Com ocupação do Ministério da Fazenda e ações em 20 estados, Via Campesina consegue conquistas
Aos companheiros e companheiras Sem Terra.
De Pedro Casaldáliga - Bispo emérito da Prelazia de São Félix do Araguaia.
Vocês e todos nós (que somos muitos) estamos celebrando os 25 anos do MST. Um jubileu de utopia e de realismo, de sangue e de poesia, de pranto e de canto, de presença internacional e de modesta anônima presença cotidiana, na beira de uma estrada, debaixo de umas lonas, em caminhada para a Brasília capital e em participação em muitos gestos diversificados do movimento popular. O MST, esse "sem" da terra é muitos "sem" - sem teto, sem emprego, sem saúde, sem educação -, e com a dignidade humana oficialmente proibida e com a teimosa reivindicação.
Muitos analistas do Brasil e do exterior têm reconhecido o MST como o mais expressivo movimento popular nestas últimas décadas.
Vocês, Sem Terra, têm feito questão de somar energias populares e reivindicações concretas. O MST não é um partido, mesmo tendo ideologia e preferências, precisamente para poder abranger mais povo. O MST é politicamente e socialmente ecumênico. Pratica alianças, se faz parceiro, assume fraternalmente sonhos e riscos com muitos setores do povo pobre, mas militante. Sempre mantendo uma clara postura, política e social, sempre na procura de um socialismo novo, como nos recorda este ano a Agenda Latinoamericana Mundial. Que a gente quer que seja "Agenda" mesmo, ou seja, aquilo que se deve fazer, aquilo que se faz cada dia.
O MST se transformou num braço poderoso (o esquerdo deve de ser...) dentro da grande coalisão continental e mundial da Via Campesina. Desde a primeira hora, naquelas turbulências e resistências das Rondas Altas, o MST vem sendo apaixonadamente latino-americano e as grandes figuras libertárias da Nossa América são patronos e mestres inspiradores.
O MST é ecumênico também em religião, e não faz da religião uma bandeira de conquista, mas, desde aquelas cinco da tarde da mesma Ronda Alta, a religião alenta e conforta os âmbitos mais íntimos dos corações MST. E é bom que assim seja. O verdadeiro Deus só pode ser o Deus da Vida, o Deus da Terra, o Deus da Fraternidade Universal.
Comentários lúcidos e frequentes condecorações vêm destacando a integralidade na luta do MST, que quer aquela terra que é mais que terra, Reforma Agrária com reforma agrícola, com educação, com saúde, com arte. Também se reconhece, merecidamente, a capacidade de congregar com disciplina e com ternura simultaneamente, pessoas, adultas e crianças, vindas de tantas origens diversas.
O nosso MST tem também os seus pecados e tentações. Não pode ser nunca autoritário, não pode desprezar nunca experiências ou agremiações "parentes", como diriam os nossos indígenas. E falando em indígenas ou em quilombolas, o MST deve ajudar positivamente a esses dois grandes núcleos secularmente excluídos: os povos indígenas e o povo quilombola.
São 25 anos de MST. Tem ainda muito caminho pela frente (até o dia em que o MST não seja mais necessário).
Ser um "Sem" não é um capricho morboso, é a imposição fratricida de poderes e privilégios, nacionais e multinacionais, que proíbem a vida das grandes maiorias. Por isso mesmo, o MST deverá continuar sendo sempre um grito profético, uma marcha de bandeiras e corações libertadores, uma contestação inclaudicável ao capitalismo - agora neoliberal -, ao latifúndio - agora agronegócio -, e à minimização do trabalho, ainda com frequência trabalho escravo.
Sigam. Seguiremos. Unidos nessa radical condição de seres humanos, com DNA divino; com a missão libertadora de ir humanizando sempre mais a própria Humanidade. Com uma coerência a toda prova frente a tantas corrupções e claudicações. Com a invencível esperança de ver esse Outro Mundo Possível, arrancando do toque de uma enxada, da brincadeira de um Sem Terrinha e do testemunho radical de todos os nossos mártires da caminhada.
Recebam todos e todas um beijo no coração e um abraço indissolúvel deste velho companheiro de utopia.
Pedro Casaldáliga
