Com ocupação do Ministério da Fazenda e ações em 20 estados, Via Campesina consegue conquistas
No início da década de 60, a Fazenda Sarandi foi desapropriada pelo governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola, numa ousada proposta de Reforma Agrária, impulsionada pela organização do MASTER – Movimento de Agricultores Sem Terras. Era um período de ascenso da luta de massas, no campo e na cidade, em torno das mudanças estruturais necessárias para o nosso país, as reformas de base. Porém, a organização e a mobilização popular foi violentamente reprimida pelo golpe militar de 1964. As propostas de Reforma Agrária foram suprimidas e o governo militar criou programas de colonização, para avançar a expansão da monocultura para exportação para o norte e se livrar dos camponeses.
Quinze anos depois do golpe, a roda da história voltou a girar no campo. As glebas Macali e Brilhante, que faziam parte do Complexo da Fazenda Sarandi, foram ocupadas numa noite de sete de setembro, retomando a luta pela terra no país. Em 1981, mais famílias sem-terra iniciaram um acampamento na estrada em frente à Macali e Brilhante, era a Encruzilhada Natalino. Nestes acampamentos estava a gênese para a formação de nosso Movimento. Ali se gestava o Movimento Sem Terra. Um novo período de ascenso da luta de massas ocorria em todo Brasil, com a organização dos trabalhadores rurais e urbanos. Já organizados como MST, realizamos a maior ocupação do nosso Movimento naquela época, em outra parte da Fazenda Sarandi: a fazenda Anonni - que se tornou um dos símbolos da luta por Reforma Agrária durante a “Nova República”.
Vinte e cinco anos depois da fundação de nosso Movimento, nos encontramos agora para comemorar um quarto de século de lutas e conquistas. E marcamos este encontro justamente na Fazenda Anonni. Ali, dois períodos históricos de ascenso das lutas de massas se encontram. Ali, convergem os símbolos e história do movimento camponês no Brasil. Voltamos para beber na fonte, como dizem os antigos.
Marcamos este encontro com a herança do movimento camponês, mas também com nossa própria história. Para celebrarmos, mas também lembrarmos dos companheiros e companheiras que não puderam seguir este caminho conosco até aqui. Como Roseli Nunes, símbolo das marchas dos acampados na Anonni; como Teixeirinha, Fusquinha e Doutor; como os mártires de Eldorado de Carajás e de Felisburgo; Antônio Tavares e centenas de trabalhadores Sem Terra assassinados pela violência do latifúndio.
Se estivessem conosco, estariam orgulhosos em saber que nosso Movimento não apenas sobreviveu nestes 25 anos - um feito inédito para um movimento camponês no Brasil -, como estabelecemos uma nova concepção de Reforma Agrária. Muito mais ampla do que apenas democratizar o acesso a terra e extinguir o latifúndio. Nossa luta construiu na prática a democratização do acesso à educação, a saúde, a comunicação e a própria efetivação da democracia.
O Movimento Sem Terra que construímos é responsável pelo assentamento de 370 mil famílias em todo o país. Mas também é sujeito de muitas realizações como 2 mil escolas públicas em acampamentos e assentamentos que garantem o acesso à educação à mais de 160 mil crianças e adolescentes Sem Terras ou que alfabetizaram 50 mil adultos e jovens nos últimos anos. Ou ainda, nos mais de 100 cursos de graduação em parceria com universidades por todo o Brasil.
Mas, talvez, nossa principal contribuição para a sociedade brasileira esteja em cumprir nosso compromisso em produzir alimentos para o povo brasileiro. Fruto da organização de mais de 400 associações e cooperativas que trabalham de forma coletiva para produzir alimentos sem transgênicos e sem agrotóxicos. E ainda das 96 agroindústrias que melhoram a renda e as condições do trabalho no campo, mas também oferecem alimentos de qualidade e baixo preço na cidade.
Assim, temos um encontro marcado com a História, mas não apenas com o que já realizamos. Que este Encontro - com o que herdamos de dois períodos distintos do ascenso de massas - nos motive. E que possamos, com a unidade com os trabalhadores urbanos, explorando as contradições sociais da atual crise econômica e em torno das medidas estruturais necessárias para nosso país, iniciar um novo e vigoroso ciclo de lutas de massas.
