Grandes transformações no campo abrem a perspectiva do MST se reposicionar na luta de classes
PorSandra Quintela
socioeconomista da Rede Jubileu Sul
A crise que aflige os mercados financeiros tem sido motivo de grande preocupação e está, diariamente, estampada nas manchetes dos jornais de todo o planeta. Não é para menos, milhares de milhões de dólares e euros estão virando pó da noite para o dia.
Só na segunda semana de outubro, a Alemanha anunciou um pacote de 470 bilhões de euros de resgate aos bancos; o Reino Unido aplicou 37 bilhões de libras (US$ 64 bilhões) para recapitalizar bancos; a França decidiu ajudar com até 300 bilhões de euros seu sistema financeiro; e, no Brasil, o Banco Central anunciou a liberação de recolhimento compulsório, deixando disponíveis R$ 100 bilhões para o setor financeiro.
Querem nos fazer crer que a origem dessa crise se deve ao financiamento da casa própria de cidadãos e cidadãs dos Estados Unidos. Casas construídas com tijolo, cimento e tudo mais que, aparentemente, fazem desmoronar mercados financeiros do mundo inteiro. Hipotecas que se transformam em outros papéis comercializados mundo afora, pelo preço que o mercado diz valer. Sem nenhum tipo de controle para comprovar se eles, de fato, valiam o que os operadores dos mercados financeiros diziam valer.
E agora, querem nos fazer crer que “com o aquecimento do mercado imobiliário, as financeiras americanas passaram a confiar de modo excessivo em pessoas que não tinham bom histórico de pagamento de dívidas”. De que modo essas financeiras agem, sobre que tipo de regulamentação e sobre que modalidades de transparência, parecem significar pouco para justificar a origem da crise financeira.
Enquanto isso, a rádio das Nações Unidas noticia:
“A Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) informou que os altos preços dos alimentos levaram mais 75 milhões de pessoas a passar fome no mundo. De acordo com a FAO, o total de famintos em 2007 aumentou para 923 milhões”.
“O Fundo Monetário Internacional (FMI) anunciou, dia 25 de setembro, que pelo menos cinqüenta países continuarão sofrendo os efeitos das crises energética e alimentar no próximo ano.”
“O Escritório de Assistência Humanitária das Nações Unidas (Ocha), juntamente com várias agências da organização, lançou um apelo de mais de US$ 107 milhões, o equivalente a R$ 171 milhões, para os sobreviventes de tempestades tropicais no Haiti”.
Enquanto isso, o governo haitiano, por exigência dos bancos multilaterais e de países credores, continua pagando, mensalmente, cerca de U$ 6 milhões de juros de sua dívida externa.
Recursos para os povos, não para os bancos!
Esses milhões e bilhões anunciados todos os dias para socorrer o sistema financeiro representam cifras que, para as maiorias, não dizem nada; mas para alguns representa o significado máximo de suas vidas: a busca pelo lucro, pelo ganho sem limite. Diante dessa crise, o sistema capitalista global parece querer esconder seus dogmas fundamentais, como a idéia apregoada aos quatro cantos de que o mercado se auto-regula e que a economia sem a interferência do Estado funciona muito bem, obrigada.
Esses dogmas foram aplicados radicalmente durante os anos de 1980 e 1990 pelas políticas de Ajuste Estrutural, muito comuns naqueles tempos. O FMI e os governos do Sul, como os de países da África, Ásia e América Latina, na sua maioria, aplicaram sem críticas ou pudor essas políticas que agora vão por água abaixo e viram pó, como os bilhões que estão sendo destinados a salvar bancos privados nos países do centro do capital.
Esse processo de reestruturação do “mercado livre global”, que tem suas raízes na crise de endividamento dos anos de 1980, vem mostrando ao longo dos últimos 25 anos - pelo menos -, que a conta termina chegando para os países da periferia do capital. Pagamos com as privatizações, novos processos de sobre-endividamento, novas faces da dívida pública (como a dívida interna) e a perda de direitos dos trabalhadores e trabalhadoras (como a reforma da previdência social, pela qual passaram muitos países).
O FMI já anunciou que estariam disponíveis U$ 250 bilhões para ajuda aos países emergentes. O G-20 (que reúne 19 países de economias centrais e periféricas, mais a União Européia, FMI e Banco Mundial) também é chamado a contribuir no processo global de salvar o sistema financeiro.
Salvar quem de quê? Salvar bancos sem contrapartida nenhuma para a sociedade? São recursos dos contribuintes que estão sendo queimados na fogueira da especulação financeira criada pelo dogma do mercado auto-regulado.
Na semana de 12 a 19 de outubro, organizações no mundo todo estiveram em luta. Por soberania alimentar, contra o pagamento das dívidas financeiras ilegítimas e pela cobrança das dívidas sociais e ambientais. Certamente, novos ciclos de sobre-endividamento se avizinham de países como o Brasil, Argentina, México e outros. A conta virá novamente com essa faceta para nós: a continuidade de nossos endividamentos. Recursos públicos - que deveriam atacar os problemas centrais das nossas sociedades, como reforma agrária e urbana, educação e saúde de
qualidade, dentre outros - continuarão sendo destinados a pagar a festa do cassino global. Até quando?
Mais do que nunca jornadas de lutas são necessárias. Precisamos enfrentar de forma
articulada as crises que nos cercam: a financeira, a de alimentos, a energética e a climática. O que está em risco, mais do que nunca, não é o fim do capitalismo. Eles vão encontrar uma maneira de se reciclar com a crise. O que está em risco é a humanidade. A possibilidade das presentes e futuras gerações terem as suas existências garantidas neste planeta. E quem vai pagar essa conta?
*Artigo publicado na agência Brasil de Fato (15/10)
