fome ou morro tentando mudar esta realidade”. Como fui criada e formada numa Revolução Socialista, sou médica, tenho certo nível cultural, sou ideologicamente comunista, imaginei que talvez fosse minha educação que me fizesse pensar assim. Mas uma das primeiras vezes que fui ao Rio Grande do Sul, pelo MST, há uns 10 anos, conheci uma senhora simples, chamada Rose [Roseli Nunes]. Uma mulher brasileira que não havia sido educada em Cuba, não era socialista, não tinha o melhor nível cultural, era uma camponesa sem formação acadêmica, mas que não somente havia dito o que eu pensava - que se poderia morrer para mudar esta sociedade – como o havia feito: morreu defendendo um pedaço de terra para alimentar seus filhos. Rose preferiu morrer tentando mudar a situação em que vivia a morrer de fome. Isso me mostrou que podemos viver em lugares diferentes e ter as mesmas necessidades. A Revolução Cubana só mostra que é possível fazer alguma coisa, e o MST vem buscando alternativas à sua própria realidade. E isso eu vejo no MST: mostrar que é possível e necessário mudar, porque não podemos seguir vivendo assim.
JST - O que representa para você a luta pela terra no Brasil, já que o próprio presidente Lula abandou a idéia de que é preciso fazer Reforma Agrária para mudar a sociedade brasileira?
AG - Sinto pelo Lula ter abandonado esse caminho, porque acredito que a única maneira de solucionar estes problemas na América Latina e no Brasil é por meio de uma Reforma Agrária profunda. É inadmissível que um país tão rico, com todas as terras e possibilidades de clima do Brasil, tenha uma só criança passando fome. Isso não é possível. A terra não pode ter dono, tem de ser de propriedade coletiva. Os que crêem em Deus, por exemplo, sabem que quem a criou foi um poder superior. Como podemos dar a uma transnacional européia um pedaço de terra enquanto o povo passa necessidade? Como podemos? Com que direito? Não há justificativa para isso. Depois que o povo determinar que suas necessidades estejam realmente satisfeitas, então pode ajudar outros, mas sem negociar a terra. Por isso, creio que só poderemos resolver nossos problemas quando for possível produzir nesta terra para todos. Portanto, a Reforma Agrária para mim é fundamental.
JST – Qual a opinião sobre a mudança do governo de Fidel para Raúl em Cuba?
AG - Fidel, Raúl, qualquer companheiro que o povo cubano elege, está fazendo com a segurança absoluta de que vai continuar o caminho. Estamos há muitos anos enfrentando um inimigo muito poderoso. Não podemos tropeçar ante o tempo, ante a vida. O mais lindo que Fidel fez foi formar homens e mulheres ao seu redor e criar as possibilidades para que seguissem lutando, pensando, atuando. Se sabemos amar – e eu estou certa de que meu povo sabe amar - é preciso que sigamos fazendo o que ele nos ensinou, o que ele começou. E aperfeiçoar, melhorando sempre. Aliás, não temos outra alternativa além de seguir em frente. Andar para trás é impossível, e mudar nossa sociedade também, porque é apenas na sociedade socialista que o povo cubano pode seguir se desenvolvendo.
JST - A vitória de Obama vai mudar alguma coisa?
AG – Oxalá pudesse ser assim. O presidente dos Estados Unidos é um personagem eleito sem grande poder, o poder realmente está no Senado. E se o Senado não muda, se o povo não muda a Constituição que tem hoje, é quase impossível provocar mudanças razoáveis. Cuba não está castigada por direitos humanos, nada disso. Cuba está sancionada porque mostra que pode viver de outra maneira. E o governo dos Estados Unidos não pode aceitar que exista um povo que lhe diga ‘não’, que mantenha o ‘não’ até as últimas conseqüências. Não pode aceitar que haja um povo que não aceite seu domínio, que não aceite ficar sob suas botas. Não. Então, por isso, tentam acabar com a Revolução Cubana. Enquanto o povo dos EUA não tomar consciência de seu poder, enquanto não usar esse poder em benefício da humanidade, não creio que haverá mudanças importantes nos EUA, por mais vontade de mudar que um presidente tenha.
JST – O que acha da guerra de Israel contra a Palestina?
