Grandes transformações no campo abrem a perspectiva do MST se reposicionar na luta de classes
Por Vinícius Mansur
A transnacional Monsanto aumentou em quase 17% o valor da taxa a ser cobrada aos agricultores que plantarem suas sementes transgênicas Round Up Ready no Brasil, na safra 2008/2009. De acordo com a empresa, “após dois anos de congelamento”, as taxas – chamadas de royalties - subiram de R$ 0,30 para R$ 0,35 por quilo na compra da semente geneticamente modificada. Aqueles produtores que já adquiriram as sementes em safras anteriores; e na atual plantação utilizam as sementes transgênicas multiplicadas por eles mesmos, terão que pagar uma taxa de 2% sobre o valor da saca de grão vendida.
De acordo com as estimativas do assessor técnico da Assessoria e Serviços a Projetos em Agricultura Alternativa (ASPTA), Gabriel Fernandes, com estas mudanças, a cobrança de royalties e a venda de sementes devem render à Monsanto uma arrecadação, só no Rio Grande do Sul, de quase R$ 110 milhões de reais. Segundo Fernandes, os agricultores devem ficar atentos a este episódio para compreender como o desenvolvimento dos transgênicos não será benéfico, e assim, não serem iludidos por falsas propagandas.
O agrônomo explica que quando a transgenia da soja ainda não era autorizada no Brasil, a Monsanto fez vista grossa a toda entrada ilegal dos grãos geneticamente modificados - principalmente pelo Rio Grande do Sul - mas não controlou a multiplicação das sementes, nem o comércio.
“Com a expansão do plantio, mesmo que ilegal, a Monsanto, para garantir mercado, chegou a cortar pela metade o custo do herbicida Round Up - que é o glifosato usado junto com a soja transgênica. Depois que o produto deles já tinha tomado quase todo Rio Grande do Sul e subia para outros estados, veio a liberação da soja transgênica pelo governo federal e eles começaram a cobrar uma taxa dos agricultores que haviam usado as sementes”, afirma Gabriel.
A lógica insustentável dos transgênicos
O assessor técnico da ASPTA adverte que os transgênicos significam a apropriação, por parte de poucas empresas, de um bem natural e que até então não possuía donos: as sementes. Através do controle de uma tecnologia, as empresas modificam a genética dos grãos naturais e passam a ser proprietárias dessa espécie quando a registram por meio de patentes.
Para Gabriel, assim como qualquer outro empreendimento, o grande objetivo de uma empresa que desenvolve transgênicos é expandir seus lucros. E como pouquíssimas empresas são donas exclusivas dos transgênicos, elas aumentam o preço das taxas para lucrar mais.
São os gastos com estas taxas, somados aos outros gastos impostos pelo modelo de agricultura convencional, que fazem o integrante do setor de produção do MST e também pesquisador do curso de doutorado em desenvolvimento sustentável da Universidade de Brasília (UnB), Pedro Christoffoli, afirmar que a adoção dos trangênicos é um suicídio para o agricultor.
“Os custos para produção estão cada vez maiores. A semente tem um preço maior, os combustíveis estão cada vez mais caros, assim como os próprios venenos agrotóxicos, que também são derivados do petróleo. Além disso, os fertilizantes estão aumentando constantemente e os trangênicos estão exigindo cada vez mais o seu uso. A prioridade dada pelos pequenos agricultores à produção de grãos e transgênicos acaba por aprofundar o modelo que vai levá-lo à ruína”, conclui Pedro.
Dados do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) mostram que entre 2000 e 2005, no Rio Grande do Sul, o consumo de glifosato cresceu 85%, enquanto a área plantada expandiu pouco mais de 30%. No Paraná, onde os trangênicos não são tão presentes como no estado gaúcho, o crescimento dos agrotóxicos foi de menos de 7%, no mesmo período.
Tanto o setor das sementes como o dos fertilizantes são altamente concentrados e transnacionalizados. Monsanto, Syngenta, Cargill, Bunge e outras poucas capitalizam lucros recordes, em um cenário de aumento do preço dos alimentos e dos famintos no mundo. A Monsanto cresceu 42% no 3º trimestre fiscal deste ano com as vendas do herbicida Round Up e de outros herbicidas à base de glifosato.
Impacto ambiental
Além de ser insustentável do ponto de vista econômico, Christoffoli aponta os riscos ambientais contidos nos transgênicos - já que não existem garantias de que estas plantações não vão contaminar as outras não-transgênicas. E com a liberação do plantio do milho transgênico, a situação se agrava. De acordo com o pesquisador, o milho tem uma fertilização aberta, com o pólen viajando a distâncias grandes. Como a América Latina é a região de origem genética do milho, a liberação pode contaminar as fontes naturais de genes, comprometendo a base genética ancestral dos povos indígenas e o futuro da humanidade. “Como o governo cometeu a imprudência de liberar o milho sem precaução de faixas e distâncias de diferentes cultivos, rebaixou os critérios a um nível que é impossível garantir que não vai haver contaminação”, afirmou.
Segundo Gabriel Fernandes, a contaminação pode ocorrer só com sementes que se perdem durante o transporte dos grãos ou com a distribuição do material transgênico para agricultores que não sabem do que se trata. “O que está em jogo aqui é que o trabalhador poderá ter sua plantação contaminada sem saber e, mesmo assim, estar sujeito à cobrança de royalties pela empresa dona da patente. Ou seja, é uma forma da empresa explorar o agricultor sem que ele sequer esteja ciente disso”, concluiu.
Tanto Fernandes, quanto Christoffoli apontam que o domínio da tecnologia transgênica pelo capital só reforçam o desafio de se pensar uma transição do padrão de agricultura industrial para formas que sejam menos dependentes de recursos externos - fertilizantes e agrotóxicos - além de mais diversificadas, em respeito à natureza.
