Com ocupação do Ministério da Fazenda e ações em 20 estados, Via Campesina consegue conquistas
Por Pedro Suarez
MST/SP
“Soberania Alimentar, Já! Com a Luta e Unidade dos Povos!”. Foi sob este lema que entre os dias 19 e 22 de outubro foi realizada a V Conferência Internacional da Via Campesina, em Moçambique, África. O país foi escolhido para sediar a atividade, porque permite que as organizações campesinas no continente africano – que conta com sete novos países membros da Via Campesina – sejam fortalecidas. A África atualmente enfrenta um momento de entrada mais forte do capitalismo no campo, com a tentativa da implantação da Revolução Verde, aplicada no Brasil já nos anos 60 e 70.
A Conferência ocorreu em Matola, cidade vizinha a Maputo, capital de Moçambique, na escola do Partido Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo). Ismael Ossumani, um dos fundadores da União Nacional de Camponeses de Moçambique (Unac) - anfitriã da Conferência -, nos contou um pouco sobre o processo revolucionário de independência do país. Quando os portugueses, em 1974, fizeram uma proposta de referendo para consultar a população se queriam permanecer, ou não, uma colônia, Samora Michel - uma das principais referências do processo revolucionário - contestou: “Não se pergunta a um escravo se ele quer ser livre”.
Hoje, o mesmo partido que lutou pela independência e aplicou uma linha mais socialista, está realizando um processo de abertura neoliberal. O atual presidente, Armando Emílio Guebuza, esteve na abertura da Conferência e falou sobre como estão fazendo para transformar a agricultura local em comercial...
Debates
Durante os debates vimos como a crise está presente nos diferentes cantos do mundo e reafirmamos nossas linhas políticas de luta contra as políticas do Banco Mundial, a OMC, os Tratados de Livre Comércio (TLCs) e os acordos de Associação Econômica com a União Européia (EPAs). Também reforçamos nossa luta contra as transnacionais, que estão no mundo todo. Frente à crise dos alimentos levamos a bandeira da Soberania Alimentar como projeto para a sociedade. Os alimentos não devem ser negociados nas bolsas de valores, têm que servir para alimentar a população e ser produzidos pelos camponeses. Precisamos construir alternativas ao livre comércio do capital, buscando uma “outra integração” dos povos.
Ao conversar com pessoas da Índia, Turquia, Palestina, Tailândia e vários outros países, construímos intercâmbios de formação e luta. Conversamos sobre a construção de Escolas de Formação em diferentes regiões; inclusive como a que está sendo construída em Moçambique.
Realizamos o plantio de um Bosque Internacional da Solidariedade em um assentamento da Unac, e vimos um pouco da realidade pobre do campo, as habitações precárias e pouca estrutura das comunidades. Mas ao ver as plantações, muita semelhança com o que plantamos aqui nos assentamentos do Brasil: milho, feijão, mandioca, banana
Impressões
Chegando ao país, o primeiro choque é a grandiosidade do Aeroporto de Johanesburgo - que foi totalmente reformado para receber a Copa de 2010. Indo pelo solo na África do Sul, vemos uma paisagem de grandes campos e monocultivo, principalmente de soja. Em Moçambique, uma realidade bem pobre. Na capital, Maputo, barracos precários se espalham pelas terras estatais, dividindo espaço com algumas indústrias e pouca infra-estrutura básica, como água, esgoto e asfalto. No centro vende-se de tudo em todas as calçadas. Propagandas da modernidade se espalham, principalmente de celulares. Ao passar ao lado do que foi um dia o Museu da Revolução, vemos uma grande Igreja Universal do Reino de Deus, que tem forte influência lá atualmente. Não por acaso, a novela mais assistida no país é “Mutantes”, da Record – emissora do bispo da Universal Edir Macedo.
Antes mesmo de a Conferência ter início, outras atividades também ocorreram. Nos dias 16 e 17 aconteceu a II Assembléia Mundial de Jovens da Via Campesina - com cerca de cem jovens de cinqüenta e um países – e nos dias 17 e 18 foi realizada a III Assembléia Mundial das Mulheres da Via Campesina.
Outras atividades
Na atividade da juventude, debatemos sobre a realidade de nossas regiões e a questão da migração dos jovens do campo para os centros – seja para o centro do capital - Europa e Estados Unidos – como também para os centros urbanos. É nosso desafio levar o modelo da Soberania Alimentar para toda a sociedade, entendendo melhor a relação campo cidade.
Foi durante a Assembléia de Mulheres que se elaborou melhor a Campanha Mundial Pelo Fim da Violência Contra as Mulheres, lançada depois durante a Conferência. A campanha busca denunciar e combater a violência contra as mulheres, que se expressa de diferentes formas, não só no campo, mas em toda a sociedade.
Durante o período em Moçambique vivemos momentos muito bonitos de confraternização e integração dos povos, conhecendo gente do mundo todo e nos identificando em lutas iguais e distantes. Diferentes culturas, costumes, o colorido do mundo todo. Vimos o descompasso que é a realidade das diferentes partes do mundo. O capitalismo está no mundo todo, em alguns locais chegando mais forte há pouco, e em outros, já velho, tentando se renovar a todo o momento. Isso se reflete no nível de organização e na característica dos movimentos sociais, levando em conta que alguns países têm a maior parte da sua população no campo, e outros têm muito pouca. Entender uns aos outros é um dos grandes desafios, e sem isso, fica cada vez mais difícil o aprofundamento dos debates e das articulações. Mas nos entendemos, e seguimos dando passos em nossa luta, juntos.
A magia africana
A mística africana esteve muito presente durante toda a Conferência. Logo no início o som dos tambores veio acolher a atividade. Outro momento de mística muito forte foi a homenagem ao companheiro Lee, que em 10 de setembro de 2003 se matou em protesto à 5ª Reunião Ministerial da Organização Mundial do Comércio (OMC), com um cartaz que dizia: “A OMC mata os agricultores. As mulheres negras estavam sempre cantando bonitas canções de luta – aliás, cantavam por toda a Conferência... Sempre com roupas muito coloridas.
