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Com ocupação do Ministério da Fazenda e ações em 20 estados, Via Campesina consegue conquistas

Início » Jornal Sem Terra » Edição Especial 25 anos

Um novo momento

Por Joana Tavares
Setor de Comunicação do MST

Nesses 25 anos de história, lutamos contra o latifúndio e enfrentamos também o agronegócio. Nascemos em um período de ascenso e resistimos ao deserto do descenso da luta de massas, provocado pelo neoliberalismo. Segundo João Pedro Stedile, em entrevista para o Jornal
Sem Terra, 2009 pode ser um ano de maior efervescência da luta social, no campo e nas cidades. E a Reforma Agrária Popular pode ser recolocada na pauta política da sociedade. Confira abaixo trechos da conversa com o dirigente, que traça um panorama do contexto que nos trouxe até aqui, e os desafios para o próximo período.

Do latifúndio ao agronegócio
João Pedro Stedile – As mudanças dos inimigos da Reforma Agrária fazem parte da evolução do capitalismo. No início do Movimento, o inimigo principal era o latifúndio, porque concentrava terra e porque havia uma possibilidade real de ser feita uma Reforma Agrária nos moldes clássicos, em que a distribuição de terra é combinada com a indústria. E este modelo era de interesse de uma burguesia industrial. Quando o modelo do capitalismo industrial entrou em crise na década de 80, na seguinte década, a classe dominante brasileira evoluiu para um capitalismo internacionalizado,
dominado pelo capital financeiro. Essa nova etapa do capitalismo chegou na agricultura, durante os últimos seis anos, com essa nova forma de dominação por meio das empresas transnacionais. Elas
passam a controlar o modo de produzir: insumos, adubos, fertilizantes, venenos, máquinas, o comércio agrícola e os preços. E elas fazem uma grande aliança desse novo capitalismo com os fazendeiros capitalistas, para inclusive se apoderarem do latifúndio atrasado e incorporarem
as áreas de latifúndio a esse modelo. Esse modelo, aplicado à agricultura, é que se chama agronegócio. Com essa mutação, a luta pela Reforma Agrária passou a incorporar novos inimigos.
Ela não só continua enfrentando o latifúndio, mas agora também as empresas transnacionais, o capital financeiro por trás delas, e o modelo do agronegócio. Antes era mais fácil, havia a ocupação
do latifúndio e a gente enfrentava o fazendeiro. Agora não. Agora, mesmo quando a gente ocupa uma fazenda, em geral, por trás do fazendeiro tem uma grande empresa, tem o Estado brasileiro,
que o protege, colocando em primeiro lugar não a eliminação da pobreza e da desigualdade, mas a produção.

Conluio com a mídia
JP – Agora, os inimigos da Reforma Agrária têm muito mais influência e parceria com os meios de comunicação. Antes esses meios podiam não se interessar muito pelos latifundiários, mas eles têm interesses vinculados com as grandes empresas. Há um conluio de classe mais complexo. Às vezes, o mesmo banco tem articulações com a Globo e também com a Monsanto. A imprensa nos
últimos dez anos começou a tratar o MST como um inimigo de classe. Antes, a imprensa tinha raiva das nossas lutas, mas nos suportavam, agora não. E essa é uma dificuldade, porque eles
disputam a sociedade conosco. E como eles são um monopólio, significa que vão ter mais influência sobre a sociedade contra a Reforma Agrária.