AG - Estive há pouco tempo no Egito e falamos sobre a desunião do mundo árabe. E isso permite que Israel tenha esse tipo de ação, porque o mundo árabe ainda não decidiu lutar. O Líbano impôs uma derrota tremenda a Israel, mas o restante do mundo árabe não reagiu diante disso, esse era o momento. Os palestinos, desgraçadamente, estão muito divididos em várias facções. Com certeza, Israel aproveita essas coisas para penetrar no território e colocar em contraposição homens e mulheres de um mesmo povo. Isso é fatal para a Palestina e fatal para o mundo árabe. É necessário buscar de todas as formas uma unidade entre os povos e ver qual é inimigo comum. O povo árabe tem de usar seu poder para frear Israel. Mas se eles não se unem e não criam uma unidade, Israel vai seguir cometendo estas atrocidades, e o mais triste é que nós vamos seguir permitindo. Evo Morales, presidente da Bolívia, fez algo muito bom ao romper relações com Israel. Mesmo Cuba sendo um país bloqueado pelos Estados Unidos, rompeu relações com Israel em respeito ao povo palestino. Se Cuba pode fazer isso, por que outros países não podem? É preciso manter essa firmeza com relação a Israel para que se dêem conta de que não tem a possibilidade de pisar em um povo dessa forma. Temos que mostrar isso a eles, mas não o fazemos. Se não unirmos nossas forças não vão saber que há um poder que pode enfrentá-los. E esse mesmo povo israelita sofreu as mesmas coisas na Segunda Guerra mundial, quase desapareceu como povo, e hoje faz o mesmo que fizeram com eles. Eu sinto uma indignação muito grande!
JST – Como Cuba prepara sua juventude para a continuidade do processo revolucionário?
AG - Formamos homens e mulheres numa sociedade onde o fundamental é a solidariedade e o respeito a outros povos. Assim nos ensinam. Eu, por exemplo, conheci a Nicarágua. Mesmo que a Nicarágua tivesse problemas internos, eu, como cubana, não iria resolver os problemas internos do país. Temos que respeitá-los. Ir trabalhar um ano ou dois em outro país não dá o direito de intervir nos problemas internos, mas sim de contribuir sem ordenar. Assim me formaram, me eduquei, e assim se educam os jovens cubanos. Nossa juventude se educa desta maneira, com muitos critérios. No entanto, é uma juventude muito forte como todas as juventudes. Nossa juventude também tem carências, mas foi aprendendo que as coisas materiais não são as mais importantes. O contato de nossos jovens, muitos médicos formados que estão em várias partes do mundo, os ajuda a conhecer a realidade deste continente. Esse contato com a realidade da América Latina, África e Ásia faz com que os jovens cubanos tenham mais amadurecimento político e mais necessidade de defender o que têm.
JST - Como o governo Cubano trabalha a questão do consumo, considerando também o embargo dos EUA à Cuba?
AG - O presidente de Equador, Rafael Corrêa, dizia em Cuba há alguns dias que a sociedade socialista tenta competir com a capitalista na questão do consumo. Isso é louco, mas é verdade. A sociedade socialista tem que ensinar sua gente a viver de outra maneira, mostrar que é possível viver bem sem acabar com o mundo, com a natureza. Isso não é fácil porque Cuba está a 90 quilômetros dos Estados Unidos, que fazem uma grande propaganda. E mais, Cuba é o único país do mundo hoje que tem cinco emissoras de rádio de outro país, no seu próprio idioma. Existe um canal de TV que os EUA transmitem somente para Cuba. A propaganda é muito dura com relação à forma de vida. Por exemplo: as pessoas querem um carro, mas Cuba não é produtora de carro, não temos gasolina ou álcool para manter. Como não temos essa capacidade, fazemos um serviço social para que toda a sociedade tenha à sua disposição um meio de transporte coletivo, público. Assim resolvemos um problema social e acabamos com a contaminação, a poluição e todos os problemas que seriam provocados se cada pessoa tivesse um carro. As pessoas querem consumir, viver como vive o vizinho, o que é um erro. As pressões externas também são muitas, mas Cuba vai conseguindo segurá-las pouco a pouco com o apoio da América Latina.
