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Por Cássia Bechara
O Pará é um estado que marcou a história do Movimento e da luta da classe trabalhadora contra a opressão da elite dominante. Terra da Cabanagem, que segundo o historiador Caio Prado Júnior "foi o mais notável movimento popular do Brasil... A primeira insurreição popular que passou da simples agitação para uma tomada efetiva de poder".
O estado foi palco de um dos maiores massacres da história recente da luta pela terra no Brasil: o Massacre de Eldorado dos Carajás. Hoje, os camponeses, índios, mestiços e mineradores da região travam uma das principais lutas contra o domínio e a exploração das empresas transnacionais no país: a Vale.
Foi nesse clima de luta política e riqueza cultural que trabalhadores Sem Terra, intelectuais e artistas se reuniram em Belém (PA), na Semana de Cultura Brasileira e Reforma Agrária, para discutir o papel da arte, da cultura e da comunicação como instrumento de transformação social.
A Semana, realizada entre os dias 10 e 16 de novembro, uniu debate e reflexão com apresentações culturais, exibição de filmes no Cinema na Terra e oficinas que exercitaram na prática a potencialização da cultura como processo pedagógico.
Política, comunicação e cultura
“Não existe fronteira entre a luta política, a comunicação e a cultura, já que toda a comunicação e cultura é uma opção política e está a serviço de um projeto político. Por isso, a construção de um projeto popular implica necessariamente na construção de uma nova comunicação e de uma nova cultura”, afirmou Miguel Stedile, da coordenação nacional do MST, no segundo dia de debates.
A socialização dos meios de produção cultural e o debate sobre o que é e como produzir uma cultura revolucionária e uma comunicação contra-hegemônica foram um dos centros das discussões da Semana de Cultura. Nas palavras do professor Francisco Alambert, da Universidade de São Paulo (USP), produzir esta nova cultura e comunicação é o desafio de “tirar séculos de ideologia que nos foram inculcados pela indústria cultural”.
Esse não é um debate novo para o MST. Ele vem sendo travado há alguns anos pelos coletivos de cultura e de comunicação do Movimento. Para Rafael Villas-Bôas, do coletivo nacional de cultura, nessa caminhada o MST já entendeu que não basta ter acesso à produção cultural e à comunicação. “Nós aprendemos a criticar a indústria cultural, mas também estamos aprendendo a tomar providências contra ela, no sentido de criar um poder contra-hegemônico”.
O mesmo espaço
Criar uma outra cultura significa também romper cercas. As cercas que nos colocam apenas como espectadores de uma cultura produzida por outros e criadas pelo personalismo e pela lógica do espetáculo da indústria cultural.
Na Semana de Cultura do MST essas cercas também foram rompidas. Artistas profissionais e nomes conhecidos dividiram o palco, o canto, o microfone e a poesia com artistas anônimos, trabalhadores do campo e da cidade que fazem da arte e da cultura mais um instrumento na sua luta cotidiana contra as injustiças e a opressão.
Os palcos da Semana de Cultura eram livres para a poesia, a música, o teatro e a dança. Neles, as cercas entre “profissional” e “amador”, “artista” e “militante” foram rompidas. A arte era política e a política era arte. Nesses oito dias, demos mais alguns passos em direção à construção de uma cultura verdadeiramente revolucionária e que esteja a serviço da classe trabalhadora.