Derrotar o neoliberalismo
JP – Como tudo é dialético e tem contradições, o lado bom dessa maior complexidade da luta é que agora a Reforma Agrária só tem viabilidade se nós derrotarmos o neoliberalismo. E para isso
vamos ter que criar uma grande aliança dentro da classe trabalhadora. Significa que os camponeses vão ter que necessariamente se aliar com outros setores da classe, com os trabalhadores da cidade,
para realizar a Reforma Agrária. Se antes o camponês tinha ódio do latifundiário, e muitas vezes um ódio pessoal, agora ele tem que desenvolver consciência de classe. Ele tem que compreender que o inimigo agora é o sistema, a Monsanto, a Nestlé, inimigos que a gente não conhece tão bem.
E o nosso Movimento e as demais organizações que fazem a mediação daluta de classes, têm que se preparar melhor. Uma coisa é trabalho de base para ocupar o latifúndio. Outra é explicar porque temos que ocupar uma área da Syngenta, por exemplo, que é uma empresa suíça que domina sementes transgênicas. Temos que debater o que é uma semente transgênica, porque o preço do leite é controlado pela Nestlé, Parmalat, Danone, etc.

Crise no Brasil
JP – A crise que se instalou no centro do capitalismo e que está vindo para a periferia, provavelmente vai se agudizar em 2009 aqui no Brasil. Em janeiro, já caíram os índices de produção da indústria, aumentou o desemprego, a inadimplência dos consumidores. A crise tem um papel
importante: ela é um estimulador da luta de classes. Porque na crise todo mundo pode perder, e alguns podem ganhar. É na crise que as classes tendem a se reposicionar para defender mais claramente seus interesses. Nos momentos de crise há uma readequação da burguesia, da classe
trabalhadora, dos camponeses. Acredito que 2009 será um ano muito importante para produzir uma efervescência da luta social. Para que os camponeses se mobilizem, e, sobretudo, para que haja
uma retomada da luta social nas cidades, que esteve anestesiada pelo refluxo do movimento de massas nos últimos 15 anos do neoliberalismo. E se houver esse reascenso, será um momento propício para fazer alianças e construir pautas comuns.

Reforma Agrária Popular
JP – Nós vamos seguir com nossa obrigação: ocupar terra, lutar por crédito, casas. Mas, como provavelmente vai haver luta social nas cidades, certamente vai ser criado um clima para que o MST
participe de outras mobilizações com o tema extra-reforma agrária. Mesmo que essas lutas não representem imediatamente mais desapropriações de terra, mas em médio prazo vão representar a derrota do neoliberalismo e vão abrir uma brecha política para que a Reforma Agrária seja
recolocada na pauta de disputa política da sociedade brasileira. Porque agora a Reforma Agrária foi derrotada pelo neoliberalismo. Por isso nossa luta tem sido tão difícil nesses últimos dez anos.
Mas com a crise e com a retomada das lutas, a Reforma Agrária será recolocada como uma das reformas necessárias para sair da crise e trazer mudanças estruturais para o povo brasileiro. A nova Reforma Agrária vai estar vinculada com mudanças do modelo econômico capitalista. Que
ainda não será o socialismo, mas será um modelo mais popular, com distribuição de renda e soberania nacional. Isso abre brechas para uma Reforma Agrária Popular, que combine desapropriações massivas de terra, com instalação de agroindústrias cooperativadas, uma nova política agrícola, em que o Estado garanta a compra de todos os produtos dos agricultores
por um preço justo, um novo modelo de produção baseado na agroecologia, combinado
com a democratização da educação. A Reforma Agrária Popular também deve criar condições para que todos os jovens tenham acesso à universidade.

Relação com o PT
JP – A luta de classes em qualquer país e no Brasil ocorre por ciclos históricos. Cada ciclo de ascenso do movimento de massas gera formas específicas de luta, instrumentos apropriados de organizações da classe, e seus líderes. O MST é fruto do ciclo de reascenso de 78 a 89. Aquele período levou a que o povo brasileiro construísse e reconstruísse várias formas de luta. A ocupação de terra é fruto desse ciclo, os dirigentes do MST são fruto desse ciclo, a CUT é fruto desse ciclo, o PT é fruto desse ciclo. Nós nascemos juntos, como instrumentos parceiros de um mesmo projeto. Cada um na sua trincheira, mas todos se ajudando. Esse ciclo terminou na década de 1990, com o descenso do movimento de massas. Quando vier um novo reascenso no movimento de massas – espero que seja logo – serão criadas novas formas de luta, novos instrumentos e novos líderes. Somos fruto de reascenso passado, e resistimos em um período de descenso. Poderíamos ter desaparecido como referência para o povo, como muitas organizações desapareceram. Oxalá o MST consiga sobreviver
ao próximo reascenso.

Relação com Estado
JP – Um dos acertos que o MST aplicou desde o início foi manter a autonomia. Não porque nós fomos mais sábios, mas porque aprendemos com experiências do passado que a saúde política de qualquer movimento de massas é que ele tem que ser autônomo do Estado, governos, igrejas e inclusive de partidos políticos. Já tivemos movimentos camponeses ligados a essas quatro áreas da sociedade. Nós aprendemos que se quisermos ter uma vida saudável e longa, precisamos ter autonomia. E aplicamos isso a rigor. Claro que o MST em alguns estados às vezes não consegue manter a autonomia e paga caro. A tendência é ser destruído, definhar, não crescer ou se desviar. Quem não obedece a regra – e para isso não precisa fazer reunião de direção – a realidade política
impõe a pena. Se em um estado o MST virasse puxa-saco de governo, acabaria o governo, acabaria também o Movimento. Isso aconteceu com o Master na década de 60, no Rio Grande do Sul.

Governo Lula
JP - Acho que nós conseguimos manter a nível nacional essa autonomia em relação ao governo Lula. O que mudou é que nós estávamos acostumados a ter governos de direita, como na época da ditadura, de centro-direita, como na época de Sarney e do Itamar, e agora nós temos um
governo de centro, onde tem gente de direita e gente de esquerda. Então a natureza do governo Lula também é diferente. Muitos companheiros – principalmente na nossa base – gostariam de estar
mais próximos do governo, para conquistar mais benefícios. E há outros companheiros que, por esse não ser um governo de esquerda, acham que deveríamos ter distância. Os dois estão certos, mas esse não é o centro da questão. O centro é que nós mantivemos nossa autonomia em relação ao governo. Governo Lula é uma coisa, nós somos outra. Nós continuamos lutando, tanto é que a direita nos bate dia e noite. Porque ela sabe que nós somos autônomos, sabe que o governo Lula não controla o MST. Isso não quer dizer que o MST fica torcendo para ter um governo ruim. Pelo contrário. A gente quer ter um governo de esquerda. Nossas críticas ao governo Lula se dão quando ele se afasta da esquerda. Quando ele toma medidas boas para a classe trabalhadora,
a gente aplaude, sempre mantendo nossa autonomia. Olhando para 2010 a gente espera que o próximo governo seja mais à esquerda que o governo Lula.

Caráter da organização
JP – O debate no MST é o seguinte: somos um movimento de massas e temos que ter massa para fazer luta social. Mas a complexidade da luta de classes exige que a gente tenha uma organização, uma organicidade de militantes que constrói setores bem organizados. Porque só na etapa do movimento de massas um movimento não ultrapassa o deserto do descenso, correndo o risco de ser destruído. É na organização de massas que se preza pela ideologia, pela doutrina, que se monta o esqueleto das massas. A organização de massas é a estrutura óssea que mantém o organismo de pé. As mudanças sociais no país dependem de um arco muito plural de formas de organização do povo, desde pastorais da igreja até partidos revolucionários clandestinos. Na luta por transformações, há espaços e necessidade de se desenvolver todas as formas de organização
possível. É besteira conjecturar se o MST será um movimento de massas ou organização política. No reascenso vamos precisar de todas essas formas. É besteira disputar qual delas é ou será mais importante. O mais importante é ter um projeto de sociedade. O grande desafio da esquerda e do povo brasileiro é criar um projeto de transformação. Para não cair no simplismo de que basta criar uma nova organização, uma nova sigla e pronto, estão resolvidos os problemas revolucionários.
Os instrumentos são para construir um projeto. O importante é a gente trabalhar no sentido da unidade, nossa motivação justa deve ser para construir a unidade para garantir as mudanças necessárias.

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